segunda-feira, 30 de abril de 2012

The Patriot (1998)

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Patriota de Dean Semler conta com a interpretação principal de Steven Seagal em mais um daqueles filmes que mesmo antes de começar já sabemos que em primeiro lugar não será nada de especial e em segundo lugar irá ter uma contagem de mortes maior do que aquelas que conseguimos contar.
Depois do líder de uma milícia paramilitar libertar um vírus mortal que ameaça a vida de toda uma população, Wesley McClaren (Seagal) um médico que havia trabalhado para a CIA embarca numa luta contra o tempo para poder encontrar o antídoto que salve a vida a milhares de pessoas ao mesmo tempo que protege a vida da sua própria filha, a única que parece ser imune a este vírus mortal e que todos tentam, assim, encontrar.
Perseguições atrás de perseguições, tiros que sucedem a muitos mais tiros, irá McClaren conseguir restituir a segurança física de todos aqueles que o rodeiam e livrar-se não só de um vírus mortal como de um perigoso grupo de fanáticos que tudo faz para quebrar a ordem instaurada?
Um filme que tenha em Steven Seagal o seu intérprete principal provoca-me de imediato um conjunto bem distinto de reacções. A primeira é a de me afastar imediato pois é claro que não será nada de especial e que será pura e simplesmente uma perda de tempo. A segunda prende-se com uma vontade irracional de ver este tipo de filmes independentemente daquilo que eles possam na prática valer (que é como quem diz... nada).
Assim, com muito esforço mas pouca vontade, acabo por ver estes filmes já sabendo o pouco (nada) que fali vou retirar. Mas ao mesmo tempo é impossível não admitir que apesar de não serem nada de especial, conseguem criar uma verdadeira distracção com as suas histórias sempre iguais. Temos tiros, algumas explosões, muitos mortos e muito pouco conteúdo ou sequer uma conclusão lógica para além daquela que já é inicialmente esperada.
Na prática, e para além de algum divertimento non-sense (pelo ridículo) que consegue provocar, este género de filme não adianta absolutamente nada para o nosso enriquecimento cinematográfico. Antes pelo contrário, se o cinema se reduzisse a isto é certo e sabido que a imagem que permaneceria seria má... muito má.
Steven Seagal no seu melhor... que é como quem diz... é pouco... francamente muito pouco.
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2 / 10
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domingo, 29 de abril de 2012

La Virgen de los Sicarios (2000)

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Nossa Senhora dos Matadores de Barbet Schroeder é uma longa-metragem colombiana que mistura dois elementos bem explosivos na sua história. A violência e a pedofilia unem-se aqui numa mistura bem fatal que toma conta do filme do princípio ao fim.
Quando Fernando (Germán Jaramillo) um escritor de meia-idade regressa à sua Medellín natal depois do falecimento da sua irmã, reune-se com um grupo de velhos conhecidos numa casa onde o alcoól, a droga e o sexo com menores fazem parte de um estranho "convívio" como os próprios definem.
É nesta festa que Fernando conhece Alexis (Anderson Ballesteros), um desses jovens e por quem se apaixona começando os dois a viver juntos. A relação que funciona aos olhos de todos sem qualquer preconceito ganha contornos mais violentos quando Alexis mata indiscriminadamente todos aqueles que atentam contra o seu bem-estar, tal a facilidade com que armas e munições se encontram.
Quando Alexis é morto por um rival, Fernando parece perder o sentido da sua vida. Pelo menos até encontrar Wilmar (Juan David Restrepo), outro jovem rapaz que vai literalmente substituir Alexis. Aquilo que Fernando não sabe é que estes dois jovens por quem se apaixonou partilham muito mais do que aquilo que ele poderia imaginar.
Os dois perigosos pressupostos que compõem este filme não poderiam ser mais polémicos. Por um lado assistimos do princípio ao fim a uma violência sem limites numa cidade sem qualquer regra que pode atingir qualquer um dos seus habitantes pelo motivo mais insignificante de que possamos ter memória. Por outro, temos uma igualmente constante relação entre um adulto e um menor que são quase relegadas para segundo plano ao ponto de a certa altura quase nos parecerem "normais", devido à violência que não pára de presentear o ecrã. A certo momento, e enquanto espectadores, somos confrontados com este rebate de consciência que não poderá agradar a ninguém.
Não é um filme suficientemente relevante para que nos lembremos dele no futuro. Não tem tão pouco interpretações sólidas o suficiente para que possamos simpatizar com alguma das personagens retratadas, ao qual não ajuda o facto de estarmos a assistir a um grupo de pedófilos e marginais em plena "harmonia". No entanto tem uma estranha aliança entre os mesmos que nos faz refletir sobre o dia-a-dia podre de uma cidade onde só sobrevive quem se torna invisível.
Interessante do ponto de vista social, e da perspectiva que dá sobre a vida podre de uma cidade que já não tem ponto de salvação possível. Nem a cidade nem aqueles que nela vivem.
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4 / 10
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sábado, 28 de abril de 2012

Blood: The Last Vampire (2009)

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Blood: O Último Vampiro de Chris Nahon é a adaptação cinematográfica de uma banda-desenhada que nos remete para o Japão dos anos 70 onde Saya (Gianna Jun), uma vampira com mais de quatrocentos anos é enviada para um colégio frequentado por filhos dos militares norte-americanos, como forma de aí descobrir todos aqueles que são adoradores do demónio que pretende dominar o planeta e escravizar a espécie humana.
Saya, de aspecto frágil e no corpo de uma adolescente é uma perigosa e altamente treinada especializada em artes marciais capaz de uma frieza e insensibilidade e rigor que não a fazem demover de encontrar e exterminar todos aqueles que lhe façam frente. Depois de formar amizade com Alice (Allison Miller) no colégio, as duas irão embarcar numa intensa e perigosa viagem que irá colocar a vida de ambas em risco.
Apesar de não ser aquele género de filme que mais me entusiasma ver, hipócrita seria se não dissesse que este é o estilo de filmes que todos nós vemos quando não queremos pensar em grande coisa além de um bom momento de entretenimento em que os aspectos visuais, que passam desde as elaborados coreografias até ao meio envolvente onde o filme decorre, sejam o ponto forte.
Nesta perspectiva, apenas e só, se nos concentrarmos que não vamos ter uma história que nos irá fazer pensar e equacionar nos prós e contras que podem decorrer durante a mesma, teremos então o tipo de filme ideal. Visualmente rico, com um cenário cheio de pequenos detalhes com que podemos enriquecer o olhar e um conjunto de vampiros-monstros prontos para, a qualquer momento, assumir a sua verdadeira identidade, este filme transporta-nos para o cérebro vazio que, na prática, pretendiamos inicialmente ter.
A história em si não nos transporta para nada de novo. A eterna batalha entre o bem e o mal, os vampiros literalmente sedentos de sangue e os humanos que vivem felizes e contentes na sua ignorância ao não saber absolutamente nada do que se passa à sua volta. Dito isto... tudo dito. Ainda assim, a componente visual acaba sempre por levar a melhor e a nossa atenção para com o filme não se perde.
No entanto, o problema com este género acaba por este mesmo... nada de novo. Tudo o que aqui vemos já o tivemos em inúmeros outros filmes logo, o efeito é realmente momentâneo e, depois de terminada a sua duração, estamos exactamente no ponto de partida... Nada de novo.
Vale apenas e só como objecto de entretenimento momentâneo e vence pelas suas sequências de acção que na sua maioria conseguem ser interessantes mas que, ao mesmo tempo, não atingem o seu verdadeiro esplendor devido ao restante filme não atingir nenhum pico de originalidade que se faça afirmar. Para os apreciadores do género, aí sim, acredito que conquiste algum tipo de legião de fãs.
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2 / 10
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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Imagine: John Lennon (1988)

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Imagine: John Lennon de Andrew Solt é um excelente documentário sobre a vida do Beattle John Lennon. Realizado a partir de várias entrevistas tanto a Lennon como àqueles que com ele privaram, este documentário dá-nos um olhar não só sobre a sua vida enquanto membro deste grupo planetário como também sobre a sua vida enquanto mais jovem e pós-participação nos Beattles.
Não só podemos ter uma ideia da sua vida contada pelo próprio como por aqueles que com ele partilharam vários momentos e, talvez um dos aspectos mais importantes deste documentário, algumas das suas canções que fizeram história, nomeadamente a que dá título ao próprio documentário sobre a qual podemos assistir a algumas conversas que tivera antes de a gravar sendo que o próprio documentário termina com a música em si.
Interessante e fundamental para compreender um pouco do homem para além do cantor não perdendo com isso o valor histórico que a própria banda como os seus elementos conquistaram numa época e ao longo dos tempos.
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8 / 10
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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Sorum (2001)

