sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Federico Luppi

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1936 - 2017
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Tu (2016)

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Tu de Hugo Pinto é uma curta-metragem portuguesa de ficção com argumento do realizador e de Patrícia Torres que, sob a narração de Afonso Pimentel, nos revela a existência dos mundo... o d'Ele (Gonçalo Cabral) que vive numa constante noite tentando desesperadamente passar para o outro lado onde Ela (Catarina Lima) o espera.
"Ele" apresenta-se como alguém abandonado pela mãe e que nunca conheceu um amor verdadeiro - a noite -, por sua vez, "Ela" é a luz que chega e que o seduz, que lhe confere o tal calor e a proximidade para com outro alguém que lhe falta e que assume como o primeiro e talvez único contacto afectivo estabelecido até então. Ao conseguirem encontrar-se pertencendo a dois mundos tão distintos, ambos embarcam numa viagem performativa que celebra a vida, a entrega, a cumplicidade e até o amor que confessam ser mútuo estando ele, no entanto, sempre receoso de uma partilha de sentimentos que possa, em última instância, fazê-lo sentir-se perdido e, em última instância, novamente abandonado fazendo-o não só viver mas também temer este amor recentemente encontrado.
Sob uma coreografia de Cifrão, Gonçalo Cabral e Catarina Lima fazem cumprir uma óbvia cumplicidade que se torna no tema e no assunto principal desta curta-metragem. Por entre a intensidade dos seus olhares, o argumento de Hugo Pinto e Patrícia Torres ganha uma complexidade ilusória deixando claro que o único sentimento pelo qual vale a pena lutar e quebrar barreiras é o amor... Independentemente das potencialmente futuras desilusões ou da falta de concretização de um sentimento - O sentimento -, nada seria pior do que não vivê-lo... não sequer saber reconhecê-lo. Assim, e deixando claro que o próprio amor pode quebrar não só todas as barreiras como principalmente fazer sentir, viver e experimentar a tal luz que também é possível para lá de qualquer "portão", Tu - do título da curta-metragem à personificação dessa dita luz - cativa pela dança das palavras e por fazer crer que tudo é, realmente, possível.
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6 / 10
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Lar Doce Celular (2016)

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Lar Doce Celular de Alek Lean é uma curta-metragem brasileira de ficção cujo tema é não só pertinente como actual na medida em que tenta reflectir sobre as relações humanas neste século XXI no qual todos perdemos mais tempo a olhar para o ecrã de um telemóvel do que propriamente para todo o mundo que passa mesmo ao nosso lado.
Ao estilo do cinema mudo, com direcção de fotografia a preto & branco e acompanhado por música ambiente, Lar Doce Celular apresenta "Luan", um jovem homem que num passeio pela cidade esbarra com um homem que acha atraente e que persegue na esperança de que ele note. O outro, ocupado com o seu telemóvel e distante da realidade ao seu redor, só nota quando "Luan" se torna mais fisicamente presente e o puxa para o seu lado. A relação, que se torna física e aparentemente apaixonada apenas para terminar muito repentinamente não pela continuidade da história mas sim por uma questão de edição.
Aquilo que temos depois é o desenvolvimento de uma nova relação entre "Luan" e o seu novo telemóvel que comprou na rua, o qual o acompanha para todo o lado nas mais diversas actividades, incluindo em casa, esquecendo até o seu felino que passa a ser um "objecto" que ele ignora como tantos outros. Mas o que acontece quando o seu novo melhor amigo lhe é roubado? "Luan", incapaz de identificar o assaltante pois os rostos e as pessoas passaram a ser invisíveis no mundo que criou mas, no entanto, é a ausência deste telemóvel que o leva - a seu tempo - a adquirir novas competências motoras (que na prática nunca havia perdido mas sido desprezado), recordando através de pequenas pistas que afinal, sabe qual a identidade do seu assaltante.
O realizador adapta ao grande ecrã esta história de uma nova realidade social em que cada um de nós está cada vez mais dependente das novas tecnologias - dos telemóveis aos computadores portáteis - esquecendo o contacto humano, a interacção com os demais e até mesmo vermos os espaços mais ou menos interessantes pelos quais atravessamos todos os dias como se tanto espaço como a pessoa mais não fossem do que duas entidades anónimas incapazes de criar uma qualquer ligação. Saberá qualquer um de nós identificar um caminho que percorremos todos os dias ou, por sua vez, a banalidade das rotinas impede-nos de identificar o mais comum dos elementos que se encontra ao nosso lado?
Numa história que condena - a seu tempo - esta nova realidade humana bem como tenta demonstrar que o karma (por vezes) surge mesmo diante do nosso nariz, Lean utiliza alguns aspectos interessantes como conjugar esta nova realidade social mas ao "som" do cinema mudo numa dualidade entre épocas e momentos que se opõem - e opõem o espectador - a dois espaços temporais concretos da História. Interessante pela sua crítica social - ao "eu" no meio de um "nós" que nunca chegamos a observar concretamente -, falta apenas a Lar Doce Celular apenas algum trabalho na edição dos vários momentos temporais - primeiro conhecimento de "Luan" por parte do espectador, a sua relação com o seu novo apaixonado e o reencontro com a sua própria essência - dinamizando assim não só a história do protagonista mas também a sua relação com o mundo à sua volta que tanto insiste em ignorar.
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5 / 10
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Gotham Independent Film Awards 2017: os nomeados

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Arrancou oficialmente a temporada de prémios da época 2017. Foram ontem anunciados os nomeados aos Gotham Independent Film Awards atribuídos ao melhor do cinema independente  do último ano.
São os nomeados:
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Melhor Filme
Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino
The Florida Project, de Sean Baker
Get Out, de Jordan Peele
Good Time, de Benny Safdie e Josh Safdie
I, Tonya, de Craig Gillespie
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Melhor Documentário
Ex Libris - The New York Public Library
, de Frederick Wiseman
Rat Film
, de Theo Anthony
Strong Island
, de Yance Ford
Whose Streets?
, de Sabaah Folayan e Damon Davis
The Work
, de Jairus McLeary e Gethin Aldous
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Série Revelação - formato longo

