sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Mau Olhado (2016)

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Mau Olhado de Aloísio Araújo é uma curta-metragem brasileira de ficção presente na competição oficial do Shortcutz Rio de Janeiro no passado mês de Julho.
Elaine (Daniela Girão) faz pequenas "amarrações" em casa. Um dia encontra o brinco de uma mulher em sua casa e as suspeitas das traições do seu marido começam. Em desespero lança um dos seus "encantamentos" sobre a sua cara metade. Mas será que a traição que ela imagina é aquela que realmente ocorre longe dos seus olhares?!
Também autor do argumento de Mau Olhado, o realizador Aloísio Araújo cria uma história repleta de pequenos e enriquecedores elementos que caracterizam não só uma história de mistério como também uma em que o drama conjugal está em evidência. No seio de um insuspeito lar como tantos outros, que pequenos grandes segredos podem ocorrer entre um aparentemente feliz casal? Na realidade, aquilo que o espectador questiona depois de observar os seus comportamentos é se essa felicidade realmente existe ou mais não é do que o fruto de uma mente (des)ocupada como o é a de "Elaine"... uma dona-de-casa que ganha uns dinheiros extra com pequenos feitiços e encantamentos às demais mulheres do bairro que a ela recorrem para afastarem olhares alheios dos seus maridos.
Num momento que é de puro delírio de "Elaine" que observa em todas as mulheres que a rodeiam um potencial perigo e a eventual dona do brinco que encontrou em sua casa, ela pretende levar todos os seus ensinamentos mais além e exercer a mais forte "amarração" naquele com quem partilha casa. Mas será que "Renato" (Maurício Agrella) está realmente a traí-la com outra mulher ou será que a misteriosa figura (Renan Bleastè) à beira estrada tem mais por revelar dos reais comportamentos do marido de "Elaine"?! No seio de um jogo místico onde os comportamentos parecem comprometidos logo desde o primeiro instante, aquilo que o espectador observa é para além da desconfiança marital, todo um enredo de superstição e de loucura que condicional e moldam uma realidade marital.
Dotado de um enredo onde a superstição popular dominam os actos das suas personagens, Mau Olhado versa ainda sobre uma temática que, não sendo explícita, deixa a suspeita comandar a percepção do espectador que num primeiro momento se questiona sobre a eventual possibilidade de o feitiço virar-se contra o feiticeiro - o que de certa forma acontece - como depois se depara com a tal realidade alternativa onde o casal não é assim tão feliz (ou dentro das "normas") levando um dos seus membros - o marido - a recorrer a uma felicidade paralela junto de um prostituto masculino. No fundo, aquilo que acaba por se tornar não direi óbvio mas sim curioso, é o facto de perto do final, o espectador se questionar sobre onde residirá a verdadeira felicidade por detrás das inúmeras paredes - físicas e psicológicas - que escondem a mais íntima e desconhecida privacidade alheia para além de levantar o véu sobre a forma como a superstição popular está intimamente ligada ao desconforto social, à ignorância e, de certa forma, como esta se aproveita da mente pouco tranquila para proliferar e dela tirar o seu próprio usufruto...
Como em terra de cego quem tem olho que vê é rei, Mau Olhado - numa interessante analogia - acaba por ser, como aqui já referi, a verdadeira história de como o feitiço lançado consegue - um dia - regressa àquele que o lançou deixando o aparentemente mais feliz dos lares como aquele onde, afinal, sempre reinou a insatisfação (profissional, sentimental, sexual (...). Interessante, contemporâneo e com um portento mordaz, Mau Olhado peca - salva seja - por uma mais frágil exploração dos domínios mentais de uma "Elaine" visivelmente afectada por aquilo que ela própria desconhece.
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7 / 10
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