quarta-feira, 31 de maio de 2017

Fred J. Koenekamp

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1922 - 2017
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Premios Platino del Cine Iberoamericano 2017: os nomeados

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Foram hoje anunciados os nomeados aos Premios Platino del Cine Iberoamericano no Beverly Hills Hilton. Os Platino destinam-se a premiar o último ano cinematográfico da América Latina e Península Ibérica bem como os seus profissionais nas mais variadas áreas.
São os nomeados:
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Melhor Filme
Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
El Ciudadano Ilustre, de Mariano Cohn e Gastón Duprat
El Hombre de las Mil Caras, de Alberto Rodríguez
Julieta, de Pedro Almodóvar
Neruda, de Pablo Larraín
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Melhor Primeira Obra
La Delgada Línea Amarilla, de Celso R. García
Desde Allá, de Lorenzo Vigas
Rara, de Pepa San Martín
Tarde para la Ira, de Raúl Arévalo
Viejo Calavera, de Kiro Russo
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Melhor Documentário
2016. Nacido en Síria, de Hernán Zin
Atrapados en Japón, de Vivienne Barry
Cinema Novo, de Eryk Rocha
Frágil Equilibrio, de Guillermo García López
Todo Comenzó por el Fin, de Luis Ospina
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Melhor Filme de Animação
Bruxarias, de Virginia Curia
La Leyenda del Chupacabras, de Alberto Chino Rodríguez
Ozzy, de Alberto Rodríguez e Nacho La Casa
Psiconautas, los Niños Olvidados, de Pedro Rivero e Alberto Vázquez
Teresa y Tim, de Agurtzane Intxaurraga
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Premio al Cine y Educación en Valores
El Acompañante, de Pavel Giroud
Esteban, de Jonal Cosculluela
El Jeremías, de Anwar Safa
A Monster Calls, de Juan Antonio Bayona
Rara, de Pepa San Martín
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Melhor Mini-Série ou Tele-Série Cinematográfica
Bala Loca (Chile)
Cuatro Estaciones en La Habana (Cuba/Espanha)
El Marginal (Argentina)
El Ministerio del Tiempo (Espanha)
La Niña (Colômbia)
Velvet (Espanha)
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Melhor Realizador
Kleber Mendonça Filho, Aquarius
Mariano Cohn e Gastón Duprat, El Ciudadano Ilustre
Juan Antonio Bayona, A Monster Calls
Pablo Larraín, Neruda
Pedro Almodóvar, Julieta
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Melhor Interpretação Masculina
Damián Alcázar, La Delgada Línea Amarilla
Alfredo Castro, Desde Allá
Eduard Fernández, El Hombre de las Mil Caras
Luis Gnecco, Neruda
Óscar Martínez, El Ciudadano Ilustre
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Melhor Interpretação Feminina
Juana Acosta, Anna
Sónia Braga, Aquarius
Angie Cepeda, La Semilla del Silencio
Natalia Oreiro, Gilda, No Me Arrepiento de Este Amor
Emma Suárez, Julieta
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Melhor Argumento
El Acompañante, Alejandro Brugues, Pierre Edelman e Pavel Giroud
El Ciudadano Ilustre, Andrés Duprat
La Delgada Línea Amarilla, Celso García
El Hombre de las Mil Caras, Alberto Rodríguez e Rafael Cobos
Neruda, Guillermo Calderón
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Melhor Montagem
La Delgada Línea Amarilla, Jorge Arturo García
Desde Allá, Isabela Monteiro de Castro
A Monster Calls, Bernat Vilaplana e Jaume Martí
Que Dios nos Perdone, Alberto del Campo e Fernando Franco
Sin Muertos No Hay Carnaval, Jorge García
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Melhor Fotografia
Boi Neon, Diego García
Cartas da Guerra, João Ribeiro
Las Elegidas, Carolina Costa
La Luz Incidente, Guillermo Nieto
A Monster Calls, Óscar Faura
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Melhor Música Original
Esteban, Chucho Valdés
Julieta, Alberto Iglésias
La Luz Incidente, Mariano Loiácono
A Monster Calls, Fernando Velázquez
Neruda, Federico Jusid
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Melhor Som
Cartas da Guerra, Ricardo Leal e Tiago Matos
Desde Allá, Waldir Xavier
Desierto, Sergio Díaz
El Hombre de las Mil Caras, Daniel de Zayas, César Molina e José Antonio Manovel
A Monster Calls, Peter Glossop, Oriol Tarragó e Marc Orts
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Melhor Direcção Artística
Cartas da Guerra, Nuno Gabriel de Mello
La Luz Incidente, Ailí Chen
La Mort de Louis XIV, Sebastián Vogler
A Monster Calls, Eugenio Caballero
La Reina de España, Juan Pedro de Gaspar
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Os vencedores serão conhecidos numa cerimónia a realizar em Madrid no próximo dia 22 de Julho.
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terça-feira, 30 de maio de 2017

Molly Peters

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1942 - 2017
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Shortcutz Viseu - Sessão #93

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O Shortcutz Viseu regressa com a Sessão #93 num contexto de parceria estabelecida com a Associação de Estudantes da Escola secundária Alves Martins e o Carmo'81.
Assim esta Sessão Especial será exclusivamente dedicada aos estudantes da escola - mas também ao público em geral - onde serão exibidas algumas das curtas-metragens que passaram pelas sessões regulares do Shortcutz Viseu.
Desta forma, e no próximo dia 31 de Maio - quarta-feira - o Shortcutz Viseu irá decorrer a partir das 21e45 na Escola Secundária Alves Martins, na Avenida Infante D. Henrique.
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domingo, 28 de maio de 2017

Festival Internacional de Cinema de Cannes - Selecção Oficial 2017: os vencedores

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Foram há instantes revelados os vencedores dos prémios da Selecção Oficial da 70ª edição do Festival Internacional de Cinema de Cannes.
São os vencedores:
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Palma de Ouro: The Square, de Ruben Östlund
Grande Prémio: 120 Battements par Minute, de Robin Campillo
Prémio do Júri: Nelyubov, de Andrey Zvyagintsev
Palma de Ouro - Curta-Metragem: A Gentle Night, de Qiu Yang
Menção Especial: Katto, de Teppo Airaksinen
Realizador: Sofia Coppola, The Beguiled
Actor: Joaquin Phoenix, You Were Never Really Here
Actriz: Diane Kruger, Aus dem Nichts
Argumento: Yorgos Lanthimos, The Killing of a Sacred Deer e Lynne Ramsay, You Were Never Really Here
Caméra d'Or: Jeune Femme, de Léonor Serraille
Prémio do 70º Aniversário: Nicole Kidman
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sábado, 27 de maio de 2017