Atlanta (FX)
Better Things (FX)
Dear White People (Netflix)
Fleabag (Amazon Studios)
Search Party (TBS)
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Série Revelação - formato curto
555 (Vimeo)
Inconceivable (YouTube)
Junior (Blackpills, VICE)
Let Me Die a Nun (Vimeo)
The Strange Eyes of Dr. Myes (YouTube)
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Melhor Actor
James Franco, The Disaster Artist
Willem Dafoe, The Florida Project
Daniel Kaluuya, Get Out
Robert Pattinson, Good Time
Harry Dean Stanton, Lucky
Adam Sandler, The Meyerowitz Stories (New and Selected)
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Melhor Actriz
Haley Lu Richardson, Columbus
Melanie Lynskey, I Don't Feel At Home in This World Anymore.
Margot Robbie, I, Tonya
Saoirse Ronan, Lady Bird
Lois Smith, Marjorie Prime
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Actor Revelação
Mary J. Blige, Mudbound
Timothée Chalamet, Call Me By Your Name
Harris Dickinson, Beach Rats
Kelvin Harrison, Jr., It Comes at Night
Brooklynn Prince, The Florida Project
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Prémio do Júri para o Elenco
Mudbound, Carey Mulligan, Garrett Hedlund, Jason Clarke, Jason Mitchell, Mary J. Blige, Rob Morgan e Jonathan Banks
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Melhor Argumento
The Big Sick, Emily V. Gordon e Kumail Nanjiani
Brad's Status, Mike White
Call Me By Your Name, James Ivory
Columbus, Kogonada
Get Out, Jordan Peele
Lady Bird, Greta Gerwig
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Prémio Bingham Ray - Realizador Revelação
Maggie Betts, Novitiate
Greta Gerwig, Lady Bird
Kogonada, Columbus
Jordan Peele, Get Out
Joshua Z Weinstein, Menashe
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European Film Awards - European Discovery / Prix FIPRESCI 2017: os nomeados

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A Academia Europeia de Cinema divulgou ontem os nomeados na categoria European Discovery / Prix FIPRESCI aos European Film Awards que visa premiar a primeira longa-metragem de um realizador Europeu.
São os nomeados:
  • Bezbog, de Ralitza Petrova (Bulgária/Dinamarca/França)
  • Die Einsiedler, de Ronny Trocker (Alemanha)
  • Estiu 1993, de Carla Simón (Espanha)
  • Lady Macbeth, de William Oldroyd (Reino Unido)
  • Petit Paysan, de Hubert Charuel (França)
Os vencedores serão conhecidos numa cerimónia a realizar no próximo dia 9 de Dezembro em Berlim, na Alemanha.
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Umberto Lenzi

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1931 - 2017
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Danielle Darrieux

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1917 - 2017
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Gord Downie

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1964 - 2017
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terça-feira, 17 de outubro de 2017

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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

John Dunsworth

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1946 - 2017
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Roy Dotrice

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1923 - 2017
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domingo, 15 de outubro de 2017

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sábado, 14 de outubro de 2017

Fátima (2017)