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O Terrível Segredo de Yun Jong-Chan foi o vencedor dos prémios de Melhor Actriz e Melhor Realizador na edição de 2002 do Fantasporto bem como ainda recebeu no mesmo certame o Prémio Especial do Júri.
Tudo começa quando Yong-hyun, um taxista aparentemente desprendido da vida, se muda para um prédio que assume ser-lhe familiar não sabendo bem o porquê.
Após se instalar no apartamento onde o anterior inquilino literalmente ardeu, Yong-hyun conhece Sun-yeong (Jin-Young Jang), uma mulher vítima dos sistemáticos maus tratos do senhor abusador marido e que vem mais tarde descobrir ter perdido o seu filho.
A relação inicialmente de amizade e mais tarde sexual é estabelecida entre ambos para, no final, Yong-hyun descobrir quem realmente é bem como a identidade daquela mulher com quem estabeleceu uma tão estranha relação.
Este filme vencedor de vários prémios e um dos mais aplaudidos da já referida edição do Fantasporto consegue ter como um dos seus principais trunfos a estrondosa atmosfera que recria naquele tão sinistro edifício. Primeiro pela sua localização geográfica que está muito perto do fantasmagórico e de seguida pelo aspecto decadente que possui que por um lado o torna num local intrigante como por outro num daqueles espaços onde ninguém conscientemente entra.
A isto podemos juntar uma história interessante mas que, a dada altura, percebemos qual o desfecho que irá ter pelo rumo que as duas histórias paralelas acabam por retratar. As nossas suspeitas, se bem que infundadas a maior parte do tempo, encaminham-nos para aquilo que recebemos no final. Existe um efeito surpresa, é verdade, mas não ao ponto de ser um sucesso absoluto.
As intepretações dos dois actores principais conseguem dentro da sua contenção (estamos a falar de cinema asiático portanto não será de espantar), emitir uma tal emotividade que não só nos deixa desconfortáveis como percebemos perfeitamente a quantidade de sentimentos e sensações reprimidas que os seus rostos escondem.
Apesar de não ser um fã incondicional deste tipo de cinema que acaba por não se assumir nem de terror, nem de fantástico nem tão pouco de drama, um facto é que consegue ao longo da sua pouco mais de hora e meia conter, e transmitir, uma sensação tensa e profundamente incomodativa pois damos por nós a pensar que a qualquer momento algo está prestes a explodir se bem que, na prática, não vamos ter nenhum desses momentos.
Interessante e dono de uma atmosfera inquietante este filme consegue surpreender-nos através do seu aspecto visual e de uma fotografia que lhe dão o seu "ar" macabro que culmina com o desfecho não surpreendente mas igualmente incomodativo.
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6 / 10
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quarta-feira, 25 de abril de 2012

The Covenant (2006)

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O Pacto de Renny Harlin é uma história de toques de acção sobrenatural que nos remete para uma pequena localidade onde os filhos de quatro antigas famílias estudam na reputada Academia local recebem a visita do filho esquecido de uma quinta família daí proveniente.
Esta pequena descrição bastaria para perceber que os problemas estão prestes a começar mas, no entanto, há ainda que referir que os quatro são detentores de antigas famílias com poderes sobrenaturais e mágicos e que os irão pôr em prática para se defenderem do estranho visitante que agora surgir.
Este filme que começa e acaba apenas e só com o intuito de divertir milhares de adolescentes histéricas que vão com o único propósito de ver as próximas "caras bonitas" do cinema, promete inicialmente com alguns cenários mais sombrios e um ambiente propício a uma interessante história sobrenatural mas rapidamente se transforma naquilo que a maioria do cinema de Renny Harlin se transforma... muito fogo de artifício que explode sem nunca conseguir cativar o público que o vê.
E o mesmo se pode dizer dos actores... a gande maioria apenas se preocupa em desfiles caras bonitas e corpos semi-desnudados para atrai um público adolescente (tão típico em qualquer produção deste calibre) sem que se preocupem em demasia com a história que deveriam seguir. Os poucos que realmente apresentam algum trabalho (pouco mas lá o fazem) são Steven Strait e Laura Ramsey, o par protagonista que, por este exacto motivo têm as suas "obrigações".
Escapam ao desastre total alguns dos efeitos especiais que, não sendo perfeitos, conseguem criar algum dinamismo e acção no filme e assim levá-lo um pouco mais longe do que aquilo que sem eles teria ido. O mesmo se pode dizer sobre a caracterização que sem nunca revelar muito consegue ser competente e ter os seus momentos "nojo" que numa sala de cinema muito contribuem para um conjunto de gritinhos insuportáveis que algum do seu público dará.
Dito isto apenas acrescento que funciona essencialmente como o típico filme-pipoca que diverge das habituais comédias mas que, na sua essência, não tem grandes pretensões ou ambições de ser mais do que aquilo que é.
Todos nós acabamos por ver este tipo de filme sem deles esperar muito e é com esta exacta premissa que acabamos por esquecê-lo com a mesma facilidade. Distrai durante uns momentos e de seguida... "estivemos mesmo a ver o quê?"...
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4 / 10
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terça-feira, 24 de abril de 2012

Assim, Assim... (2009)

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Assim, Assim... de Sérgio Graciano foi a curta-metragem vencedora da primeira edição do Shortcutz Lisboa em 2010 e que conta com as interpretações principais de Ivo Canelas, Joaquim Horta, Isabel Abreu, Albano Jerónimo e Sabri Lucas.
Tudo acontece numa esplanada onde por um lado temos Ivo Canelas e Joaquim Horta que falam sobre a recente relação do primeiro e sobre a sua descoberta do amor. Umas mesas atrás temos Isabel Abreu e Albano Jerónimo que falam sobre exactamente o mesmo a respeito da primeira.
Esta curta, que tanto justificado sucesso teve deu origem à longa-metragem que estreou recentemente e com a participação não só dos já referenciados actores como de um vasto elenco dos maiores talentos nacionais onde se destacam Rita Blanco, Miguel Guilherme, Joana Santos, Tomás Alves, Cleia Almeida, Dinarte Branco, Margarida Carpinteiro entre outros e que se arrisca a ser um dos maiores sucessos cinematográficos do ano.
A curta, que adianto desde já ser deliciosa e que deixa qualquer um com vontade de ver a longa, coloca-nos a assistir a uma conversa entre amigos sobre as relações, o que se espera ou retira delas, e como as mesmas modificam a vida de qualquer um. Entre sonhos, expectativas e desabafos contados tanto com uma pitada de comédia irónica como até de algum drama escondido por entre palavras mais mordazes, temos a realidade de cada um deles face àquilo que as suas próprias experiências lhes trouxeram.
Escusado será falar do conjunto de actores que compõem esta curta pois qualquer um dos cinco (mesmo Sabri Lucas que aqui detém uma participação assumidamente secundária), é aquilo que Portugal de melhor tem a nível interpretativo. Um grupo de excelentes actores pertencentes a uma geração de quem se espera muito e que sempre tem cumprido aquilo que deles esperamos... o melhor.
E quanto à realização de Sérgio Graciano, tão perfeita como aquilo que já havia visto com Um Dia Longo, prova com facilidade ser um dos grandes contadores de histórias que o nosso cinema tem para dar.
Se já sabia que ia ver a longa-metragem nos próximos dias agora não me resta qualquer dúvida (também não as tinha) de que vou ver um filme que já sei ir gostar. A todos aqueles que já viram as muito bem conseguidas campanhas publicitárias deste filme... não esperem mais... vão ao cinema ver o que é realmente bom.
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8 / 10
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Uma Noite Fodida (2012)