Festival Internacional de Cinema de Cannes - Prix FIPRESCI 2017: os vencedores

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Foram hoje divulgados os prémios atribuídos pela Federação Internacional de Críticos Cinematográficos (FIPRESCI) durante a 70ª edição do Festival Internacional de Cinema de Cannes que termina amanhã dia 28 de Maio.
São os vencedores:
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Selecção Oficial: 120 Battements par Minute, de Robin Campillo
Un Certain Regard: Tesnota, de Kantemir Balagov
Quinzena dos Realizadores/Semana da Crítica: A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho
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Gregg Allman

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1947 - 2017
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Festival Internacional de Cinema de Cannes - Cinéfondation 2017: os vencedores

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O júri da secção Cinéfondation da 70ª edição do Festival Internacional de Cinema de Cannes presidido pelo realizador Cristian Mungiu anunciou hoje os seus prémios oficiais tornando-se estes alguns dos potenciais nomeados a Oscar na próxima edição.
São os vencedores:
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Primeiro Prémio: Paul est Là, de Valentina Maurel
Segundo Prémio: Heyvan, de Bahram Ark e Bahman Ark
Terceiro Prémio: Deux Égarés sont Morts, de Tommaso Usberti
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Festival Internacional de Cinema de Cannes - Un Certain Regard 2017: os vencedores

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O júri da secção Un Certain Regard da 70ª edição do Festival Internacional de Cinema de Cannes presidido pela actriz Uma Thurman anunciou hoje os seus prémios oficiais.
São os vencedores:
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Prix Un Certain Regard: Lerd, de Mohammad Rasoulof
Prémio do Júri: Las Hijas de Abril, de Michel Franco
Realizador: Taylor Sheridan, Wind River
Interpretação: Jasmine Trinca, Fortunata
Prémio à Poesia do Cinema: Barbara, de Mathieu Amalric
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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Festival Internacional de Cinema de Cannes - Quinzena dos Realizadores 2017: os vencedores

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Foram hoje divulgados os vencedores dos troféus entregues na Quinzena dos Realizadores da 70ª edição do Festival Internacional de Cinema de Cannes que termina no próximo Domingo, dia 28 de Maio.
São os vencedores:
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Prémio Art Cinema: The Rider, de Chloé Zhao
Prémio Europa Cinemas Label: A Ciambra, de Jonas Carpignano
Prémio SACD: Un Bon Soleil Intérieur, de Claire Denis e L'Amant d'Un Jour, de Philippe Garrel
Prémio Illy - Curta-Metragem: Detour a Genoa City, de Benoît Grimalt
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José Manuel Castello Lopes

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1931 - 2017
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Premios Fugaz - al Cortometraje Español 2017: os vencedores

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Foram ontem anunciados os vencedores dos Prémios Fugaz entregues à curta-metragem espanhola, cuja primeira cerimónia se realizou na Cineteca Madrid e cujo grande vencedor foi Como Yo Te Amo, de Fernando García-Ruiz Rubio.
São os vencedores:
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Curta-Metragem: Como Yo Te Amo, de Fernando García-Ruiz Rubio
Realizador: Carlos Solano, Extraños en la Carretera
Direcção de Produção: Javier Sanjuán, Como Yo Te Amo
Actor: Luis Callejo, Vida en Marte
Actriz: Isabel Gaudí, Tiempos Muertos
Argumento: Julián Merino e Karin Wolf, The App
Montagem: Andrés Talegón, Como Yo Te Amo
Fotografia: Guillem Oliver, Sputnik
Guarda-Roupa: Ana Llorca, Sputnik
Fugaz Homenaje: Miguel Rellán
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Festival Internacional de Cinema de Cannes - Semaine de la Critique 2017: os vencedores

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Foram ontem revelados os vencedores da 56ª edição da Semaine de la Critique do Festival Internacional de Cinema de Cannes.
São os vencedores:
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Grand Prix Nespresso: Makala, de Emmanuel Gras
Prix Révélation France 4: Gabriel e a Montanha, de Fellipe Gamarano Barbosa
Prix Découverte Leica Cine - Curta-Metragem: Los Desheredados, de Laura Ferrés
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Prix Fondation Gan à la Diffusion: Gabriel e a Montanha, de Fellipe Gamarano Barbosa
Prix SACD: Ava, de Léa Mysius
Prix Canal+ - Curta-Metragem: Najpiekniejsze Fajerwerki Ever, de Aleksandra Terpinska
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quarta-feira, 24 de maio de 2017

Perdidos (2017)