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Fátima de João Canijo é uma longa-metragem portuguesa que junta um conjunto de onze actrizes numa peregrinação religiosa desde Vinhais em Bragança até Fátima.
Fátima (Cleia Almeida), Nanda (Vera Barreto), Ana Maria (Rita Blanco), Amparo (Ana Bustorff), Nazaré (Íris Macedo), Isabel (Teresa Madruga), Céu (Anabela Moreira), Rosário (Alexandra Rosa) e São (Teresa Tavares) vão em peregrinação a Fátima. Acompanhadas por Isaura (Márcia Breia) e Carla (Sara Norte) que lhes providenciam as condições mais básicas para a sua viagem, as nove mulheres fazem-se à estrada numa viagem de mais de quatrocentos quilómetros por percorrer até chegarem à cidade santa.
Canijo, que também é autor do argumento - deste documentário ficcionado... ou ficção documental? -, recorre uma vez mais a dois dos mais emblemáticos rostos do seu cinema - Blanco e Moreira - nesta história sobre devoção, martírio e conhecimento pessoal que o espectador acompanha ao ritmo de algum drama, humor, incerteza e até mesmo alguma violência psicológica que os vários momentos desta viagem proporcionam às suas personagens tendo quase sempre como foco principal a "Céu" de Moreira.
Numa viagem tida com a necessidade de algum rigor e tradição, forma-se um inesperado grupo de mulheres da mesma vila que decide "pagar" a sua promessa respeitando os favores divinos prestados pela Nossa Senhora. A crença e a fé tomam o lugar e todos os momentos deste grupo de mulheres - peregrinas e acompanhantes - são delineados com aquilo que o lugar comum de anos passados determina como correcto. Não há espaço para incertezas, para atalhos ou tão pouco para os escassos espíritos livres que inesperadamente tomam o lugar central desta longa caminhada onde para lá da fé, que nunca é questionada, são os propósitos e a devoção de cada uma delas que são colocadas a teste não pelo espírito divino mas sim pelas demais que insistem que ali só existe um rumo... aquele da continuidade.
Os propósitos destas mulheres não chegam a ser conhecidos na sua totalidade, afinal as promessas a pagar e o agradecimento ao divino apenas a cada uma delas diz respeito como um pacto silencioso que havia sido estabelecido com o espírito sagrado e não para ser partilhado com aquelas outras mulheres que, como manda o bom espírito católico, delas faz pecadoras arrependidas e sujeitas ao perdão divino. Não, ali conhecemos apenas as mulheres que tomaram a estrada para fazer o seu percurso sujeitando-se às maleitas físicas de uma viagem que será psicologicamente desgastante para elas que convivem com a diferença pessoal de cada uma delas e para o espectador que cria empatia ou repúdio por alguns dos comportamentos ali manifestados.
As dinâmicas de grupo estabelecidas parecem respeitar apenas uma das peregrinas... A "Ana Maria" de Rita Blanco que para lá de dinamizar o grupo se torna como uma líder nem sempre silenciosa que testa os comportamentos das demais ou até mesmo as condena pela diferença que algumas trazem ao grupo. O espectador entende-a como aquela que já faz este percurso há mais tempo, independentemente de não conhecer os seus motivos, mas vê nela uma mulher de fé, que persistentemente "paga" a sua promessa que entendemos ter sido grande e que, ligada a um forte sentido tradicional, espera e insiste no respeito, na tradição e mesmo na penitência... afinal, naquele percurso sagrado não há lugar para música, conversas despropositadas ou até mesmo um qualquer desafio ao seu mando... que é quase uma lei. Do outro lado encontramos a "Céu" de Anabela Moreira, silenciosamente - não sempre - rebelde e um espírito livre - para os bons costumes - que insiste (não assumidamente) que o percurso pertence a cada uma delas e que apenas o devem àquela por quem inicialmente se puseram a caminho... à Nossa Senhora. As tensões de grupo chegam quando estas duas mulheres começam a colidir uma com a outra colocando o demais grupo numa situação de não ingerência ou então aliadas à veterana "Ana Maria".
São estas dinâmicas que são essencialmente exploradas nesta história e que levam o espectador a observar não tanto o caminho geográfico que elas efectuam mas sim aquele psicológico e de fé que as leva a dar um passo atrás do outro rumo a Fátima onde poderão finalmente agradecer pelo bem que lhes foi feito. Neste sentido, enquanto as observamos nas suas conversas cada vez mais mordazes e, até mesmo condenatórias, face a uma "Céu" silenciosa nos seus motivos e que desafia a própria autoridade de "Ana Maria" ou de uma "Isaura" (Breia) matriarca de um grupo que pela força da sua idade quer impôr um "correcto" a um grupo que se distancia pelas suas histórias pessoais, o espectador acompanha as pequenas nuances e detalhes que são conferidas a cada uma destas mulheres cujas histórias são pontualmente abordadas - por vezes ao mesmo tempo -, possibilitando-o de escolher sobre qual quer realmente saber mais um pouco. Afinal, não são dinâmicas também as conversas de qualquer um de nós em grupo?!
A insatisfação para e com a diferença e mesmo direccionada face àquela(s) que decide(m) levar o seu próprio rumo atinge o seu clímax quando são inseridos elementos estranhos ao grupo - a única presença masculina do mesmo - fazendo-as questionar sobre os propósitos de uma "Céu" que agora tratam com desdém e que assumidamente não irá estar para ser tratada como o elemento indesejado de um grupo demasiadamente concentrado numa fé e num respeito que, essencialmente, não conferem a uma das suas. Afinal, depois de escutarmos as insinuações de grupo e até mesmo os comportamentos violentos que acabam por ter face à personagem interpretada por Moreira, até que ponto estará de facto a fé destas mulheres a "funcionar" da melhor forma? Onde está o seu espírito fraterno ou, em última análise, que vão elas pagar com a sua peregrinação quando, na realidade, demonstram um espírito tão pouco solidário e cristão?!
No entanto, é nos últimos instantes desta Fátima que o espectador compreende finalmente o espírito da missão... que compreende o remorso... que compreende que todos os pequenos grandes obstáculos que atravessaram estão, afinal, para trás. Todas chegaram àquele espaço santificado convictas das suas acções, capazes de perdoar o imperdoável e sentir que talvez através do seu sacrifício poderão os seus problemas ficar resolvidos. A devoção de todas é então compreendida pelo espectador como o resultado de uma manifestação individual e de um percurso que, ainda que tido em comum, é o resultado de toda uma experiência de crescimento individual resultante de uma história de vida... de uma equação que não é comum a nenhuma delas e capaz de transformar o breve segmento final onde se confirma o reencontro num momento emocionalmente desarmante tal a magia e o misticismo capaz de ser captado pela câmara de Canijo numa multidão de pessoas que, todas elas, partilham uma experiências cujas variáveis são (foram) infinitas.
Se Rita Blanco é uma força da natureza - não há expressão melhor para caracterizar esta brilhante actriz - aqui capaz de sair do registo mais familiar que o espectador conhece e que, eventualmente pela força da experiência e da vida da sua "Ana Maria", se transforma numa mulher que mantém a força e o espírito do grupo por vezes à custa do suposto ela mais fraco... é este, na personagem de Anabela Moreira que se destaca por aquele que é, eventualmente, o propósito mais trágico e sofrido num percurso que é essencialmente levado em silêncio e de rosto fixado na estrada que corre como que uma continuação da sua penitência. Mas esta longa-metragem está repleta de intensas interpretações como a sofrida de Teresa Tavares cujo propósito apenas conhecemos já bem perto do final, a versão mais jovem de uma "Ana Maria" na pessoa de Cleia Almeida para quem o costume tem de ser uma lei não escrita ou mesmo a "matriarca" de Márcia Breia que - provas não necessitadas - confirma uma vez mais que todas as suas personagens são dotadas de uma força interior que apenas ela é capaz de domar... concordemos ou não com os seus propósitos gerais... mas o espectador vibra com cada um dos seus breves, corrosivos e mordazes comentários que não levantam o espírito mas o condenam a uma nova sentença por ela atribuída.
Pontualmente pertinente sobre o estudo das dinâmicas de grupo mas essencialmente um intenso registo sobre a construção de personagens às quais estas brilhantes onze actrizes souberam dar uma alma - ainda que o espectador não concorde ou se coloque ao lado de todas elas -, Fátima é sobretudo um filme sobre as histórias pessoais que os vários silêncios contam. Sobre a forma como facilmente avaliamos ou julgamos o "outro" - especialmente no percurso que aqui é estabelecido e proposto - esquecendo que também ele pode ter um propósito maior tão ou mais digno que aquele que julgamos cumprir mas também um filme que analisa de forma breve, mas impactante, o poder do perdão.
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7 / 10
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terça-feira, 10 de outubro de 2017

European Film Awards - European University Film Award 2017: os nomeados

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Foram há instantes divulgados no decorrer do FilmFest Hamburg, os nomeados na categoria de European University Film Award para a trigésima edição dos European Film Awards.
São os nomeados:
  • Hjartasteinn, de Gudmundur Arnar Gudmundsson (Islândia/Dinamarca)
  • Home, de Fien Troch (Bélgica)
  • Nelyubov, de Andrey Zvyagintsev (Rússia/Bélgica/Alemanha/França)
  • Toivon Tuolla Puolen, de Aki Kaurismäki (Finlândia/Alemanha)
  • The War Show, de Andreas Dalsgaard e Obaidah Zytoon (Dinamarca/Síria/Finlândia)
Os filmes nomeados serão avaliados em vinte e uma universidades Europeias e o vencedor será anunciado no próximo dia 9 de Dezembro no decorrer da cerimónia dos European Film Awards que irá decorrer em Berlim, na Alemanha.
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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Fénix - Premio Iberoamericano de Cine 2017: os nomeados