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Uma Noite Fodida de Rúben Ferreira é a mais recente curta-metragem deste jovem realizador que, repito, terá ainda muitas cartas para dar ao cinema nacional.
Esta curta, da qual não vou revelar nada sobre a sua história, ganha forma dentro de um café quando o seu proprietário se prepara para fechar a porta e regressar a casa. Aquilo que se passa depois... tem de ser visto.
As curtas deste jovem realizador são não só criativas como dotadas de um elevado sentido de humor e imaginação que conseguem entreter qualquer um de nós. Feitas despretenciosamente, estas curtas acabam por revelar uma enorme vontade em entreter e criar um clima de boa disposição que Rúben Ferreira consegue com cada novo projecto criar.
A Artur Pereira, o actor principal, só tenho a dizer que quando precisar de um guarda-costas... já sei quem irei contratar.
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6 / 10
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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Globos de Ouro SIC/Caras 2012: os nomeados

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MELHOR FILME
América, de João Nuno Pinto
O Barão, de Edgar Pêra
Sangue do Meu Sangue, de João Canijo
Viagem a Portugal, de Sérgio Tréfaut
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MELHOR ACTOR
Fernando Luís, América
Nuno Lopes, Sangue do Meu Sangue
Nuno Melo, O Barão
Rafael Morais, Sangue do Meu Sangue
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MELHOR ACTRIZ
Anabela Moreira, Sangue do Meu Sangue
Beatriz Batarda, Cisne
Maria de Medeiros, Viagem a Portugal
Rita Blanco, Sangue do Meu Sangue
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Wolves of Wall Street (2002)

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Os Lobos de Wall Street de David DeCoteau é aquilo a que facilmente se pode chamar de um desinteressante filme que não se conseguiu assumir em nenhum estilo concreto tendo, no entanto, tentado roçar o drama, o suspense, o terror, o erótico e terminado com sucesso no absurdo.
A história deste filme parte com a chegada de Jeff (William Gregory Lee) a Nova York, à procura do seu primeiro emprego como corretor. Se de início a crise pós-11 de Setembro parece cortar-lhe as pernas, quando conhece Annabella (Elisa Donovan) tudo se encaminha conseguindo então o tão ambicionado trabalho na corretora de maior sucesso de Wall Street.
Depois de duras provas e de uma entrada fulgurante nesta corretora, os pequenos grandes problemas começam a surgir e toda a vida de Jeff começa tão ou mais rapidamente a mudar face aos constantes desafios dos seus novos e sinistros patrões.
Pelo título do filme conseguimos facilmente perceber aquilo que nos espera nesta suposta incursão pelo terror (que nunca surge) roça claramente o temática dos lobisomens que aqui deixam a pacata cidade do interior para atacarem literalmente na Big Apple. Pois... isto até seria muito bonito, e algo interessante, se não deixassem o terror para segundo plano concentrando-se muito mais a atenção num conjunto de tipos que passa o tempo a fingir que trabalha e depois ao final do dia lá resolvem ter umas tipas lá pelo escritório que, no final de uma farra... comem... e por comer podemos imaginar tudo aquilo que quisermos pois, na prática, tudo o que imaginamos deve (nunca chegamos a ver) acontecer.
Assim, algo que poderia ter algum (mínimo) interesse não o chega a ter. A relação amorosa entre o par protagonista é assombrada pela vida profissional de um deles que tão depressa está no auge como na fossa bem como pelos constantes clichés de "não deixes o teu trabalho afectar a nossa relação que inicialmente nem deveria acontecer mas que todos sabemos TER de acontecer", e finalmente pelo suposto terror que não existe e que dá lugar a alguns momentos eróticos que qualquer produção de segunda categoria manhosa conseguiria fazer com muito mais qualidade... Ah, esperem... isto é uma produção manhosa se segunda categoria e ainda assim... não resultou!
Este filme em nada adianta além de que quando termina percebemos ter passado cerca de uma hora e meia da nossa vida com uma produção que todos percebemos ter sido um desperdício de tempo e de dinheiro ter sido feita.
E se isto tudo não chegar para se perceber que não vale a pena, basta referir que os actores parecem ter todos saído de uma produção manhosa de um qualquer filme porno-erótico e que o Eric Roberts é a figura principal que funciona como chamariz para os espectadores (pobres de nós) vermos este filme.
Resumindo o que já vai longo sem qualquer justificação possível... este filme funciona bem quando queremos apenas e só ver um daqueles filmes manhosos, mas tão manhosos, que sabemos perfeitamente que nada de bom, de útil ou de interessante vai sair daqui. De resto, pouco importa se são vampiros, lobisomens, ET's, duendes ou ogres... este filme poderia ser feito com qualquer um deles, ou todos ao mesmo tempo, que em nada tornaria o filme "menos mau"... porque isso sim é aquilo que ele é... MAU!!!
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1 / 10
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domingo, 22 de abril de 2012

Youth Without Youth (2007)

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Uma Segunda Juventude de Francis Ford Coppola foi um filme muito esperado na edição do Festival Internacional de Cinema de Cannes no seu ano, por pôr um termo a uma longa pausa do realizador (já vencedor do Festival) à frente de uma obra.
Este filme cuja acção se desenrola numa Europa pré-Segunda Guerra Mundial foca a vida de Dominic (Tim Roth), um timído e reservado professor de línguas que já só no mundo só pode aguardar a morte. Quando é atingido por um raio do qual ninguém espera que recupere, Dominic começa estranhamente a rejuvenescer e torna-se alvo das atenção nazis que o procuram para ser cobaia de experiências.
Dominic em fuga encontra uma mulher muito semelhante à que outrora amara (Alexandra Maria Lara na dupla interpretação de "Veronica" e "Laura"), e vê agora nesta sua nova paixão uma potencial "chave" de continuidade de investigação sobre as origens da linguagem.
Não só as expectativas de Cannes eram elevadas como muito possivelmente as de qualquer cinéfilo que aguardava pela nova entrega de Coppola. A antecipação que se gerou à volta deste filme foi de facto muita, e todos nós queriamos saber que nova pérola advinha das mãos do realizador, especialmente se pensarmos que se reune de um igualmente talentoso actor como é o caso de Tim Roth, e de dois outros fortes talentos da cinematografia europeia como é o caso de Bruno Ganz e da já referida Alexandra Maria Lara. No entanto, este filme está longe do fogo que as obras anteriores de Coppola já nos haviam mostrado.
Os actores, principalmente o trio protagonista, não brilham... Pelo menos não o suficiente comparativamente a outros trabalhos onde já os vimos. Tim Roth quase deambula pelo ecrã num misto de "vai acontecer algo" com "afinal o que estive a fazer?!". Alexandra Maria Lara sobrevive igualmente num misto entre "sou bonita e a figura feminina central" e "vou ter uns ataques de verborreia em línguas mortas" que mais atrapalha do que ajuda à fluídez da obra. E Bruno Ganz não chega a ter tempo de antena suficiente para completar a intensidade dramática que se lhe pede seja qual fôr a interpretação que apresente.
O filme, que se quer uma história de amor não cumprido e uma segunda oportunidade de reviver paixões, sentimentos e emoções numa segunda juventude, acaba por se perder muito com o desenrolar da história e os actores acabam por não brilhar nas suas interpretações dada a mensagem quase filosófica que este (o filme) se propõe transmitir, e que a meio gás se torna mais cansativo do que esclarecedor.
Mas nem tudo será negativo. Tecnicamente falando, entre fotografia e os jogos de luzes e sombras que determinam a vivacidade (ou falta dela) das cores e por sua vez dos estados de espírito e da sociedade da autoria de Mihai Malaimare Jr., bem como o guarda-roupa de época com uma execução brilhante pelas mãos de Gloria Papura, são dois dos pontos altos do filme que não se perdem nem ficam por "explicar".
Longe de ser um filme mau, esta Uma Segunda Juventude está longe dos tempos em que Coppola faria arrastar multidões de fãs às salas de cinema com as suas histórias, fossem elas retratos de uma comunidade italo-americana em que a Mafia era dona e senhora, ou retratos de gerações perdidas e desenquadradas da época em que viviam. Aqui, a existir desenquadramento, ele é sentido pela falta de rumo coeso que leve os espectadores a aplaudir de pé.
Eficaz do ponto de vista técnico e com alguns tópicos que poderiam ter sido explorados, nomeadamente a época pré-guerra e o estranho rejuvenescimento da personagem principal que, a abandonar metáforas e significados mais ou menos intelectuais se poderiam tornar em boas linhas condutoras para um filme muito mais interessante.
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5 / 10
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sábado, 21 de abril de 2012