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Perdidos de Sérgio Graciano é a mais recente longa-metragem do realizador de Assim Assim (2012), Njinga, Raínha de Angola (2013) e do recentemente estreado Uma Vida à Espera (2016) aqui numa adaptação livre de Open Water 2: Adrift (2006), de Hans Horn onde Ana (Dânia Neto) e o marido Jaime (Diogo Amaral), Daniel (Afonso Pimentel) e a nova namorada Margarida (Catarina Gouveia), Laura (Dalila Carmo) e Vasco (Lourenço Ortigão), um grupo de amigos que se reúne para celebrar o aniversário deste último, se encontram inadvertidamente numa situação limite quando, depois de se lançarem à água, percebem que a escada de regresso ao barco não se encontra lá.
Perdidos em alto mar sem ninguém que os socorra, os dramas e a tensão psicológica começam a manifestar-se deixando-os dependentes de uma esperança que parece tardar.
Ainda que manifestamente um opositor aos remakes - afinal, não existem tantas e tantas histórias que merecem ser reveladas e contadas?! -, especialmente quando estes se revelam através do cinema português que tem de si originalidade suficiente para não se resumir a repetir aquilo que já foi feito, este Perdidos revelava logo de início alguns elementos que apelavam à minha atenção; a realização de Graciano que já entregou provas suficientes da sua obra tanto no cinema como na televisão, o argumento (adaptado) de Tiago R. Santos e claro, o conjunto de actores que se destacam nas inúmeras produções televisivas que tantos de nós seguem diariamente. Dito isto, será assim tão importante estarmos perante um remake - o primeiro de uma obra internacional - no cinema português?! Não, nem por isso.
A história aqui segue muito daquilo que qualquer espectador mais atento terá visto em Open Water 2: Adrift (2006), e a dinâmica criada tanto no espaço como os diversos intervenientes acaba por - à escala e ao contexto - seguir os mesmos propósitos da obra mencionada. Desta forma, o que nos poderá ligar directamente a este filme de Graciano? Simples... os seus actores.
Convencidos que ficamos - muito cedo até - de que esta história não irá divergir em muito da longa-metragem alemã de 2006, o espectador segue de forma mais atenta as dinâmicas (re)criadas entre os actores deixando-se seduzir pelas aparentes histórias (ainda) por contar que, lentamente, vão sendo reveladas. A primeira dessas dinâmicas prende-se com o casamento de "Ana" e "Jaime". À data pais de um jovem bebé, o casal revela passar por uma crise cuja origem não é  perceptível. Percebemos que "Ana" sofre de depressão pós-parto e que aparenta estar relativamente distante do seu filho. Percebemos que "Jaime" tenta salvar o casamento mantendo um silêncio ruidoso sobre aquilo que o afecta mas, ao mesmo tempo, conseguimos antever que o mesmo não irá durar durante muito mais tempo talvez porque neste encontro com os amigos da sua mulher esteja presente o seu ex-namorado de adolescência pactuando ambos, no entanto, com a imagem de um casal feliz que não deve ficar abalada durante este fim-de-semana que se avizinha "perfeito".
A segunda das dinâmicas aqui presentes passa pela relação de amor não confessado entre "Laura" e "Vasco" que a diferença de idades parece (para ele) ter sido um entrave subconsciente para confirmar o que sentia. "Poderá uma mulher mais velha gostar de um miúdo?" deixa ele escapar pelas suas palavras algures no tempo revelando(-lhe) que afinal sempre esteve apaixonado por ela. Entre um conjunto de piadas, brincadeiras e humor, ambos deixam escapar que sempre existiu uma empatia e atracção que - até então - não fora devidamente confirmada mas que no futuro próximo... "porque não?!"...
Finalmente existe "Daniel"... aquele que, por entre o grupo, sempre teve tudo o que quis... dinheiro, mulheres e objectos - deixando escapar a noção de que todos são praticamente o mesmo -, e que sempre se distanciou de tudo quando o teve como adquirido. É por ele que todos estão novamente juntos e ainda que lhe reconheçam a capacidade de os mobilizar... todos deixam escapar uma certa animosidade para com ele. No fundo, agem como aquele amigo que todos têm mas que na prática pouco se preocupam com ele... Melhor... com ele preocupam-se na medida proporcional àquilo que ele sempre revelou das relações - sentimentais e de amizade - que desenvolvera com todos os demais.
É então que perante este cenário não tão idílico como se deixa inicialmente transparecer que todos se preparam para o tal fim-de-semana em alto mar onde a diversão e as memórias confirmam a união que todos nutrem... ou talvez não...  e até que ponto se deixaram, afinal, distanciar daqueles jovens que, em tempos, haviam sido e conhecido.
Sem revelar grandes detalhes, pois afinal... são esses que todos querem ver na realidade, o argumento de Perdidos torna-se mais frágil naquilo onde poderia realmente distanciar-se da longa-metragem na qual se inspira, ou seja, conseguir aprofundar a dinâmica entre as suas personagens bem como os conflitos internos que cada uma delas parecem revelar. Dito de outra forma, se todos nós acompanhamos aquela primeira metade de Perdidos conscientes que existem histórias por detrás da história de cada um deles, a segunda metade desta longa-metragem apenas revela que todos esses enredos foram preparados sem que, na prática, fossem cozinhados como o espectador esperaria. Assim, e para lá do "acidente" que catapultaria cada um deles para um fim mais ou menos trágico - cada um dentro do seu próprio desespero -, aquilo que o espectador recebe no final é, no fundo, toda uma dose de trabalho de actor que dentro das possibilidades da sua "realidade" se torna possível trabalhar para a dinâmica de perdidos... em alto mar.
É quando confrontados com uma potencial morte que todos acabam por revelar as suas paixões (ao outro), a sua fidelidade (a um casamento) ou até mesmo um desprezo por aquilo que a imagem do outro representa (sobre "Daniel"). É face ao desespero final onde a morte finalmente se anuncia que se deixa perceber que nem tudo o que aparentava estar perdido o está de facto. Que nem tudo o que parece perfeito... afinal o é ou mesmo que nem todas as esperanças e desejos de um amor até então não confessado estão finalmente perdidas... pelo menos não no tal sentimento vivido mas sempre silenciado.
Perdidos é talvez isto... a vontade de compreender que apesar de perdidos em alto mar, a sua vida foi sim perdida muito tempo antes com pequenos caprichos de uma vida que se distanciou de objectivos, de propósitos ou até mesmo de ambições dando tudo como um facto adquirido que, com o tempo, se desvaneceu numa onda de desinteresse. No entanto, para ver esta linha narrativa mais explorada e, como tal, com um trabalho mais intenso sobre a exploração das respectivas personagens, teria sido interessante ver mais do passado de cada um ou, pelo menos, que aquela primeira metade da longa-metragem de Sérgio Graciano tivesse explorado mais a dinâmica de cada uma destas personagens, da sua ideia de vida não cumprida e claro... daquilo que cada um esperava poder vir a ser a mesma... reflectida num parco fim-de-semana de festa e celebração.
Ainda que Perdidos se assuma como uma longa-metragem competente, bem dirigida e com um trabalho de direcção de fotografia dinâmica que capta o melhor desse tal fim-de-semana de festa entregando à luz do sol reflectida nas águas do Atlântico aquilo que ela de facto tem de melhor (a sua imensa luz) - bravo Alexandre Samori -, é a pouco dinamização das histórias de cada uma das suas personagens que mais falta faz para tornar este filme maior e distanciar-se da sua obra de inspiração e do quão vaga ela na prática o é.
Positiva é ainda a entrega de um desempenho protagonista a Dânia Neto que se afirma muito bem como a mulher dividida entre um passado de certa folia e o seu papel como recente esposa e mãe, e todo um apontamento positivo a Diogo Amaral, Lourenço Ortigão e Catarina Gouveia (gostei, gostei e gostei) que conseguem uma simpatia inserção no contexto cinematográfico revelando que há muito mais por explorar para além das eternas novelas. E se por um lado Afonso Pimentel tem aqui o dito "protagonista" que necessitaria, no entanto, de muito mais exploração - novamente a dicotomia entre um passado e um presente que têm ambos, à sua medida, o seu "quê" de trágico - é Dalila Carmo que, uma vez mais, transmite todo um magnetismo que se desejaria ter sido mais explorado... percebemos o porquê de um afastamento dos amigos - de "Vasco" com quem desenvolve uma relação de amor e protecção - e de uma constante viagem pelo mundo mas, ao mesmo tempo, existe todo um mundo de uma tristeza que o seu olhar transmite sem que, no entanto, sejam realmente revelados. Belíssimo trabalho de cada um dos actores a nível individual e colectivo mas que, fosse o filme só um fim-de-semana de "confissões" mútuas... e teria sido um resultado bem mais intenso e por vezes até mais dinâmico.
De uma forma geral Perdidos assume-se como o filme que se propõe.... O filme "desastre" sem que este realmente suceda com um final relativamente esperado mas que poderia ter sido mais convincente e demarcado da obra original. Vale portanto como um simpático filme entretenimento onde se percebe a dedicação de cada um mas... podia ter sido mais... francamente mais.
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6 / 10
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Roger Moore