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Foram hoje anunciados os nomeados aos Fénix - Premio Iberoamericano de Cine relativos a 2016-2017 que visam premiar as melhores obras cinematográficas da Península Ibérica e América Latina.
São os nomeados:
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Melhor Longa-Metragem de Ficção
El Ciudadano Ilustre, de Mariano Cohn e Gastón Duprat
Estiu 1993, de Carla Simón
A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho
O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues
La Región Salvaje, de Amat Escalante
Una Mujer Fantástica, de Sebastián Lelio
Viejo Calavera, de Kiro Russo
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Melhor Documentário
Como Me Da la Gana II, de Ignacio Agüero
Cuatreros, de Albertina Carri
La Libertad del Diablo, de Everardo González
No Intenso Agora, de João Moreira Salles
El Pacto de Adriana, de Lissette Orozco
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Melhor Realização
Mariano Cohn e Gastón Duprat, El Ciudadano Ilustre
Carla Simón, Estiu 1993
Sebastián Lelio, Una Mujer Fantástica
João Pedro Rodrigues, O Ornitólogo
Amat Escalante, La Región Salvaje
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Melhor Interpretação Masculina
Ricardo Darín, La Cordillera
Eduard Fernández, El Hombre de las Mil Caras
Eduardo Martínez, Santa y Andrés
Oscar Martínez, El Ciudadano Ilustre
Leonardo Sbaraglia, El Otro Hermano
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Melhor Interpretação Feminina
Liliana Biamonte, Medea
Paulina García, La Novia del Desierto
Bárbara Lennie, María (y los Demás)
Daniela Vega, Una Mujer Fantástica
Antonia Zegers, Los Perros
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Melhor Argumento
Andrés Duprat, El Ciudadano Ilustre
Carla Simón, Estiu 1993
Pedro Pinho, Luísa Homem, Leonor Noivo e Tiago Hespanha, A Fábrica de Nada
Amat Escalante e Gibrán Portela, La Región Salvaje
Raúl Arévalo e David Pulido, Tarde para la Ira
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Melhor Montagem
Didac Palou e Ana Pfaff, Estiu 1993
Cláudia Oliveira, Edgar Feldman e Luísa Homem, A Fábrica de Nada
Jaume Martí e Bernat Vilaplana, A Monster Calls
Soledad Salfate, Una Mujer Fantástica
Fernanda de la Peza e Jacob Secher Schulsinger, La Región Salvaje
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Melhor Fotografia - Ficção
Javier Juliá, La Cordillera
Ramiro Civita, El Invierno
Manuel Alberto Claro, La Región Salvaje
Benjamín Echazarreta, Una Mujer Fantástica
Pablo Paniagua, Viejo Calavera
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Melhor Fotografia - Documentário
Nicolas Van Hemelryck, Amazona
Matías Mesa, Ejercicios de Memoria
María Secco, La Libertad del Diablo
Adrián Orr, Niñato
Mario Caporali, El Teatro de la Desaparición
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Melhor Música Original
Camilo Sanabria, Amazona
Alberto Iglesias, La Cordillera
Quincas Moreira, La Libertad del Diablo
Fernando Velázquez, A Monster Calls
Rodrigo Leão, No Intenso Agora
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Melhor Som
Santiago Fumagalli e Federico Esquerro, La Cordillera
Santiago Fumagalli, Pierre-Yves Lavoué e Federico Esquerro, El Invierno
Marc Orts, Oriol Tarragó e Peter Glossop, A Monster Calls
Nuno Carvalho, O Ornitólogo
Sergio Díaz, Vincent Arnardi e Raúl Locatelli, La Región Salvaje
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Melhor Direcção Artística
Sebastián Orgambide e Micaela Saiegh, La Cordillera
Fernanda Carlucci, As Duas Irenes
Pepe Domínguez del Olmo, El Hombre de las Mil Caras
Eugenio Caballero, A Monster Calls
Estefanía Larraín, Una Mujer Fantástica
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Melhor Guarda-Roupa
Laura Donari, El Ciudadano Ilustre
Anne Cerutti, As Duas Irenes
Ana Aguila, Estiu 1993
Rô Nascimento, Joaquim
Muriel Parra, Una Mujer Fantástica
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Melhor Série - Drama
3% - Temporada 1
Las Chicas del Cable - Temporada 1
Cuatro Estaciones en La Habana - Temporada 1
Estocolmo - Temporada 1
Narcos - Temporada 2
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Melhor Série - Comédia
Club de Cuervos - Temporada 2
Feriados - Temporada 1
Nafta Súper - Temporada 1
Prata da Casa - Temporada 1
Run Coyote Run - Temporada 1
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Melhor Elenco - Série
Bala Loca - Temporada 1
Cuatro Estaciones en La Habana - Temporada 1
El Marginal - Temporada 1
Narcos - Temporada 2
Vis a Vis - Temporada 2
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A quarta edição dos Fénix - Premio Iberoamericano de Cine irá decorrer no próximo dia 6 de Dezembro no Teatro de la Ciudad Esperanza Iris, na Cidade do México.
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domingo, 8 de outubro de 2017

Jean Rochefort

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1930 - 2017
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quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Al Berto (2017)