Putas Marcianas (2011)


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Putas Marcianas de José João é uma invulgar curta-metragem que nos transporta para um mundo bem alternativo.
Quando Lucindo (Graciano Dias) e Francisco (João Baptista) tomam banhos de sol na praia com diálogos semi-insinuantes (ou não) à mistura, são abordados por Leonor (Leonor Seixas), uma semi-nua e misteriosa jovem mulher que aos poucos parece entender, a uma grande distância, tudo aquilo que eles dizem.
A empatia entre Leonor e Lucindo é imediata, para ciúme de Francisco, e ambos entram numa espiral de acontecimentos e momentos que realmente parecem saídos de uma qualquer "ruela" de Marte (se elas existissem).
A narrativa desta média-metragem está, a certa altura, perdida. Os momentos e os diálogos sobrepõem-se e, a certa altura, damos por nós a pensar se não nos encontramos num qualquer delírio esquizofrénico que parece não terminar.
Tecnicamente falando, desde a fotografia à execução dos vários planos e momentos, a curta consegue cativar o nosso interesse que é, no entanto, totalmente perdido quando pensamos realmente na história e na continuidade dos segmentos que nos faz sentir literalmente perdidos. Compreendo a vontade experimentalista mas... o que é demais "assusta" ao ponto de nem as interpretações de um conjunto de jovens actores e da veterana Paula Guedes nos conseguirem convencer.
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2 / 10
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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Terraferma (2011)

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Terraferma de Emanuele Crialese é um dos filmes mais nomeados nas categorias principais da cerimónia deste ano dos prémios David da Academia Italiana de Cinema e aquele que encerrou a Festa do Cinema Italiano de Lisboa. Um filme muito aguardado pelo público, e por mim em particular que sou um fã confesso deste realizador que já nos tinha entregue os magníficos Respiro e Nuovomondo.
Este filme começa por nos mostrar as dificuldades de uma família italiana que sobrevive da pesca numa altura em que a mesma é condicionada por tantas normas. Quando Filippo (Filippo Pucillo) e o seu avô Ernesto (Mimmo Cuticchio) se lançam mais uma vez ao mar, longe estavam de imaginar que as suas preocupações iriam aumentar.
Naquela que seria a última viagem do seu barco antes de o mandarem abater, Filippo e Ernesto encontram um barco de imigrantes ilegais no mar e socorrem alguns daqueles que se encontravam em risco de vida, contra todas as leis em vigor que os proibem de o fazer. As consequências não se fazem esperar e após o seu barco ficar apreendido os dois homens bem como Giulietta (Donatella Finocchiaro), mãe de Filippo, vêem-se a braços com uma situação ainda mais complicada quando albergam, para desconhecimento de todos, uma das imigrantes que se encontrava grávida e o seu jovem filho.
Ao mesmo tempo que a pequena ilha é sucessivamente invadida por barcos com ilegais, surge também um novo tipo de invasão... os turistas vindos das grandes cidades italianas que ali procuram bom tempo e praia e com os quais Giulietta espera poder fazer negócio alugando a sua casa, obtendo assim uma nova forma de sustento que faça a família sobreviver em tempos tão difíceis como aqueles que enfrentam.
Um filme de Emanuele Crialese não poderia ser apenas isto. Estas linhas são apenas o cenário onde tudo acontece. O pano de fundo para aquilo que é a real mensagem a transmitir. Em primeiro lugar temos de encarar os tempos modernos tal como eles se apresentam. A crise, a pesca familiar que já não garante o sustento a nenhuma família que queira sobreviver e as leis punitivas para todos aqueles que não conseguem modernizar-se face àquilo que é pedido pelo governo que olha para todos de forma anónima sem sequer se preocupar com as condições de cada um.
É esta mesma crise que leva o indivíduo a procurar alternativas e soluções para os problemas que enfrenta. E é esta mesma crise que obriga muitos daquela pequena ilha a procurarem alternativas que nem sempre são as mais legais. A sobrevivência destes, longe de ser "menor", está a milhas de distância daqueles que surgem ilegalmente naquela ilha vindos das mais diversas e distantes paragens à procura de um porto de abrigo longe das guerras, das fomes, das doenças, das torturas e das perseguições que são alvo e que os levam a atravessar meio continente africano até chegarem a um ilusório destino seguro que não os quer por lá.
O curioso reside no facto de tanto nativos, como os ilegais e os turistas, três grupos de pessoas tão distintos e diferentes, procurarem a mesma coisa... uma mais ou menos leve sensação de liberdade. Os primeiros através da independência económica que lhes garante a sua própria subsistência. Os segundos, uma liberdade de todo o conjunto de atrocidades de que foram alvo ao longo das suas mais ou menos longas vidas e finalmente os terceiros, a liberdade de um ano de trabalho que só ali frente ao mar e sob o sol pensam poder conseguir. Objectivamente não têm comparação, mas subjectivamente cada um procura o seu próprio escape à realidade que vive.
Escape este que tem para todos um elemento comum, e que em todos os filmes de Emanuele Crialese assume o papel de uma silenciosa personagem... o mar. O mar que a um garante a subsistência, a outros a liberdade e a outros ainda o prazer de dele poder disfrutar. Sempre o mar. Sempre presente. É o mar que a todos dá vida e esperança. É a estrada de fuga que todos eles inconscientemente têm.
Estes filmes de Crialese não só têm um conjunto de elementos muito característicos, mas também ganham vida através de um conjunto de actores que são eles próprios sinais de uma intensa energia que dinamiza o todo. Filippo Pucillo que aqui repete a participação num filme de Crialese, é como a força que comanda todo o filme. É a partir dele que todas as demais personagens se completam. O avô, a mãe, os ilegais, o tio e os turistas. Todos dependem, de uma ou outra forma, dele. E é ele, como a verdadeira "força" que é, que nofinal consegue encontram a solução para o problema de todos, naquele que consegue ser um dos momentos mais intensos, dramáticos e comoventes de todo um filme que apesar dos seus pontuais momentos de comédia a cargo de Beppe Fiorello (o tio que adere facilmente aos novos negócios que a ilha lhe oferecem), se assume como um verdadeiro filme-reflexão sobre a vida, a liberdade, a imigração, a crise e os tempos modernos que a um dado momento nos encontra desprevenidos e nos mostra a realidade nua e crua. À volta de Pucillo todos se complementam... Donatella Finocchiaro, que com esta sua interpretação arrecadou mais uma nomeação ao David de Melhor Actriz do ano. Mimmo Cuticchio, o avô para quem os valores maiores da vida se impõe indiscutivelmente às realidades do mundo moderno onde a vida parec ser uma parte insignificante. Beppe Fiorello que consegue descomprimir todos os momentos mais dramáticos e tensos deste filme... e para isso basta assistirmos com atenção a todas aquelas viagens de barco que organiza para os turistas, e finalmente Timnit T., a imigrante ilegal que nos revela de forma crua todos os traumas e violências por que passou até chegar àquele país distante que, para ela, representa a liberdade que tanto espera.
Falar deste filme sem falar da sua estrondosa banda-sonora seria impossível. Franco Piersanti assina uma partitura que consegue levar-nos a diferentes estados de alma. Desde a comédia ao drama, passamos por sorrisos, por alegrias e por diversões ao mesmo tempo que sentimos fortes apertos no coração até culminar no segmento final que é uma verdadeira experiência de liberdade emocional. O ano ainda vai curto, mas arrisco dizer que esta é das mais fortes composições musicais do ano e que será difícil encontrar um rival à sua altura.
Terraferma, que espero não ser o capítulo de encerramento de Crialese sobre as terras do sul de Itália, é sem dúvida o seu mais forte filme. Belo, rude, cru, intenso, verdadeiro e com uma leve pitada de comédia, é sem dúvida um dos filmes maiores do recnte cinema italiano, e uma verdadeira história sentida de dignidade e de liberdade.
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10 / 10
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Festa do Cinema Italiano 2012: vencedores

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Prémio de Melhor Filme
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Là-Bas (Educazione Criminale)
de
Guido Lombardi
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Prémio do Público
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Scialla! (Stai Sereno)
de
Francesco Bruni
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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Il Mio Domani (2011)