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1927 - 2017
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terça-feira, 23 de maio de 2017

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segunda-feira, 22 de maio de 2017

O Dia em que as Cartas Pararam (2017)

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O Dia em que as Cartas Pararam de Cláudia Clemente é um telefilme português produzido no âmbito de um programa de cooperação audiovisual da CPLP - Comunidade de Países de Língua Portuguesa.
Nos anos 60, António (Pedro Frias) é destacado pelo regime para seguir Aurora (Ágata Pinho), suspeita de ser opositora do mesmo, até Paris. É então que, durante o Maio de '68, os dois então jovens se apaixonam e desenvolvem uma relação que, no entanto, é subitamente terminada quando têm de regressar à cidade do Porto.
Nos anos seguintes a relação apenas perdura através das cartas que António escreve a Aurora mas, no entanto, esta nunca as chega a ler. Poderão as suas vidas continuar?
Baseado no romance A Casa Azul da autoria da própria realizadora, O Dia em que as Cartas Pararam é portanto um filme com um cunho assumidamente pessoal e uma reflexão de um período conturbado da história do país que é ainda - e infelizmente - pouco explorado. O que escondem mais de quarenta anos de uma ditadura que está ainda tão "silenciada" e quase esquecida na memória de toda uma nova geração?
Aqui a autora, realizadora e argumentista leva o espectador a uma viagem sobre uma relação dita impossível entre um membro do regime e uma jovem que, oposicionista ou não, por ele se apaixonou dando corpo a uma vivência quase impossível pela força da vida por ela desejada e que era, por ele, improvável de viver. No seio da mentira, da omissão e do desencontro, existe toda uma história e uma continuidade deste amor proibido que ficaria por revelar. É com base nesta premissa que a história de "António" e "Aurora" continua agora através de "Laura" e "Rita" (interpretadas por Linda Valadas), duas jovens que separadas pelo espaço e pelo seu próprio auto-conhecimento partilham toda uma raíz e origem comum sendo ambas o resultado do amor daquela relação outrora proibida. Gémeas e sem conhecerem a existência da "outra", apenas as personagens mistério que as acompanham poderá justificar e comprovar que existe algo mais para lá do seu quase anonimato.
A forma como esta história está aqui contada priva o espectador de um conhecimento mais profundo e até mais dramatizado do contexto das personagens aqui tidas. O Dia em que as Cartas Pararam como uma clara alusão ao momento em que os dois amantes apaixonados deixaram de contactar um com o outro - fruto do próprio clima vivido nos idos anos '60 -, pedia que não só se conhecem mais das histórias destas personagens que com o passar dos anos viram o seu pensamento e o seu próprio físico ser marcado com e pelo desgosto, pela perda e sobretudo pela não concretização de um amor sentido. "Aurora" (agora Ana Bustorff), é uma mulher marcada por essa perda. Marcada pela desilusão e pelo afastamento mais ou menos deliberado do fruto do seu amor - apenas é acompanhada por uma das suas filhas desconhecendo a realidade da outra que ficou distante noutro país -, e os seus dizeres revelam um certo alheamento do juízo perfeito. Reclusa dos seus próprios pensamentos e da certeza de um abandono que não era da sua vontade, "Aurora" limita-se a passar pelos dias sem que quase seja perceptível que ela própria existe num mundo que não parou de avançar.
Ainda que todas estas histórias de diferentes personagens ocorram quase em simultâneo com os devidos distanciamentos espaço-temporais, O Dia em que as Cartas Pararam é um filme fácil para ser seguido pelo espectador ainda que, no entanto, este desejasse um maior desenvolvimento não só das personagens como da própria história que não tem a espera continuidade e exposição das motivações de todos. Afinal, sabemos que estamos no período ditatorial português pela forma como tudo é encenado mas não tomamos conhecimento da liberdade de '74 ou tão pouco dos motivos que, então, supostamente não lhes colocariam barreiras que, no entanto, existiam até aos nossos dias. Desta foram, e ainda que O Dia em que as Cartas Pararam seja um simpático telefilme que recupera o imaginário do pré-ditadura e algumas das suas nuances, é também justo afirmar que as mesmas não recebem o tratamento especial e devida exploração que seriam desejados mantendo apenas implícito que as boas famílias existiam e queriam(-se) longe das garras do regime.
Assim, e como pontos assumidamente positivos deste temporalmente limitado telefilme são, por exemplo, o cruzamento de histórias distanciadas pelo espaço e pelos anos mas que partilham um início comum mostrando que existem tantas histórias por contar e por "saldar" o seu próprio passado e ainda, uma feliz aparição de uma sempre genial Ana Bustorff ao universo cinematográfico onde tanta falta faz. A sua composição enquanto uma "Aurora" perdida no tempo e nos seus pensamentos daria, por si só, todo o conteúdo para uma longa-metragem centrada única e exclusivamente nos seus dias agora passados num espaço de repouso.
Simpático e interessante pelo seu contexto, O Dia em que as Cartas Pararam fica, no entanto, distante da grande longa-metragem que poderia ter sido limitando-se a exibir todo um potencial narrativo e de construção de personagens ficando, por sua vez, apenas pela mostra dos mesmos como se quisesse cativar o interesse do espectador mas privando-o - pelas limitações de apoio ao telefilme - da tal grande e esperada história.
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5 / 10
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domingo, 21 de maio de 2017

Globos de Ouro SIC/Caras 2017: Cinema - os vencedores

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Foram há instantes divulgados os vencedores dos Globos de Ouro SIC/Caras na categoria de Cinema, numa cerimónia que se realiza no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
São os vencedores:
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Filme: Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira
Actor: Nuno Lopes, Posto Avançado do Progresso
Actriz: Ana Padrão, Jogo de Damas
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Globos de Ouro SIC/Caras 2017: Cinema - Filme

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Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira
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Globos de Ouro SIC/Caras 2017: Cinema - Actor