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Al Berto de Vicente Alves do Ó é uma longa-metragem portuguesa e a mais recente obra do realizador de Quinze Pontos na Alma (2011), Florbela (2012) e O Amor é Lindo... Porque Sim! (2016) agora centrado num período da vida do poeta Al Berto.
Verão de 1975. Al Berto (Ricardo Teixeira) regressa a Sines depois de uma temporada em Bruxelas e ocupa o antigo palacete da família onde passa a viver em comunidade com mais jovens da vila. Numa terra que agora vive a liberdade, Al Berto conhece João Maria (José Pimentão) por quem se apaixona. Num momento em que todos experimentam essa liberdade recentemente alcançada, estará a população à sua volta receptiva a aceitar o amor?
Com argumento também escrito pelo realizador tendo como base acontecimentos da vida do seu irmão João, Al Berto é o tal filme necessário que relata a história dentro da História. Privados de um cinema que transporte o espectador para as pequenas grandes histórias daqueles que compõem um imaginário colectivo - tantas vezes perdido - sobre as figuras maiores da História Portuguesa, este Al Berto entrega ao espectador um pequeno mas intenso relato sobre o poeta regressado a um país perdido nos caminhos de uma liberdade sem rumo. Os instantes iniciais de Al Berto em que o próprio conversa com uma prostituta - numa breve mas brilhante interpretação de Rute Miranda de quem, de imediato, me confesso fã - denunciam aquilo que poderemos - em certa medida - reter da história futura. "Al Berto" (o homem) chega a uma terra que conhece, que foi sua mas que pela força de um destino que agora começa a ser escrito está longe de ser aceite na sua totalidade pela mesma. "Al Berto" experimentou o mundo, a vida, a sua sexualidade, as suas amizades, os seus conhecimentos e até mesmo esse tal futuro já vivido noutros cantos da Europa ainda distante deste Portugal então recentemente descoberto. Desta forma, "Al Berto" é assim uma luz que insiste brilhar num canto escuro, ainda oprimido e onde a liberdade chega ainda com os pequenos grandes traços da ditadura que todos castrou. Brilhar por de mais (ou menos) poderá tornar-se assim no dilema que recusa aceitar mas com o qual se depara numa sociedade que agora pode dizer tudo... sem limites... sem fronteiras... mas que impede o próximo de viver a sua vida com igual liberdade.
Mas, se é a liberdade que serve de condutor para uma história centrada em meados da década de '70 neste tal Portugal recém enamorado pela mesma é, no entanto, o amor que acaba por comandar os destinos de todas as suas personagens. Sedentos de novas experiências e de uma vida que os fizesse alcançar o mundo - ainda que a partir da sua Sines natal -, o então grupo de jovens apaixonava-se pela ideia de poder viver a sua juventude, os seus amores e um ideal de liberdade que os levava à própria concepção de experimentar o amor. Saídos de um regime em que a manifestação de sentimentos era, também ela, mal vista pela sociedade e em que os papéis sociais eram previamente definidos pelas "normas" de então, agora encontram-se num período da sua vida - e da História - que permitia o amor sem barreiras, limites ou imposições pré-concebidas. Assim, se para "Sara" (Raquel Rocha Vieira) este amor parecia ser completo com a presença de "João Maria", ou para "Clara" com a hipótese de ser alguém, existe uma "Leonor" (Gabriela Barros) para quem essa noção de amor mais não é do que uma efeméride que nunca viveu, um "Duarte" (José Leite) que vive num limbo apenas confirmado mais tarde com "Cândida" (Mia Tomé). Mas, no entanto, é sobre a relação entre "João Maria" (José Pimentão) com "Al Berto" (Ricardo Teixeira) que tudo para acontecer e confirmar que o amor vem sempre acompanhado de uma certa tragédia (pessoal) que o impede de ser pleno.
No Portugal de então saído de uma violenta ditadura que acabou por colher a vida de muitos jovens - e outros tantos que tiveram de se transformar em adultos forçados muito repentinamente - "Al Berto" chega a uma vila de certa forma tradicional e onde a ideia de vida (ou de relação) prende-se às velhas normais instituídas como "correctas". Homem encontra mulher, homem casa com mulher. Homem e mulher têm filhos. Todos acabam por, de forma inconsciente, respeitar estas regras sociais que definem o bom comportamento e a "boa família". No entanto, "Al Berto" vai encontrar um "João Maria" por quem se apaixona imediatamente. As breves mas intensas trocas de olhares confirmam não só a imediata empatia entre ambos como uma atracção que se vê consumada com os momentos apaixonados que, mais tarde, a sociedade descobre e tenta reprimir por não serem "normais" esquecendo que no amor não existe a tal normalidade que anos de repressão insistiram em impôr como norma. Surge então no espectador a questão sobre a directa relação entre um amor que se quer normalizado como directa influência de uma liberdade que poderá (?) também ela, ser normalizada ou, ainda por outras palavras, onde difere a relação entre o regime ditatorial que vigorou no país em relação ao ideal de liberdade deste pós-25 de Abril que aparenta querer ser, também ela, autoritária e pouco respeitadora da individualidade de cada um?
É neste deambular de um ideal de liberdade e amor, de experimentação e de redenção que essa esperada liberdade chega, trazendo com ele todo um conjunto de inesperadas responsabilidades, perdas, lamentos e ainda que o amor (ou a sua vivência) compreende o afastamento de uma posse ou de uma certeza de ideal enquanto "relação"... diz-se algures que nem todas as relações sobrevivem a uma guerra... que aqueles dela vindos acabam por regressar enquanto pessoas diferentes. Em Al Berto confirma-se que também a liberdade pode com ela trazer transformações nas pessoas, nos seus sentimentos face ao mundo que anteriormente conheciam e, claro está, revela no âmago de cada um, o tal despertar de algo que desconhecia ou não se sentia capaz de admitir.
Assim, e como momento central de toda esta história, o espectador assiste ao crescer de uma relação afectiva e sentimental entre "Al Berto" e "João Maria" como cresce e se torna natural o amor entre duas pessoas quando livres do preconceito pré-estabelecido pelos demais - e no qual, em boa medida, poderão ter sido educados -, deixando-se levar pelo sentimento, pela cumplicidade, pela entrega mas também pelo ciúme, pela necessidade de posse ou mesmo pela vontade de pertença ao "outro" que surge como uma extensão do "eu". "Al Berto" e "João Maria" amam-se apaixonadamente e Alves do Ó filma-o não só pela sua condição romântica e afectiva mas também carnal que, uma vez mais, se assume uma como directa extensão da outra ou não será este amor sem barreiras a imediata condição de uma liberdade assumida?
Com um dom especial em contar histórias sobre aqueles que pisaram o Portugal anos antes do seu tempo devido - afinal, tal como Al Berto não foi Florbela Espanca um vulto maior do que o país que a recebeu -, Vicente Alves do Ó dinamiza toda esta história - real - com a verve necessária para que o espectador a sinta, a viva e a compreenda como um relato de duas almas apaixonadas que apenas a fatalidade e a incompreensão do tempo e da época poderiam impedir de viver. Abrilhantado com toda uma excelência técnica - da fotografia de Rui Poças que capta a luz e as sombras que emergem o espectador numa certa libertinagem (e não o uso de forma depreciativa) dos loucos anos '70 onde tudo era novidade (a liberdade de novo), ao guarda-roupa que compõe o ambiente, sem esquecer a magnífica (uma vez mais) música de Pedro Janela que confere um certo erotismo e sensualidade aos corpos que se deixam levar pela esperada folia da época - Al Berto é de facto uma história dentro da História à qual os actores conferem a alma que tantas vezes falta às personagens (aqui reais) de uma obra cinematográfica. Aqui não nos encontramos perante personagens inventadas fruto de uma qualquer imaginação que se deixou levar por breves momentos. Aqui o espectador encontra um conjunto de actores que incorporam almas daqueles que pisaram a História - que até a escreveram nas suas respectivas áreas - e cuja memória precisa necessariamente ser preservada na sua integridade. Ricardo Teixeira é brilhante como "Al Berto", o homem para lá do poeta, vertente esta que, no entanto, é uma constante na dinamização e presença da sua história. O homem que veio para viver a sua terra mas acabou por deixar-se ele próprio viver, que tentou reatar os laços com o seu espaço e experimentar a dinâmica de uma vida comunitária onde as amizades e as cumplicidades transformam um grupo de pessoas com quem privou na inesperada família com quem tudo partilhou. Intenso, vibrante e com um olhar penetrante, Teixeira assume neste seu primeiro - de muitos futuros - desempenhos cinematográficos a dinâmica necessária para que o espectador se recorde dele.
Al Berto tem ainda um conjunto de notáveis e reconhecidos actores como Elsa Valentim ou Rita Loureiro - como mãe do próprio realizador - mas são, no entanto, os mais jovens actores que se destacam de forma imediata nesta longa-metragem. Do "Zé" de Duarte Grilo que nunca deixou a terra e que agora também a quer viver ao máximo a um trio feminino composto por Ana Vilela da Costa - cuja "Clara" sonha em conhecer o mundo -, Gabriela Barros - cuja "Leonor" sabe não ter encontrado o mundo - e Raquel Rocha Vieira - cuja "Sara" compreende ter perdido o mundo -, a José Leite com o seu "pacificador" "Duarte", sem esquecer o excêntrico "Maria Belga" de João Villas-Boas como o elemento trágico e cómico pela sua capacidade de dar alma a alguém que deixou esse mundo para chegar a uma terra onde o futuro parece insistir em não chegar e ainda uma (muito) intensa Rute Miranda que, tal como "Al Berto", cedo compreende que está numa terra e num local que são pequenos demais para toda a sua alma é, no entanto, um extraordinário e emotivo José Pimentão que com o seu "João Maria" compõe aquela que é eventualmente a alma mais atormentada desta história. De relações aparentemente cortadas com um pai - Carlos Oliveira - que viveu uma vida dupla com outra mulher - Rita Loureiro - que não a sua mãe, afastado sentimentalmente de "Sara", aquela que até então se assumia como a sua cúmplice sentimental e agora apaixonado por um "Al Berto" recentemente chegado à terra, é através dos seus olhos que o espectador conhece não só o desejo como a mágoa, o amor como também o ódio, o carnal mas igualmente o lado sentimental e finalmente a compreensão de que para lá desse sentimento seria a perda que iria comandar o seu destino deixando por concretizar aquele que - percebemos nós - seria eternamente o seu grande amor.
Fluído e inteligente, erótico mas emocional, o Al Berto de Vicente Alves do Ó é para lá da história de um momento da vida de um poeta, uma homenagem ao amor e à liberdade, à sua íntima relação e à extrema necessidade do espectador em compreender que essa liberdade - para "mim" - não começa (ou termina) com a "sua" chegada mas sim com a confirmação de uma vida vivida no total respeito dos próprios sentimentos e afastado do peso do julgamento alheio e - para o "outro" - na compreensão de que a individualidade de cada um se afirma com igual respeito que lhe é merecido, devido e, como sua lógica conclusão, conquistado.
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" (...) someday when you're lonely,
Your heart will break as mine did (...)"
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10 / 10
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Ruth Escobar