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O Meu Amanhã de Marina Spada conta com Claudia Gerini numa interpretação que lhe rendeu a nomeação para o prémio David deste ano.
Este filme dá-nos a conhecer Monica (Gerini), uma mulher de carreira profissional bem sucedida, com uma vida aparentemente perfeita e que a nível sentimental se sente completa com a relação que mantém com o seu chefe (que é casado).
Monica trabalha, está ocasionalmente com o seu sobrinho que a adora, frequenta um curso de fotografia e vive, basicamente, uma vida isolada e sem grandes relações a nível pessoal. No fundo é uma mulher completa mas só.
Mas mesmo este comportamento de Monica, que nos pode parecer inicialmente frio e distante tem uma justificação. O abandono que sentiu por parte da sua mãe que partiu em busca de uma vida melhor com outro homem e noutro país, marcaram-na. As relações sentimentais e de afectos tornaram-se não algo de positivo para a sua vida mas sim motivos para que possa sofrer e ser, também ela, abandonada. Se as imagens e os momentos mais íntimos não chegassem para o percebermos, certamente mais tarde a relação que mantém com o seu chefe nos faria entender este aspecto.
O filme que acompanha claramente a transformação desta mulher através da imagem que temos dela enquanto citadina mas também através das referência ao seu passado enquanto jovem e adolescente numa pequena povoação do interior, também nos deixa uma ideia da sua actual cidade, Milão, e da sua constante evolução tão presente nas várias localizações da cidade que nos são mostradas e das suas obras arquitectónicas revelando assim que tanto a mulher como a cidade se encontra numa sistemática evolução. Ambas são mutáveis. Ambas procuram ser completas.
Para dar corpo a esta mulher numa transformação quase silenciosa não poderia estar uma melhor actriz do que Caudia Gerini. Com uma presença marcante e bastante carismática, Gerini consegue encarnar na perfeição esta mulher que num certo momento da sua vida percebe querer mais dela. Mais concretização pessoal em detrimento da profissional que, até então, havia ocupado o lugar principal de toda a sua vida e de todas as relações que estabelecia com os demais.
Este filme, que é profundamente intimista e mais de momentos, de percepções e de silêncios do que de elaborados diálogos, consegue aos poucos conquistar-nos. A mim conquistou (que já era fã), pela sua imensa capacidade expressiva que resume através do seu rosto todos os sentimentos que lhe passam pela alma. Não sei se será com esta interpretação que irá finalmente vencer o prémio máximo do cinema italiano, no entanto uma verdade seja dita, esta é uma interpretação que ficará como uma das suas mais marcantes, e tocantes.
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7 / 10
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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Vallanzasca: Gli Angeli del Male (2010)

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Vallanzasca: Os Anjos do Mal de Michele Placido não só foi um dos filmes sensação em Itália no ano passado tendo inclusivé reunido várias nomeações aos David pela sua controversa história sobre Renato Vallanzasca, um assaltante de bancos que escapou várias vezes da autoridade, como foi também um dos mais antecipados da 5ª Festa do Cinema Italiano.
Este filme que contou com duas sessões, e que foi um dos mais disputados do certame, conta-nos a história de Renato Vallanzasca (Kim Rossi Stuart), um assaltante de bancos em Milão e das suas relações pessoas e "profissionais" levando-nos para o meio do seu gang e das relações de sobrevivência que estabeleceu nas suas inúmeras permanências na prisão.
Vallanzasca, fiel às suas relações mais próximas estabelecidas com Enzo (Filippo Timi) o irmão que nunca teve e em quem deposita toda a sua confiança, com Antonella (Paz Vega) a irmã que também nunca teve e por quem sempre nutriu uma paixão mais que fraterna, Consuelo (Valeria Solarino), a mulher com quem inicia família e Beppe (Paolo Mazzarelli) o homem com quem tem uma inicialmente tensa relação mas que acaba por ser um dos seus mais fortes aliados.
Neste filme acompanhamos as várias etapas do crime pelas quais Vallanzasca atravessa. Começando como um anónimo que aterroriza as ruas de Milão e que ascende vertiginosamente no mundo do crime, Vallanzasca tem uma igualmente meteórica ascenção mediática ao ponto de ter o seu próprio clube de fãs que por ele seriam capazes de fazer tudo. Mas Vallanzasca não se ficaria por aqui. Assistimos também às suas igualmente diversas detenções e fugas de e à polícia que contribuem para o mito e para a controvérsia que a sua figura gerou, ao ponto de muitos daqueles que lhe eram próximos enveredarem por um crime mais violento culpabilizando-o depois do que havia sido feito.
O argumento, baseado em factos verídicos, e escrito por Andrea Purgatori, Angelo Pasquini, Antonio Leotti, Toni Trupia, Andrea Leanza, Antonella D'Agostino, pelo próprio realizador Michele Placido e também pelo homem que dá corpo a Vallanzasca, Kim Rossi Stuart, não só é polémico pelas próximas relações entre o mundo do crime, a Mafia e a incapacidade de um sistema judicial de criminalizar e deter aquele homem, como consegue do princípio até ao fim manter-nos com uma atenção magnética a tudo o que se passa pelo nosso ecrã.
Não nos podemos esquecer, como é evidente, do fortíssimo elenco reunido por Michele Placido onde se destacam os actores já mencionados que são os pesos pesados do novo cinema italiano, Kim Rossi Stuart, Filippo Timi (que arrisco mais uma vez dizer que se assume como um dos mais intensos actores da actualidade) e Valeria Solarino, como também espanhol, Paz Vega, e alemão através da participação especial de Moritz Bleibtreu. Se os quatro primeiros actores são determinantes para toda a história, não deixa também de ser verdade que a dinâmica existente entre Kim Rossi Stuart e Filippo Timi é proporcionalmente inversa àquela existente entre Stuart e Mazzarelli. A proximidade existente entre os dois primeiros rapidamente se vai deteriorando graças ao consumo de estupefacientes de "Enzo", o que leva "Vallanzasca" a encontrar o mesmo tipo de apoio em "Beppe", aquele que sempre havia sido o seu inimigo. Se de início por uma questão de sobrevivência na prisão, não deixa também de ser verdade que a amizade entre estes dois vultos do crime nasce de forma espontânea em pouco tempo. São estas turbulentas relações que este grupo de actores consegue facilmente recriar e entregar-nos um retrato do que foi a época de terror e a vida destes homens, e no caso de Kim Rossi Stuart tendo levado inclusivé a nomeação ao David de Melhor Actor.
A glória e a decadência destes homens é assim acompanhada a uma velocidade vertiginosa que envolve crime, Mafia, assaltos, morte, perseguição automóvel e com as doses adequadas de drama que caracterizam o lado mais humano deste conjunto de indivíduos que arriscou levar a vida depressa demais... e através do crime como a forma mais fácil e "correcta" de alcançar os seus objectivos.
Dramático por vezes, cómico noutras tantas, este filme é do princípio ao fim uma experiência extramemente intensa que ninguém deve perder tanto pela qualidade da sua história como das suas interpretações.
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9 / 10
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terça-feira, 17 de abril de 2012

Ruggine (2011)