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Nuno Lopes, Posto Avançado do Progresso
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Globos de Ouro SIC/Caras 2017: Cinema - Actriz

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Ana Padrão, Jogo de Damas
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quarta-feira, 17 de maio de 2017

Shortcutz Viseu - vencedor de Abril

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O Shortcutz Viseu anunciou há instantes o vencedor do mês de Abril e, assim sendo, a mais recente das nomeadas ao troféu de Melhor Curta do Ano, sendo ela a curta-metragem A Terceira Metade, de Virgílio Pinto e Rodrigo Morais.
A curta-metragem junta-se assim a Post-Mortem, de Belmiro Ribeiro, A Rapariga de Berlim, de Bruno de Freitas Leal, Fosso, de Rui Costa, Paulo Varela, Ricardo Sousa, Bruno Lamelas e Vasco Simões, Marasmo, de Gonçalo Loureiro e a A Instalação do Medo, de Ricardo Leite como as nomeadas já conhecidas para o prémio de Melhor Curta-Metragem do Ano cuja vencedora será conhecida numa cerimónia a realizar em Setembro próximo no Carmo'81, em Viseu.
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Chris Cornell

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1964 - 2017
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terça-feira, 16 de maio de 2017

A Floresta das Almas Perdidas (2017)

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A Floresta das Almas Perdidas de José Pedro Lopes é uma longa-metragem portuguesa que recentemente foi exibida no FESTIn - Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa na qual Carolina (Daniela Love) e Ricardo (Jorge Mota), dois completos estranhos se cruzam na mal fadada floresta onde todos planeiam encontrar o seu fim.
E quando parece que ambos procuram o seu final de um mundo do qual estão saturados, acontecimentos inesperados transformam a relação ali criada levando-os a um final diferente daquele que se fazia anunciar.
Depois de Survivalismo (2011) ou M Is for Macho (2013) onde José Pedro Lopes se destacou por histórias onde o terror e o suspense dominavam o ecrã, aqui o realizador e argumentista dirige uma história que se entende desde o primeiro instante como tendo um fundo onde o amor - ou a sua ausência - estão no cerne de todos os pequenos contos que aqui se cruzam. Logo de início o espectador vislumbra um sem fim de cadeados com promessas perdidas desse amor ausente e uma das primeiras citações desta longa-metragem chega através de um pensamento do pintor holandês Van Gogh que, também ele, sofria desse amor que não tinha... "A tristeza durará para sempre"... Uma tristeza por algo que não se alcança, por um sentimento não correspondido ou, até mesmo, por algo que uma vez tido se perdeu... Um amor (já) ido... Talvez aquele que é o maior terror desta obra de José Pedro Lopes resida nessa exacta ideia de que o amor ou melhor, a sua ausência, podem representar uma vida vivida na eterna solidão e, como tal, numa agonia insuportável à qual todos aqueles que dela padecem, resolvem pôr termo como a única solução encontrada para um fim (pouco) desejado.
Quando inseridos naquela floresta de almas perdidas, o espectador observa pelos olhares dos dois protagonistas, a quantidade de (des)iludidos que resolveu antecipar o seu próprio fim. Sem grandes referências aos seus motivos, subentende-se pelos elementos que já nos haviam sido fornecidos logo no início que o seu fim não se deve a problemas financeiros ou de saúde física, mas sim por uma debilidade psicológica inerente ao desgosto e à ausência de um amor que os complete. Um amor romântico, sentimental e até mesmo parental que os levou a questionar um lugar (inexistente) num mundo ao qual já não sentem pertencer. De almas alegres a caminhantes de uma penitência sem fim, poderão resistir num mundo onde (para eles) já nada parece fazer sentido? Poderá alguma vez esta ausência de amor ser colmatada?
Num mundo onde as respostas são escassas, principalmente quando em questões sentimentais onde a mesma não depende de uma vontade científica, A Floresta das Almas Perdidas entra então num domínio mais austero e soturno quando coloca o espectador perante uma importante e nunca colocada questão... o que aconteceria se perante o sofrimento alheio existisse alguém que tirasse proveito próprio? O que aconteceria se naquele instante final onde já nada parece fazer efeito mas onde - eventualmente - se procura uma última oportunidade, existisse alguém que revelasse que o único fim... é a morte? No fundo, e se naquele instante final alguém acelerasse o processo e se assumisse como um anjo do mal no local onde se procura o descanso eterno? Numa estranha e não tão invulgar semelhança, A Floresta das Almas Perdidas acaba por colocar, ainda que de forma metafórica, a questão que todos nós nos colocamos um dia... não existe sempre alguém que se aproveita do "nosso" sofrimento quando parece que a única coisa que procuramos é uma nova oportunidade?
No local mais improvável do mundo e onde todos aqueles que para lá se dirigem apenas procuram o silêncio prévio ao instante final, duas almas - não tão perdidas - encontram-se. "Carolina" (num claro amadurecimento profissional de uma sempre composta Daniela Love) aparenta ser uma simpática jovem com tudo bem planeado e definido. Nada que surja parece provocar um passo atrás nas suas decisões esperando apenas - para a sua concretização - "aquele" momento ideal. Com um ar cómico e descontraído, controlado mas despreocupado, "Carolina" é, no fundo, aquela jovem sobre quem o espectador questiona sobre as suas motivações... afinal, o que poderá uma jovem com os pés tão bem firmes na terra estar ali a fazer quando tudo o que diz parece ser de um controle total e absoluto sobre o seu próprio destino?! Por outro lado encontramos "Ricardo", um homem de meia idade que sofre um desgosto... O desgosto de uma filha ausente, de um lar relativamente desfeito onde todos parecem querer continuar menos ele que se deixou apropriar de uma solidão devastadora mas que, ainda assim, tenta convencer a jovem "Carolina" de que a sua aparente descontracção num espaço onde reina a tristeza não é a solução para a sua ainda tão jovem vida... Mas, lentamente, a pergunta instala-se... afinal quem terá mais experiência de vida?...
Enquanto a acção nesta parte do "mundo" parece decorrer de forma inesperada revelando um improvável vilão que emerge à custa do sofrimento alheio, o espectador é levado a uma nova protagonista: "Filipa" (Mafalda Banquart)... a filha de "Ricardo". "Filipa" é uma jovem atormentada com um lar relativamente desfeito... Se o pai parece perturbado com a morte da filha mais velha, a mãe parece querer continuar com a sua vida e não se deixar levar pelo desgosto... Pelo meio, está a jovem... quase invisível que luta apenas pela sua existência e pela forma como Tiago (Tiago Jácome), um namorado preocupado a vê e insiste em passar tempo com ela... No fundo, voltamos à eterna questão de que é o amor, e sua ausência, que tudo comanda... que a todos ordena... e que por todos (se) move num campo incerto... Surge... extingue-se... reaparece... desarma... e mata. O amor que a todos deu esperança e que, na sua ausência, deixou a tristeza que, já dizia o pintor holandês, "durará para sempre".
Mas permanece sempre uma questão inabalável e que por momentos pode ser ignorada pelo espectador... Afinal, quem é "Carolina"?! Quais as motivações desta jovem que tudo parece ter mas que vive distanciada - e quanto baste fascinada - pela desgraça sentimental dos demais? Se durante algum tempo o espectador poderá pensar que esta jovem interpretada por Daniela Love mais não é do que uma alma perdida que tenta, de certa forma, "recrutar" outras para encher o seu lago - o elemento natureza sempre muito presente e sabiamente incorporado em toda a dinâmica desta história (lago, floresta, campo...) -, são os instantes finais em que se revela uma jovem tão normal (ou banal?!) como as demais que nos suscitam a maior curiosidade... Será, ou estará, esta jovem tão alheada de um sentimento sentido por todos os demais que a única forma de se sentir "viva" é provocando e vivendo a morte de todos aqueles que a procuram? Existirá vida para lá da sua aparente insensibilidade ou o tal "click" que a faz mover é apenas graças à vontade de parar dos demais? No final... quem a terá incumbido da função de acabar com a tristeza alheia como se isso fosse o remédio ou a resposta para que tudo o demais existisse e vivesse numa eterna alegria?
No fundo, a grande questão aqui colocada com A Floresta das Almas Perdidas não é tanto sobre as inúmeras almas desistentes ou sofredoras - e perdedoras - com a aparente ausência de amor mas sim sobre aquelas inúmeras almas que vivem e experimentam o terror através das suas vidas banais e sem objectivos. Aqueles que se concentram única e exclusivamente na existência dos demais como se a sua (própria) salvação fosse apenas alcançada com a desgraça e miséria alheia. Afinal, como poderá essa existência banal ser validada senão através da expropriação da vida do "outro"?
José Pedro Lopes filma assim uma improvável história de terror que não se prende tanto com a existência de uma alma ou existência sobrenatural mas sim um terror próximo, que pode co-habitar os mesmos espaços, os mesmos locais e as mesmas experiências, apropriando-se delas e espoliando os outros de um livre arbítrio... Almas (perdidas) que se alimentam das incertezas, dos receios, dos desgostos e das perdas daqueles com quem se cruzam, utilizando-os em benefício próprio e ridicularizando as suas experiências como determinantes para a condução até àquele momento final e de eminente desgraça. O terror estará assim não tanto nas mãos de entidades dessas ditas entidades sobrenaturais mas sim daqueles que (se) chegam com nobres intenções mas que se revelam como emissários de uma fatalidade que fomentam e alimentam para simplesmente se sentirem bem com uma "nobre acção" que acarinharam.
Com uma dosagem mórbida sobre a triste realidade da sociedade dos nossos dias onde tudo é efémero e distante, A Floresta das Almas Perdidas afirma-se num campo de terror onde este se alcança pela não tão improvável realidade diária - que é sim bem palpável - e por todo um conjunto de elementos técnicos que fomentam o pouco terreno que algumas das suas sequências exibem, nomeadamente no interior de uma floresta que se assume com o seu próprio dinamismo e aura levando o espectador ao patamar do irreal... Nesta floresta questionam-se as atmosferas, as histórias e principalmente a incerteza da convicção entre o tal terreno versus o áureo e o espectador perde-se num dilema (momentâneo)... estaremos nós perante uma história onde as almas recentes são guiadas por uma guia que atravessou as mesmas questões existenciais ou, por sua vez, todo este purgatório é mais real do que um (não) paraíso onde todos acabam por pagar a sua própria penitência?
Com uma excelência técnica a nível da direcção de fotografia e da música original que remetem o espectador para uma história sobre a perda e o limbo, A Floresta das Almas Perdidas faz destacar Daniela Love, uma actriz em constante crescimento profissional e que aqui dá corpo e uma estranha alma a uma anti-heroína que salva através do auxílio à morte, que purga em nome do fim da tristeza mas que, afinal se revela como apenas mais uma solitária que tudo faz para querer encontrar o seu espaço num mundo onde tudo aparenta ter mas no qual tudo lhe falta e pôr um fim à tal tristeza (que dura para sempre) que sente, não controla e aos poucos a transformou numa apática.
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"Voz Off: A tristeza durará para sempre."
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7 / 10
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domingo, 14 de maio de 2017