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1935 - 2017
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António de Macedo

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1931 - 2017
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Anne Wiazemsky

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1947 - 2017
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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Engagement (2017)

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Engagement de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem espanhola de ficção na qual o realizador volta a abordar a temática das relações nesta era das redes sociais e respectivas tecnologias. Até que ponto a relação o é de facto se não confirmada com inúmeras likes e fotografias de dias felizes para que todos a possam comprovar e confirmar?
Com um argumento também da sua autoria, Pérez Toledo capta de forma irónica e mordaz uma relação dita moderna. Tanto "Ele" (David Mora) como "Ela" (Andrea Dueso) são o resultado de um mundo em que as pessoas não se conhecem de forma dita normal - para os pârametros do antigamente -, mas sim através de redes sociais que ambos mantêm a título individual para que todos os demais amigos e conhecidos - mais estes - possam confirmar o seu dia-a-dia de uma forma religiosa como que uma confirmação não só da sua existência como sobretudo de uma qualquer relevância social tida como status.
Um like... alguns seguidores... muitas visualizações de página. Assim se mede a importância de cada um num mundo fisicamente distante mas que se aproxima através de um monitor que espelha a quantidade de momentos - fabricados ou não - que o "outro" resolve publicar e dar a conhecer como a sua vida. No entanto o problema chega quando dentro da referida relação se começam a controlar não só os likes que se recebem mas também aqueles que dentro do próprio casal são atribuídos a terceiros questionando a existência de uma fidelidade online que, impossível de ser traída pessoalmente, se sente ameaçada nos meandros das redes sociais.
Felicidade versus teatralidade e fidelidades versus curiosidade, Engagement é mais um trabalho do realizador espanhol que insiste em analisar os meandros das relações modernas, a sua formação, os seus inuendos e até mesmo a sua constante e crescente normalidade distanciando-se daquilo que todos conheciam como "normal" e assumindo-se como o novo modelo comportamental e de relacionamentos neste (já não tão) novo século.
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6 / 10
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Excuse (2017)

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Excuse de Diogo Morgado é uma curta-metragem norte-americana - também com argumento da autoria do realizador - que se centra no encontro entre Brenda (Daniela Ruah) e Alex (Alberto Frezza), duas pessoas que se encontram no topo de um edifício e que estabelecem uma pequena conversa sobre os porquês da vida.
Em breves minutos, Diogo Morgado consegue dirigir uma história capaz de estabelecer uma simpática dinâmica entre os seus dois actores assim como deixar a expectativa - para o espectador - sobre a potencial relação criada entre aquelas duas personagens que se encontraram num sítio improvável.
Cedo se compreende que os dois encontram-se num qualquer hospital psiquiátrico, ali levados por uma qualquer amargura e dissabor da vida que os colocou como "responsáveis" mais ou menos conscientes desse passado. Aos poucos, é-nos revelado esse passado cercado pelo acaso e pela morte, pela tragédia e pela tristeza, tendo-os levado a um ponto de ruptura onde a própria morte e a culpa se tornaram responsáveis pela sua permanência naquele local. "Alex" transforma-se no protagonista que relata toda esta história a partir da sua perspectiva - construída também a partir do encontro com "Brenda" -, revelando que foi desde aquele instante em que se cruzou com ela no topo daquele edifício, que toda a sua vida ganhou uma nova perspectiva. Quem seria aquela mulher aparentemente tão psicologicamente desgastada como ele? Qual seria a sua vida, o seu passado, a sua história e o seu dissabor? Já "Brenda", por sua vez, revela-se primeiro como o rosto de uma incerteza para de seguida compreender que o seu passado atingiu um limite que bloqueou para se salvaguardar... Mas a realidade acaba sempre por bater à porta, e é neste ponto de ruptura em que ambos se encontram que irão, finalmente, perceber que a pessoa certa capaz de o/a salvar pode surgir até no mais improvável dos locais. Afinal, se ali não estivessem... ter-se-iam alguma vez encontrado numa qualquer rua de uma enorme cidade?
O passado, como transformador e influenciador directo da história pessoal de cada um, é aqui explorado por Diogo Morgado não como um momento trágico - apesar dele ser o mote primário do futuro destas duas personagens - mas sim como o despoletar de uma história futura que o espectador retém como motivadora - e quem sabe feliz - de duas almas que encontraram um passado solitário, isolado e até mesmo limite na medida em que o mesmo levou os dois a um afastamento de uma sociedade que, no seu momento específico, resolveu virar-lhes as costas.
Ainda que não sejam aqui manifestadas quaisquer emoções pois, afinal, tanto a "Brenda" de Ruah como o "Alex" de Frezza procuram ambos a compreensão e aceitação de um passado mais ou menos recente, Morgado consegue deixar a porta aberta para um futuro em que as mesmas possam ser vividas e expressas numa total liberdade tendo a tragédia como um pano de fundo pelo qual ambos passaram. Emocionalmente mais adulta - e francamente distante pela positiva - do que a já aqui comentada longa-metragem Malapata, a curta-metrgem Excuse consegue sim deixar a porta aberta a uma interessante etapa do actor enquanto realizador de histórias que o espectador gosta de ver contadas e trazer ao cinema o rosto de uma Daniela Ruah que - finalmente - tem a oportunidade de brilhar em cinema.
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"Alex: Fear pushes us to survive."
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7 / 10
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No Place Like Home (2017)