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Ferrugem de Daniele Gaglianone foi a segunda longa-metragem que vi no âmbito da Festa do Cinema Italiano, e possivelmente o filme-choque que a mostra deste ano tem para exibir.
Baseado na história de Stefano Massaron, este filme conta-nos a história de um pequeno grupo de crianças de um bairro social que costumam passar o seu tempo e as suas brincadeiras junto de um complexo abandonado semelhante às torres de um castelo no meio de muita ferrugem (que dá o título ao filme).
Os acontecimentos que mostram uma população jovem, simples e sem grandes recursos onde o dia-a-dia das crianças preenche quase na totalidade a agitação a que o bairro assiste, são ensombrados com a chegada de misterioso Dr. Boldrini (Filippo Timi). Se inicialmente parece estar pronto a resolver todos os problemas de tão carenciada população, rapidamente o Dr. Boldrini mostra uma faceta que todos desconheciam.
Os acontecimentos daqueles meses irão para sempre reflectir-se nas vidas adultas de Sandro (Stefano Accorsi), de Cinzia (Valeria Solarino) e de Carmine (Valerio Mastandrea), que não só mostrarão ser pessoas isoladas dos relacionamentos como também profundamente afectados com as graves consequências que dali surgiram.
Este filme que me era desconhecido até fazer parte da programação da 5ª Festa do Cinema Italiano tem um conjunto muito grande de factores positivos que o destacam não só como um dos melhores desta festa como também um dos melhores a ter estreado este ano em Portugal.
O conjunto de interpretações dos quatros actores já referidos é assombroso. Todos eles, sem qualquer excepção, mostram personagens marcadas, e marcantes, nas suas personalidades. Filippo Timi mostra-se com a presença regular e definitiva como o vilão disfarçado de quem ninguém inicialmente suspeita. Aqui chegado ao bairro como o médico, figura que todos respeitam pela sua profissão bem como pela sua palavra, mas que no seu íntimo refugiado de tudo e todos mostra realmente os seus verdadeiros demónios ao ponto de ser uma verdadeiramente assombrosa personificação do mal. Não basta meter medo pelos seus comportamentos pouco ortodoxos perante os outros, como ainda lhes alia o facto de quando sózinho mostrar o quão longe vai toda a sua paranóia, e maldade, capaz de dominar pelo medo e pela força as tão vulneráveis crianças. Este filme consegue revelar, sem nada mostrar em concreto, o quão perigoso pode ser um "Homem" em quem todos confiam os seus filhos e que deles abusa (e mata) sem que ninguém sequer desconfie.
É este homem, esta personificação do mal, que marca para sempre as vidas de Sandro, Cinzia e Carmine. De tal forma que já em adultos continuarão a mostrar as graves sequelas de que são vítimas. Vidas isoladas, marginais, solitárias e com os seus próprios demónios criados durante aqueles meses da sua juventude.
Sandro (Accorsi), é um pai que tem uma incómoda relação com o seu filho. Incómoda por revelar ao mesmo tempo tantas distâncias e proximidades que são por vezes estranhas. Um homem que não se sente capaz de proteger o seu filho dos "demónios que espreitam" em todos os locais.
Cinzia (num brilhante registo de Solarino), uma professora de artes solitária e sem qualquer contacto ou sensibilidade que a possa comprometer com as outras pessoas, mas com a suficiente para perceber onde se encontram os comportamentos desviantes dos demais para no exacto momento os confrontar. Brilhantemente assustador a reunião de professores em que participa (dos poucos momentos em que nos brinda com a sua presença no ecrã), mas que conseguem ser dos mais determinantes para que qualquer um de nós, enquanto espectador e humanos participantes activos em socidade, consigamos perceber onde está "algo" que merece ser visto com olhos de quem quer ver.
Finalmente de todos aquele que é talvez o mais atormentado. Carmine (um Mastandrea que aqui poderia receber todo e mais algum prémio de interpretação), é um homem que em rapaz assistiu ao desfecho do Dr. Boldrini. Ele juntamente com Sandro e Cinzia sabe o que realmente se passou naqueles dias. É ele que viu a sua irmã momentaneamente desaparecer às mãos de Boldrini, e é ele que agora em adulto sente uma ruptura total para com o seu próprio bem-estar. Afinal foi ele que anos antes havia posto um termo àquele monstro que, uma vez desaparecido, o continuou a ensombrar. Mastandrea, que não precisa de nos dar mais nenhuma prova da sua magnitude enquanto actor, aqui ultrapassa todos os registos interpretativos com que já nos havia surpreendido. Se os filmes viverem de interpretações, de boas interpretações claro, Timi e Mastandrea cumprem mais do que aquilo que deles se espera. E Solarino consegue nos seus breves momentos de ecrã ser aquela que consegue desarmar o mais indiferente (se fôr sequer possível) dos espectadores.
Daniele Gaglianone, que não só realiza como assina o argumento em colaboração com Giaime Alonge e Alessandro Scippa, não só consegue recriar um ambiente de bairro onde as crianças brincam somente a pensar naquilo que deve preocupar uma criança (nada), como ao mesmo tempo consegue recriar neste mesmo espaço um local de onde todos acabam por ter medo de sair das suas casas. Sente-se em diversos momentos que está literalmente um predador à espera da sua próxima presa. A tensão está presente em todos os momentos do filme, tanto na juventude como na idade adulta dos três principais intervenientes. Quer nas suas jovens vidas quer no decorrer da sua vida adulta. Eles estão para sempre marcados nos rostos e nos comportamentos deste trio.
Esta tensão em muito é também sentida graças a uma montagem que nos transporta quer ao passado quer à actualidade, através dos segmentos onde nos está a ser relatado um determinado acontecimento mas que não é finalizado levando-nos ao seu oposto. Quando algo parece estar prestes a ser explicado do ponto de vista das crianças, rapidamente as temos já em adultos. Quando parece que vamos finalmente ver o que aconteceu a uma ou outra criança pelos olhos das crianças, rapidamente somos transportados para os olhos do vilão. Em vez de sentirmos um crescendo no final de todo o filme, aquilo que vamos tendo é esse crescendo multiplicado pelos vários flashbacks que temos sempre vistos pelos olhos quer de um quer de outro dos intervenientes, estando em todo o "fantasma" do Dr. Boldrini.
Tanto a banda-sonora de Evandro Fornasier, Walter Magri e Massimo Miride que mantém um clima de suspense e tensão agudizados pelos filmagens bem próximas das expressões destes actores que mostram todo o seu sentimento de presas, que também eles o foram e são de alguma forma, fazem com que nós enquanto espectadores sintamos estar quase sempre num ambiente prestes a explodir... sem que nunca aconteça. No entanto a sensação incómoda está sempre, sem excepção, presente. Aconteça ou não nós sabemos que algo está mal... A todo o instante.
Talvez não apreciado pela sua temática sensível e infelizmente presente na realidade que acompanhamos através de tantos noticiários, como é concretamente o caso da pedófilia, este filme consegue ser um retrato de que ela pode acontecer no mais insuspeito dos meios. Com as pessoas mais insuspeitas e que é normalmente um crime silencioso. É feito sem que alguém se aperceba... e como nos retratam os momentos de Cinzia enquanto professora, sem que muitos o queiram perceber.
Bruto, tão ou mais corrosivo que a própria ferrugem que dá título ao filme, é incomodativo mas brilhante. Tanto na sua execução como nas suas interpretações magistrais e um dos melhores filmes dos últimos anos que esse já por si excelente cinema italiano, fez estrear.
Uma palavra não chega por isso utilizarei duas... simplesmente brilhante.
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10 / 10
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segunda-feira, 16 de abril de 2012

Pickpocket (1959)

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Pickpocket - O Carteirista de Robert Bresson é um interessante filme, nomeado para o Urso de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Berlim, sobre Michel (Martin LaSalle), um homem que após ter sido libertado da prisão perde a sua mãe e decide que na sua essência está a mesma "profissão" que o havia já levado à prisão. Assim, recusando o apoio dos dois únicos amigos que tem, volta a ser carteirista e aprende novas técnicas (cada vez mais profissionais) para poder assaltar aqueles com quem se depara pelas ruas ou pelo terminal de comboios.
Além da constante auto-reflexão que Michel faz sobre a validade moral dos seus actos, e que nos acompanha ao longo de todo o filme, o que consegue ser bastante interessante é a clareza e evidência das filmagens que nos retratam quase na perfeição todos os esquemas e artimanhas que são feitas para poder com mais ou menos genialidade, encetar um variado conjunto de assaltos sem que as vítimas consiga sequer perceber o que se passa.
Interessante é também a reflexão feita sobre o estilo de vida que quer por palavras quer pelos olhares e pelos poucos gestos de proximidade que unem algumas das personagens se conseguem expressar. Quer pelo impulso, quer pelo vício ou por ser a única forma de subsistência que aquele homem sente ter, este é, essencialmente, o seu modo de vida. É o seu dia-a-dia.
Não sendo uma obra que guarde na memória como "a obra", não deixa de ser um muito interessante trabalho sobre a Humanidade existente em cada um de nós e aquilo que fazemos para que possamos continuar a sentir-mo-nos vivos.
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6 / 10
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18º Festival Ibérico de Cinema de Badajoz