Powers Boothe

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1948 - 2017
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IndieLisboa - Festival Internacional de Cinema Independente 2017: os vencedores

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Competição Internacional
Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa: Viejo Calavera, de Kiro Russo (Bolívia/Qatar)
Prémio Especial do Júri Canais TVCine & Séries: Arábia, de Affonso Uchôa, João Dumans (Brasil)
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Competição Internacional - Curtas-Metragens
Grande Prémio de Curta-Metragem: Wiesi, de Zofia Kowalewska (Polónia)
Ficção: Le Film de l'Été, de Emmanuel Marre (França/Bélgica)
Documentário: The Hollow Coin, de Frank Heath (EUA)
Animação: 489 Years, de Hayoun Kwon (França)
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Competição Nacional
Prémio Allianz - Ingreme para Melhor Longa Metragem Portuguesa: Encontro Silencioso, de Miguel Clara Vasconcelos
Prémio Ingreme para Melhor Curta Metragem Portuguesa: Miragem Meus Putos, de Diogo Baldaia
Prémio Novo Talento FCSH/Nova - Curta Metragem: Flores, de Jorge Jácome
Prémio Walla Collective - Melhor Filme da Secção Novíssimos: Os Corpos que Pensam, de Catherine Boutaud
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IndieMusic
Prémio Indiemusic Schweppes: Tony Conrad: Completely in the Present, de Tyler Hubby (EUA/Reino Unido)
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Prémio Árvore da Vida: Antão, o Invisível, de Maya Kosa e Sérgio da Costa (Suíça/Portugal) e Num Globo de Neve, de André Gil Mata (Portugal)
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Prémio Amnistia Internacional: Find Fix Finish, de Mila Zhluktenko e Sylvain Cruiziat (Alemanha)
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Prémio Universidades: El Mar la Mar, de Joshua Bonnetta e J.P. Sniadecki (EUA)
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Prémio Escolas: Le Fol Espoir, de Audrey Bauduin (França)
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Prémios do Público
Longa-Metragem: Venus, de Lea Glob e Mette Carla Albrechtsen (Dinamarca/Noruega)
Curta-Metragem Crocs: Scris/Nescris, de Adrian Silisteanu (Roménia)
IndieJúnior Escolas DoctorGummy: Litterbugs, de Peter Staney-Ward (Reino Unido)
IndieJunior Famílias Trina: The Sled, de Olesya Shchukina (Rússia)
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sábado, 13 de maio de 2017

Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción 2017: os vencedores

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Terminou hoje a oitava edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorreu desde o passado dia 8 de Maio em Santander, Torrelavega e Piélagos, na Cantábria, em Espanha festival no qual tive a honra de, pela terceira vez, participar enquanto seu programador oficial.
Foram os vencedores:
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Prémio Dunas de Liencres
Internacional: The Ravens, de Jennifer Perrott
Nacional: La Invitación, de Susana Casares
Cantábria: 30 Minutos con Laura, de Juanjo Haro
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Prémio Costa Quebrada
Social: The Resurrection Club, de Guillermo Abril e Álvaro Corcuera
Realizador Revelação: Amo, de Alex Gargot
Prémio da Crítica: Manuscrit Trouvé dans l'Oubli, de Eugenio Recuenco
Menções Honrosas: Encerrada, de Rogelio Sastre e Lurna, de Nani Matos
Prémio do Júri Jovem: As Vacas de Wisconsin, de Sara Traba
Menções Honrosas: Postales, de Pablo Santidrián e Inés Pintor Sierra e The Resurrection Club, de Guillermo Abril e Álvaro Corcuera
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Prémio Canallave
Realizador: Susana Casares, La Invitación
Direcção de Produção: Paz Otero, Manuscrit Trouvé dans l'Oubli
Actor: Mikel Losada, Lituania
Actriz: Pilar Pereira, As Vacas de Wisconsin
Argumento: Hugo de la Riva, Campeón
Montagem: Antonio Gómez Pan, Manuscrit Trouvé dans l'Oubli
Fotografia: Axel Cosnefroy, Manuscrit Trouvé dans l'Oubli
Música Original: Ara Malikian, Le Chat Doré
Direcção Artística: Eric Dover, Manuscrit Trouvé dans l'Oubli
Guarda-Roupa: Felype de Lima, Le Chat Doré
Caracterização: Tamara Meco, Downunder
Efeitos Visuais: Pau Perramon, Bruce Gallagan
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Prémio Valdearenas: El Cine en Tus Manos
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Prémio de Distribuição: 30 Minutos con Laura, de Juanjo Haro
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Prémio #UnoCortoYRapidito: 1936, de Marcos Sastre
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Prémio #OneSequenceShot: Prólogo para el Fin del Mundo, de Fernando Sánchez
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Prémio #NoTeCortesHazTuCorto: Malas Abuelas, de Pedro García Argumosa (Oruña)
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Cerca de Tu Casa (2016)