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No Place Like Home de David Velduque é uma curta-metragem espanhola de ficção e a mais recente obra do realizador de Por Un Beso (2016) que aqui conta a história de Niko (Marius Praniauskas), um jovem que regressa à sua terra natal num país da Europa de Leste para tratar da sua mãe apenas para descobrir que aquilo que o irá esperar está longe de estar relacionado com os motivos que o levaram até ali.
Velduque e Marco Laborda escrevem o argumento desta história com que o relato não tão ficcionado de um jovem que tudo abandonou para finalmente conseguir ser feliz e honesto para com os seus sentimentos. Num país não mencionado - e que na prática não joga como uma necessidade pois conhecemos inúmeros que poderiam inserir-se fielmente nesta temática -, No Place Like Home joga com a premissa de que aquilo que o espectador observa está directamente relacionado com o que escuta na medida em que se trata de um passado recente confessado a uma mãe (Gillian Apter) cujos propósitos estão longe de relacionados com aqueles com que atraiu o seu filho de volta a casa. Assim, e à medida que observamos um "Niko" que vive a vida ao seu máximo não se privando de estabelecer algumas amizades bem como alguns paixões - mesmo que de uma só noite -, cedo percebemos que a sua fuga do seu país natal se deve exclusivamente a uma sexualidade não aceite pela sua família ou comunidade.
A homossexualidade de "Niko", repudiada pela família que a encara como (possivelmente) uma doença ou pelo menos assim o pode depreender o espectador pelas amargas palavras que o protagonista deixa escapar na carta que escreve à mãe - cujas condições para a sua elaboração apenas iremos compreender mais tarde -, serviu para que sempre se sentisse a viver numa mentira e distante do seu grupo primário no qual deveria depositar toda a confiança, bem-estar e segurança que, na realidade, percebe estarem distantes caso confessasse - como uma penitência - o seu verdadeiro "eu". "Niko" é assim não só um prisioneiro da vida que a família pensa e quer que ele viva como, em primeiro lugar, da sua própria manifestação pessoal de sentimentos e de uma sexualidade que, na realidade, não poderá alguma vez expressar encontrando-se naquele local.
É no regresso e numa recepção afectuosa que esperava encontrar a tal redenção que continua a faltar. Se os sorrisos e alguns afectos foram manifestados, cedo compreende que, afinal, o problema de saúde da mãe mais não era do que uma forma de o atrair novamente àquele espaço para um potencial "tratamento" para uma "doença" que não tem. A justiça - ou uma sua vã noção - perpetrada pela sua comunidade com o consentimento de uma família que não o encara como um dos seus, transformam-no num pária e num criminoso culpado sem julgamento de um crime que não o é, apenas conseguindo recordar todos os seus bons e felizes momentos fora de um espaço que o odeia onde conseguiu, finalmente, encontrar não só a sua alma gémea como amigos que o aceitam tal como ele é.
Como alerta, e bem, o final desta curta-metragem, esta história aqui ficcionada poderá ser uma realidade bem perto de nós - geograficamente falando pelo menos -, onde países que condenam a livre expressão dos sentimentos, da sexualidade até mesmo dos afectos, detêm aqueles que ousam - segundo as suas leis - desafiar os costumes e as tradições de que um "homem ama uma mulher", sendo todos os demais comportamentos aberrações e desvios que têm de ser denunciados, detidos e punidos para uma "purificação" social que na realidade... não existe.
Assustador não só pela forma como todo um mundo de um indivíduo pode mudar radicalmente num breve instante, mas sobretudo pela forma como a ignorância e o preconceito podem cabalmente terminar com a tolerância e o respeito dando lugar a violentas formas de amedrontar, aprisionar e aniquilar a liberdade individual. Velduque, que já se havia destacado com o brilhante e emotivo Por Un Beso (2016), consegue uma vez mais entregar um sentido filme curto com uma poderosa mensagem social e interpretado por um expressivo, intenso e dinâmico Marius Praniauskas que consegue conferir uma sofrida alma a um jovem cujo "crime" foi querer viver.
Pertinente e actual enquanto cinema social, No Place Like Home confirma David Velduque como um realizador capaz de contar de forma simples, histórias complexas e actuais que pela forma ficcionada que assumem, podem levar o espectador a reagir aos problemas sociais que se encontram a cada virar de esquina.
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8 / 10
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Brújula (2017)

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Brújula de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem espanhola de ficção que leva o espectador até um parque onde dois escuteiros (Sergio San Millán e Jaime Riba) se preparam para falar sobre algo que os incomoda desde a noite anterior.
Poderá um sentimento verdadeiro ser ocultado e viver no silêncio?
Também com argumento do próprio realizador e dirigida no âmbito do World Pride deste ano, Brújula é uma história sobre sentimentos reprimidos e um amor até então não confessado que, no entanto, quando sentido com grande convicção será impossível de silenciar. Quando uma bússola que irá indicar um caminho pretendido parece não funcionar, o amor entre estes dois jovens é, também ele, ainda algo incerto, instável e também com vontade de se confirmar. Ainda que seja desejado e sentido com algum embaraço, o "norte" parece cada vez mais difícil de alcançar e apenas a calma, a paciência e a preponderância parecem resolver aquilo que não está desconcertado.
Recorrendo a algum humor e incerteza, Pérez Toledo cria mais uma das suas curtas-metragens cujo mote principal são as relações humanas - ou a falta delas -, deixando em aberto que o principal a dois é a sua capacidade de amar - em conjunto - e não aquilo que está tradicionalmente estabelecido como uma "norma" que deverá ser seguido. Porque o amor não escolha idades, género ou até mesmo uma altura dita "certa", Brújula é assim uma confirmação de que tal como uma bússola, o amor indicará o caminho certo... ainda que para o resto do mundo possa não o aparentar ser.
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6 / 10
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Equis o Corazón (2016)