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Foi revelada a Selecção Oficial do 18º Festival Ibérico de Cinema de Badajoz a realizar nos próximos dias 16 a 19 de Maio de 2012 no Teatro López de Ayala, e que inclui duas curtas-metragens portuguesas. Aqui fica a lista completa dos filmes seleccionados:
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5ºB ESCALERA DCHA, María Adánez
ABSTENERSE AGENCIA, Gaizka Urresti
EL ABRIGO ROJO, Avelina Prat
EL CHOLA, Guillermo Ríos
ENTREVISTA, Angela Armero
HOURGLASS, Pedro Collantes
LA BODA, Marina Szerezevsky
LA CALMA, David González Rudiez
LA COSA EN LA ESQUINA, Zoe Berriatúa
LA MANADA, Mario Fernández Alonso
LA ÚLTIMA SECUENCIA, Arturo Ruiz Serrano
LAGUN MINA, Jose Mari Goenaga
LIBRE DIRECTO, Bernabé Rico
MAQUILLAJE, Alejandro Montoya
NADIE TIENE LA CULPA, Esteban Crespo
NUVEM, Basil Da Cunha
O SAPATEIRO, David Doutel, Vasco Sá
VOICE OVER, Martín Rosete
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domingo, 15 de abril de 2012

4º Festival de Curtas-Metragem da EB 2,3 do Viso - Viseu: Dia 2

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Agora que chegou ao fim o fim-de-semana do 4º Festival de Curtas-Metragens da EB 2,3 do Viso - Viseu, falta ver as curtas que saíram da residência no Museu Grão Vasco. No dia 12 de Maio serão projectadas na FNAC Viseu, onde serão entregues os prémios e onde será escolhida a melhor curta para o Prémio do Público.
Não faltem a este importante evento cinematográfico.
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1 Rosa e 4 Espinhos (2012)

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1 Rosa e 4 Espinhos de João Garcia, João Rodrigues, André Antunes e David Ferreira é uma curta-metragem de ficção que funciona bem em termos técnicos (fotografia/imagem e som), mas que em termos de conteúdo e de argumento não tem uma continuidade para os recursos que aparenta querer mostrar.
Poderia ter sido uma história mais desenvolvida mas, depois de a vermos, não cumpre com o aparato a que se propõe, ao contrário dos outros trabalhos deste conjunto de realizadores que já foram aqui comentados onde, além de algum aparato e recursos que prometem uma história interessante, conseguem cumprir o desejado.
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2 / 10
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Arrependimento no Tempo (2011)

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Arrependimento no Tempo de João Garcia, João Rodrigues, David Ferreira e Ruben Frutuoso é uma interessante curta-metragem sobre dois irmãos distantes devido à dependência de drogas de um deles.
Esta distância, que mais tarde dá origem a um arrependimento e ao recordar do que foi e poderia ter sido a relação de ambos, fica mais curta mas irremediavelmente perdida no tempo quando um deles é baleado e morre devido ao ferimento.
Àparte de ser uma curta sem diálogos mas onde os actos representam muito bem a história e a mensagem pretendida, esta curta conseguiria também funcionar como campanha contra a droga feita por um conjunto de jovens.
Interessante, bem pensada e eficaz.
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6 / 10
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Fogo Cruzado (2011)

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Fogo Cruzado de João Garcia, João Rodrigues e David Ferreira é uma curta-metragem de alguma acção e com alguns momentos de registo mais cómico que se situa no futuro durante uma guerra de proporções mundiais.
Quando um militar é encarregado de ir buscar um hacker, longe estaria de pensar que a sua missão não iria ser tão fácil como inicialmente julgava.
Feita por um conjunto de alunos de cinema, esta curta-metragem tem alguns pontos positivos que são de referir. É bom perceber que para um trabalho amador, não cai em certos erros a que normalmente assistimos como nas filmagens interiores ser quase imperceptível o que se está a passar. Aqui, felizmente, tudo o que é filmado "dentro de portas" é compreensível para o espectador.
Por sua vez algo que se deteriora um pouco com o decorrer da curta é o seu som. Se de início existem alguns momentos difíceis de perceber é também certo que há medida que a curta avança este aspecto não melhora chegando mesmo perto do final com alguns segmentos em que não se percebe o diálogo entre os dois actores.
Quanto ao argumento, que contém alguns clichés típicos destes filmes de acção mas que funcionam melhor quando se trata de uma longa-metragem, não deixa de ter a sua graça pois são os mesmos que contribuem para os momentos mais ligeiros.
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5 / 10
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sábado, 14 de abril de 2012

This Must Be the Place (2011)

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Este é o Meu Lugar de Paolo Sorrentino foi o filme de abertura da 5ª Festa do Cinema Italiano que arrancou dia 12 em Lisboa. Sem a presença mas com uma elevada afluência de espectadores que esgotou a sala, este é mais um brilhante filme do realizador italiano que já conquistou 14 nomeações aos Prémios David da Academia Italiana de Cinema.
Cheyenne (Sean Penn) é uma ex-estrela de rock que vive confortavelmente com os rendimentos adquiridos ao longo da sua carreira. Agora afastado voluntariamente da música depois de um trágico acontecimento que o marcaria para sempre, Cheyenne é notificado que o seu pai, que não vê há trinta anos, está a morrer.
Depois de encontrar o seu pai já sem vida Cheyenne embarca numa viagem pela América profunda para encontrar o homem que havia humilhado o seu pai no campo de concentração de Auschwitz para assim conseguir ajustar contas com este homem. Pelo caminho não só consegue encontrá-lo como, acima de tudo, consegue através dos encontros que estabelece reencontrar-se com o seu próprio passado.
Antes de qualquer outro comentário tenho de começar pela extraordinária capacidade de Paolo Sorrentino em dar vida a personagens masculinas tão complexas e "marginais" (devido à sua marcante "realidade"). Para quem conhece a sua obra, e remetendo-me especificamente para os seus dois maiores sucessos, já o tinha feito com o seu Titta Di Girolamo no Le Conseguenze dell'Amore e no seu Giulio Andreotti de Il Divo, brilhantemente interpretados por Toni Servillo, homens dotados de uma inteligência fora do normal que os auto-isolava de uma convivência normal com o mundo que os rodeava.
Aqui com o Cheyenne de Sean Penn, Paolo Sorrentino volta a apostar na mesma "receita" para a interpretação principal do seu filme. Cheyenne é um homem que cresceu apenas na sua aparência física, mantendo uma jovialidade praticamente infantil no seu intelecto não o privando, no entanto, de uma acutilante e sempre desafiante inteligência. Estas personagens conseguem assim não só serem determinantes para o filme como conseguem em muitos momentos transcender as obras em si e fazer de Sorrentino um verdadeiro "mestre" a compô-las.
Quanto a Sean Penn muito concretamente, se já havia provado há muito a sua qualidade interpretativa que parece não ter limites mas, a tê-los, haviam sido completamente transpostos com esta sua composição enquanto Cheyenne. Se começarmos por falar na sua infantilidade que nos faz lembrar a sua interpretação nomeada para o Oscar em I Am Sam, percebemos facilmente que Penn tem muito mais para dar do que as suas interpretações intensas enquanto o "rufia" ou "mafioso" que tanto o caracterizou. A inteligente inocência que caracteriza esta sua interpretação tanto tem de natural como de auto-imposta devido ao trauma que ensombra o seu próprio passado e que se torna clara no decorrer da primeira metade do filme. E se de um lado temos a sua interpretação dramática, por outro consegue muito espontâneamente mudar para um registo cómico que consegue muito facilmente provocar francas gargalhadas no espectador. É aqui que está bem presente a "infantilidade" da sua personagem. Alguém que a um determinado momento se recusou a crescer mantendo assim uma boa parte da sua inocência.
E isto posso também referir sobre o argumento da autoria de Paolo Sorrentino em colaboração com Umberto Contarello (uma das nomeações aos David), que consegue de uma forma bastante harmoniosa conciliar o drama e a comédia. Se por momentos temos um Cheyenne infantil e cómico com comportamentos como se de uma criança se tratasse temos também o seu oposto onde dá vida a um homem que quer a todo o custo encontrar o homem que havia humilhado o seu pai em Auschwitz. É nesta viagem que Cheyenne faz pela América profunda, muito distante de uma Irlanda gótica e alternativa onde vive, que ele consegue encontrar o Cheyenne que havia esquecido há muitos anos atrás. O seu "eu" que havia enterrado algures no seu passado. É através das experiências que vai vivenciando com as pessoas que encontra enquanto procura aquele homem que Cheyenne percebe o quanto deixou para tráz de si próprio. É acima de tudo este homem, ele próprio, que ele encontra.
Igualmente de destaque é a banda-sonora da autoria de David Byrne que não só obteve uma nomeação ao David como também tem uma interpretação secundária enquanto... ele próprio, como um dos amigos de Cheyenne da altura em que tinha carreira musical.
A caracterização, muito particularmente a de Sean Penn, parece ser também ela uma das personagens do filme. A sua pintura e cabelo têm uma vida e dimensão próprias que contribuem, e muito, para o "boneco" criado.
Não sei se este This Must Be the Place sairá como um dos grandes vencedores dos próximos David mas, no entanto, uma coisa é segura... a continuidade de Sorrentino enquanto criador de um conjunto de personagens masculinas fortes, qb independentes, marginais à sociedade mas que nela têm o seu próprio lugar e que felizmente marcam pela sua diferença.
Muitos serão aqueles que, mais que não seja pela curiosidade que a transfiguração de Sean Penn provoca, se irão sentir atraídos para ir ver este filme. E isso acaba por ser positivo pois é sinal que o vão ver no entanto, longe está a dita "tradicional" interpretação deste actor. Aqui Penn tem uma interpretação muito mais profunda e íntima e que muito justamente o poderia lançar numa nova nomeação a Oscar.
Fiquei fã... desde o conjunto de interpretações onde também se destacam Judd Hirsch, Frances McDormand, Kerry Condon ou Harry Dean Stanton, à própria caracterização dos actores (muito especialmente a já referida de Sean Penn), e não esquecendo claro a espantosa composição musical que tal como a referida caracterização assume também ela um lugar e uma vida própria na continuidade do próprio filme.
Imprescindível para fãs de Sorrentino, para os fãs de Penn e para qualquer cinéfilo que queira assistir não só a uma história dramática como também a agradáveis momentos onde não conseguimos deixar de dar uns quantos sorrisos ou gargalhadas. Um excelente início para a edição deste ano da Festa do Cinema Italiano.
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"Cheyenne: At this particular moment I'm trying to fix up a sad boy and a sad girl, but it's not easy. I suspect that sadness is not compatible with sadness."
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8 / 10
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4º Festival de Curtas-Metragem da EB 2,3 do Viso - Viseu: Dia 1

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Inicia hoje o 4º Festival de Curtas-Metragens da EB 2,3 do Viso - Viseu e que irá durar todo o fim-de-semana. Produção e realização de curtas-metragens durante dois dias de jovens talentos que, esperamos, possam continuar a revitalizar o cinema nacional (e não só).
A todos os apaixonados por cinema e que tenham a oportunidade de estar presentes não faltem a esta excelente iniciativa.
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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Setúbal, Uma Galinha que Não Canta (2011)

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Setúbal, Uma Galinha que Não Canta de António Aleixo e Fábio Vicente é uma curta-metragem documental sobre a cidade referida no título.
Muito ao estilo de uma declaração de amor por Setúbal, esta curta retrata um pouco do passado onde ocupava uma posição mais central no mapa de Portugal tanto económica como socialmente, e do presente da mesma onde agora se encontra quase ao abandono, mais desertificada e sem o esplendor que ocupou noutros tempos mesmo quando os poucos acontecimentos culturais que por lá acontecem não são devidamente divulgados.
O que de facto mais me agradou neste pequeno documentário foi a referida declaração de amor feita à cidade, não só pelos dois realizadores como também pelo conjunto de entrevistados que pelas suas palavras revelam a dedicação à sua cidade. Podemos, por diversos momentos e mesmo não sendo ou nunca estado por lá, perceber que tal como tantos outros sítios escondidos por Portugal, ali existe potencial que consegue dignificar a cidade. Infelizmente, e não se percebendo porquê, Setúbal continua a ser uma cidade "desconhecida" que não aproveita os muitos recursos que tem para voltar, uma vez mais, a ter o merecido destaque.
Curioso, interessante e bem pensado, é um curto documentário que vale a pena ver.
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7 / 10
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quinta-feira, 12 de abril de 2012

Land of Plenty (2004)

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Terra da Abundância de Wim Wenders que esteve presente na selecção oficial do Festival Internacional de Cinema de Veneza conta com as interpretações principais de Michelle Williams e de John Diehl.
Quando Lana (Williams) regressa aos Estados Unidos depois de uma longa ausência em Israel tem como principal objectivo encontrar o seu tio Paul (Diehl), que é basicamente a única família que tem. Paul é um homem frio e distante que não pretende criar laços com ninguém, menos ainda com uma sobrinha que mal conhece. Paul faz da sua existência uma vigilância a tudo e todo os que o rodeiam de forma a proteger as ruas americanas no pós-11 de Setembro de forma a evitar um novo ataque que ponha em causa a integridade do seu país. Tudo é estranho e todos são potenciais inimigos.
O olhar que Wim Wenders tenta incansavelmente ter para com os Estados Unidos e o "american way of life" através deste argumento que também assina em colaboração com Scott Derrickson e Michael Meredith centra-se, na sua totalidade, na vontade de mostrar um país pouco conhecido tanto para outras sociedades como, principalmente, para a americana.
Através deste filme temos um olhar bastante corrosivo para com uma sociedade que se concentra, e talvez sempre tenha concentrado, a sua atenção nos outros e não em si própria. Enquanto se questiona a validade de um governo no outro lado do mundo, não existe a preocupação de questionar as condições daqueles que habitam as ruas das grandes cidades, como no caso concreto Los Angeles, sujeitos à fome, à miséria, à degradação e à violência que aumentou exponencialmente após os ataques terroristas que vitimaram a cidade de Nova York.
A constante perseguição por um novo "terrorista" feita por "Paul" é disso reflexo. Pouco se preocupa em saber como vivem muitos dos seus compatriotas, no entanto passa todos os seus dias a procurar um novo terrorista em qualquer pessoa que tenha uma cor de pele diferente da sua. Porque foram eles (os "outros"), sejam eles quem forem, que prejudicaram o seu país, independentemente de todas as políticas que no próprio país sejam tomadas e que prejudicam cidadãos tão "americanos" como ele. Diehl consegue com esta sua intepretação conter muita da frustração sentida e debatida incansavelmente desde então, sobre o sentimento americano. Vítima de um distúrbio desde os tempos em que serviu o país no Vietname e que agora sente a necessidade de novamente "defender" o país. A questão é, no entanto, perceber contra quem. Quais as provas que incriminam, ou não, o "outro"? A sua religião? A sua cor de pele? A sua proveniência? Os seus hábitos e costume? Serão eles comportamentos ditos "terroristas" ou simplesmente os hábitos culturais que definem cada um de "nós"?
Ao contrário de Diehl que consegue suportar muito do filme com a sua intensa interpretação, já Michelle Williams aparece aqui mais apagada do que nunca. A sua "Lana" acabada de chegar de Israel após uma ausência de anos, torna-a quase uma estrangeira no seu próprio país. Lana tem um olhar diferente para com o que a rodeia, especialmente para com as pessoas com quem priva. Lana funciona quase como a representação de uma consciência americana que se encontra adormecida. Adormecida e praticamente apagada pois quase que se limita a estar (omni)presente. Habituados que estamos a interpretações de Williams que podendo ser contidas são, no entanto, fortes e que emanam uma presença absolutamente determinante, aqui não fosse a sua presença referida ao longo do filme e pouco sentiamos que por ali estava.
Por sua vez, bem presente é a extraordinária banda-sonora que quase poderia assumir o papel de uma das personagens do filme. Emocionante e, ela sim, justificadamente contida, quase sempre funciona como determinante para as emoções e pensamentos que nós espectadores temos enquanto assistimos ao filme. De longe um dos factores mais importantes e bem conseguidos de todo o filme.
Terra da Abundância é, de facto, um filme interessante. Deixa-nos pensar sobre o mundo e sobre aquilo que dele temos recebido neste novo século e milénio. Faz-nos pensar sobre o que desconhecemos e sobre aquilo que nos sequer nos foi apresentado como hipótese... Faz-nos pensar sobre esta terra da abundância e de oportunidades que os próprios Estados Unidos "vendem" ao mundo mas que, na realidade, não permite que todas as tenham.
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6 / 10
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