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Equis o Corazón de Roberto Pérez Toledo é uma curta-metragem espanhola que relata um encontro entre Ele (Diego Martínez) e Ela (Katia Klein), um potencial novo casal fruto de uma casualidade nas redes sociais que ambos frequenta(va)m.
Uma saída. Algumas perguntas. Os likes nas fotos alheias nas redes sociais. Os ciúmes e algum sentimento de que a vida mudou... ou talvez não.
Com argumento de Pérez Toledo, Equis o Corazón é o fruto de uma divertida análise aos encontros e às relações saídas das redes sociais. Como surgem as compatibilidades e até que ponto são estas relações tidas e encaradas como estáveis quando numa simples aplicação num qualquer telemóvel pode determinar a rapidez com que se encontra um novo parceiro, um novo momento e uma nova suposta relação. Será esta forma de encontrar o parceiro ideal menos válida do que aquelas tidas há dez ou vinte anos atrás? O que as torna mais esporádicas e efémeras?
Ao mesmo tempo esta curta-metragem de Roberto Pérez Toledo analisa também a forma mais persistente com que, nestes nossos novos tempos, se analisam e "controlam" os comportamentos dos parceiros. Por outras palavras, se antigamente um casal estava distante e mantinha, de certa forma, uma certa independência de movimentos e, como tal, também de comportamentos que acabariam por ficar enterrados num silêncio inviolável, nos dias que hoje vivemos todas as relações fruto de encontros nas redes sociais que qualquer um de nós mantém, permite ao "outro" observar as nossas interacções dentro das mesmas e saber com quem se comunica, quem se "segue" e quem se "observa" pelo simples clicar de um "like" numa fotografia alheia. Das inseguranças ao medo do abandono que prolifera e se mantém como um tema de conversa nestas novas relações do século XXI, Equis o Corazón explora não só essas inseguranças como também lhes confere alguma ligeireza e humor... Afinal se "Ela" está com "Ele" - e vice-versa - é porque encontra compatibilidades até então não vistas... independentemente do local em que se cruzaram pela primeira vez.
Porque o amor não é simples - ou talvez seja -, transforma-o com o seu Equis o Corazón numa ciência em permanente evolução e rendição.
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6 / 10
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Miradas (2013)

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Miradas de Antonio Heras é uma (mini) curta-metragem espanhola de ficção de temática LGBT onde numa breve viagem de autocarro dois olhares se cruzam revelando incertezas e descobertas apenas disponíveis ao olhar do espectador.
Ainda que pertinente na abordagem à ideia de que o amor - ou a atracção - pode ocorrer em qualquer lugar, Miradas expõe as boas intenções do seu realizador em criar uma história pertinente e actual mas que, ao mesmo tempo, o expõe em toda a sua fragilidade. Das oscilações de câmara dado o lugar em que é filmada a toda uma captação de som exterior que prejudica a dinamização da história e do único diálogo que nela é proferida, Miradas abraça a ideia de um sentimento por explorar que, no entanto, se perde pelos elementos que fazem o espectador concentrar-se não nela - história - mas sim nas suas fragilidades e fraquezas.
Ao mesmo tempo, e para lá das incertezas reveladas pelo protagonista, Miradas deixa ainda a porta aberta para uma continuidade desta dinâmica que, no entanto, não só não é aqui explorada - pela curta duração do filme em questão - como pela impossibilidade ou falta de necessidade de criar outro filme que lhe desse um desfecho mais digno. Ainda que as intenções do realizador se compreendam em deixar todo um campo de oportunidades e ideias em aberto, o fraco clímax entregue para a conclusão deste filme curto deitam - relativamente - todos os seus objectivos a perder.
Não basta pegar numa câmara e filmar uma ideia... há que honrá-la e entregá-la não só a uma conclusão digna como sobretudo tratá-la e cuidá-la para que tudo aquilo que surge no ecrã pareça, de facto, intencional.
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3 / 10
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Headspace (2017)

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Headspace de Jake Graf é uma curta-metragem britânica centrada na temática transexual pretendendo ilustrar momentos pontuais mas transformadores na vida de um conjunto de pessoas revelando - ao espectador - as dificuldades diárias dos mesmos.
Contado na primeira pessoa, Headspace centra-se em cinco pessoas transexuais. Aquilo que para qualquer pessoa são situações normais, as quais qualquer um atravessa, para este grupo de pessoas as trivialidades ganham contornos mais agressivos e auto-prejurativos quando se vêem frente a um passado que insiste em bater-lhes à porta.
Momentos como uma ida a um wc público, tratar de uma consulta no médico ou até responder a um questionário onde um nome não corresponde à voz que escuta do outro lado do telefone ganham, para todos eles, contornos mais relevantes no seu desenvolvimento psicológico e emocional do que aqueles que para todos os demais seriam imediatamente ignorados. Em Headspace o espectador compreende que para lá de uma questão física que pode ser resolvida com uma operação, existe toda uma situação psicológica - do "eu" - e social - do "outro" - que insiste em prevalecer em sociedade levantando todo um conjunto de questões que noutras circunstâncias não existiria.
Para lá de uma reflexão sobre a parte emocional e psicológica que insiste em permanecer na mente de todos aqueles que compreenderam que o corpo que têm não representa a questão afectiva e emocional que sentem - feita pelo próprio -, Headspace reflecte ainda sobre a questão social - de toda uma comunidade - que se mantém indiferente a estas questões estabelecendo os padrões ditos tradicionais como os aceitáveis nessa sociedade que é, hoje, muito variada. De um wc público apenas feito para dois géneros, de uma voz mais "masculina" que responde quando chamado a um nome feminino, a uma consulta ginecológica para alguém que é um homem, Headspace revela situações que acabam por se inserir num domínio de violação psicológica revelando que não basta uma aparência exterior para a sociedade para se estabelecer um "papel" social... existem todo um conjunto de pequenas grandes nuances que persistem nessa mesma sociedade que acabam não só por transgredir a individualidade de cada um - as quais todos os demais nem sequer nelas pensam -, esquecendo que essa transformação não está apenas presente naqueles que têm coragem para assumir o seu verdadeiro "eu" mas também em todos os demais ainda presos a paradigmas e noções sociais tradicionais que o tempo provou não serem únicas ou verdadeiras.
Com uma importante abordagem social, Headspace revela através dos já referidos relatos na primeira pessoa, um conjunto de histórias violentamente dramáticas terminando, no entanto, com uma pequena mas determinante luz no fundo do túnel.
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7 / 10
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