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Cerca de Tu Casa de Eduard Cortés é uma longa-metragem espanhola exibida durante a oitava edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que hoje termina na Cantábria, e que fora premiada na última edição dos Goya - prémios atribuídos anualmente pela Academia Espanhola de Cinema - com o troféu para a Melhor Canção Original e que conta uma história - entre tantas - de uma Espanha em plena crise económica onde Sónia (Sílvia Pérez Cruz) é despejada da sua casa juntamente com o seu marido e a filha regressando, anos depois, a casa dos seus pais. Uma história que nos revela Pablo (Oriol Vila), o empregado bancário que contribuiu para que a sua situação económica se tornasse cada vez mais precária e ainda Jaime (Ivan Benet), o polícia que tem de retirar Sónia e a sua família da casa que agora já não lhes pertence.
O realizador Eduard Cortés e Piti Español escrevem o argumento deste filme que, infelizmente, tão próximo está das realidades mediterrânicas dos últimos anos sendo portanto muito fácil a qualquer um de nós criar pontos de referência com o mesmo. A história (não) tão simples apresenta-se através de três distintas perspectivas; por um lado temos a protagonista e, no fundo, aquela que acaba por viver todos os pequenos grandes caminhos de um momento difícil quando ela e a sua família se vêem forçados a abandonar a casa para a qual trabalharem e que é, afinal, o seu lar. "Sónia" é uma mulher como tantas outras a quem, inadvertidamente, tudo na vida parece começar a correr mal. A falta de trabalho do marido e o seu parco salário, uma filha em jovem idade que necessita toda uma orientação e agora a braços com toda uma espiral de perda e desilusão que a irão condenar ao (in)esperado... o tão anunciado despejo da sua casa. A acompanhar esta história encontramos o "Pablo" de Oriol Vila, o bancário cujo único propósito é garantir o seu trabalho e fazer cada vez mais dinheiro impressionando, dessa forma, os seus superiores. "Pablo" foi quem vendeu a casa a "Sónia" e é seu vizinho de longa data... será ele o rosto de todo um sistema para quem os números e os cifrões representam mais do que as pessoas... será o seu rosto aquele que vemos directamente como o emissário de uma crise agora real e que bateu à porta de mais uma família. Finalmente "Jaime", o polícia com um dilema moral entre cumprir o seu dever e expulsar as famílias sempre que as autoridades competentes assim o ordenam ou, por outro lado, viver com uma consciência mais tranquila recusando-se a fazê-lo mas, como consequência, ter de abandonar o trabalho que, no fundo, o caracteriza.
É com este conjunto de personagens e seus respectivos dilemas que o espectador se vê comprometido em conhecer esta história cheia de pequenos grandes momentos de reflexão sobre a (sua) sociedade e comunidade, revendo nestas experiências mais ou menos ficcionadas, momentos que lhe são próximos, familiares e até por vezes sentido na primeira pessoa. Cerca de Tu Casa é portanto não só o mais recente filme sobre a crise mas sim um em que o espectador pode encontrar não relatos sobre os números e as perdas mas sim sobre as pessoas que estão por detrás dos mesmos e... dos ditos dois lados da barricada. Se por um lado vemos a espiral de decadência e de perda desta família enganada não só por aqueles em quem inicialmente confiou mas também por aqueles que prometeram auxílio em tempo de crise e todas as pequenas consequências que se desenrolam subitamente mais parecendo não quererem terminar nem dar a tal oportunidade esperada, em Cerca de Tu Casa conhecemos também as histórias daqueles que são vulgarmente conhecidos como os vilões... os "homens sem rosto"... aqueles que executam as ordens (de despejo... de despedimento...) e que estão, também eles, a alterar toda a sua vida em nome de uma acção que irá transformá-los em toda a sua essência. Desde o "Pablo" que prometeu mundos e fundos por cumprir, as oportunidades de sucesso num dia de amanhã que agora sabemos não ir chegar sem esquecer o polícia "Jaime" que como braço armado de uma lei injusta executa a expulsão e o afastamento dos sonhos de tantos desiludidos sendo, também eles, meras vítimas de um sistema que espalhou os seus tentáculos à volta de todos. Se estes se recusarem a executar aquilo para o qual são pagos... não serão eles as próximas vítimas do próprio sistema para o qual (agora) trabalham?!
É nesta espiral cíclica e, como tal, assumidamente viciosa que encontramos um conjunto de personagens aprisionadas ao medo da perda... ao receio de encontrarem as suas vítimas sistematicamente penhoradas e sem esperança de um dia melhor. O medo que os condena a um fim mais ou menos esperado no qual apenas podem contar com um núcleo restrito de pessoas que quase sempre se resume à sua família mais próxima mas que, em tantos outros encontram os seus inesperados pares, que partilham experiências, momentos e histórias em comum. Os milhares de pessoas que um dia resolveram sonhar em construir uma vida, ter planos, objectivos e metas por cumprir mas que o chamado "mundo da finança" resolveu testar, encurtar e destruir. Vidas adiadas? Interrompidas? Mortas?!
Mas se toda esta linha narrativa baseada - no fundo - naquilo que todos nós conhecemos desses últimos anos, a grande inovação de Cerca de Tu Casa chega através não da dramatização que lhe está obviamente inerente mas sim pela forma como Eduard Cortés resolve musicar alguns desses momentos. Se este não pode ser considerado um musical tradicional onde a quase totalidade do filme está musicado/cantados pelos respectivos actores, a realidade é que os seus lamentos, tristezas e afinal, todas as confissões das suas desilusões e sonhos perdidos ganham toda uma nova dimensão quando assistimos àquilo que deveriam ser os pontos altos do filme (pela elaboração das coreografias e histórias cantadas) transformados em testamentos de vidas que ainda não terminaram. Através dos pequenos relatos cantados com que brindam o espectador, este assiste a todo um desabar de esperança compreendida e a uma invulgar tristeza que se deixar transmitir por olhares agora sem brilho, sem luz e, assumindo-o, sem qualquer réstia de esperança. A vida, nestes instantes musicados, terminou para estas personagens... Tal é a qualidade da interpretação deste conjunto de inspirados actores capazes de se "despir" da sua personalidade conferindo alma àqueles que (não) existem para lá deles próprios.
E é aqui que reside o trunfo maior de Cerca de Tu Casa. Várias são as histórias sobre a crise, sobre as pessoas que a ultrapassaram e aqueles que com ela definharam. Tantas conhecemos e outras tantas ficaram por contar. No entanto, conseguir transmitir essas tristezas e esses sonhos perdidos através de segmentos musicais que fazem culminar toda uma dor sofrida é obra de mestre, e estes momentos valem por todo um filme que, claro está, prende o espectador ao seu lugar fazendo-o recordar tanto que escutou, viu, presenciou ou conhece da sua própria realidade. Se a realidade nua e crua tal como é apresentada se sente, estes breves mas intensos momentos onde se despem os rostos do dia-a-dia e se confessam as tristezas que são, agora, um estado normal, tornam vulneráveis actores e público que comungam de uma experiência comum e de uma vivência que não consegue esquecer.
No final, e ainda que Cerca de Tu Casa termine da forma como esperamos desde os instantes iniciais, seria injusto dizer que esta empatia criada com o espectador não lhe deixe uma certa esperança. Não é uma esperança qualquer ou tão pouco aquele sentimento renovado de que "amanhã" tudo será melhor. Qualquer um de nós sabe que esse "amanhã" irá tardar e que nada voltará a ser como aquilo que em tempos fora conhecido. Mas, no entanto, existe uma esperança que para lá de tudo o que foi vivido e de tudo o que foi perdido, "Sónia", "Pablo", "Jaime" e tantos outros anónimos que acabam por viver experiências semelhantes serão assumidamente pessoas diferentes. Não necessariamente melhores mas simplesmente diferentes... Para uns é a ideia de uma esperança renovada, para outros a oportunidade de começar de novo e para outros, ainda que não tão feliz, é a certeza de que a haver uma nova vida, esta não será tida como garantida, agarrada como uma possibilidade incerta tida com confiança e despreocupação mas sim uma oportunidade de ver a vida não com os olhares de alguém sonhador mas de alguém que sabe que tudo o que conquistou pode ser facilmente perdido.
Intensamente triste e dotado de um conjunto de interpretações que coroam essa tristeza, Cerca de Tu Casa brilha ao dar cor a essas histórias (anónimas) de perda, de redenção, de encontro e de uma tentativa de renovação que exalam através de todos aqueles grandes momentos musicados capazes de transmitir através de uma intensa coordenação, todo um desequilíbrio, insatisfação e compreensão de que a perda está sempre à espreita ao virar da esquina.
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8 / 10
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sexta-feira, 12 de maio de 2017

El Mercadillo (2016)

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El Mercadillo de Pedro Herrero García é uma curta-metragem de ficção espanhola presente na secção Social da oitava edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que amanhã termina na Cantábria, em Espanha.
Esta curta-metragem apresenta-nos duas mulheres já de idade avançada que em amena conversa se dirigem ao mercado. Mas este não é um dia qualquer e, para lhes fazer companhia, levam uma outra mulher bem mais jovem que, no entanto, não parece muito motivada para esta viagem.
Naquela que já poderá ser uma corrente cinematográfica do cinema espanhol dedicada quase exclusivamente à temática da crise - nunca em tão pouco tempo havia visionado uma quantidade tão grande de filmes curtos que se dedicassem com veemência a esta temática - El Mercadillo poderia ser facilmente considerado como "mais um" do género. No entanto, aquilo que aqui observamos não é uma obra qualquer. Herrero García não se centra nas pequenas grandes histórias motivacionais sobre a crise e o drama dos despejados ou tão pouco sobre alguém que perdeu o emprego e tem, agora, de encarar a sua vida sobre toda uma nova perspectiva. Não... Aqui o espectador observa outra realidade.
Longe dos despejos... longe da perda de trabalho e até mesmo longe dos dramas familiares que rodeiam todas estas temáticas, o realizador aqui leva o espectador àquilo que vulgarmente qualquer um de nós poderia apelidar como os efeitos ou as consequências de uma vida que se desmoronou lentamente e que agora se vê obrigada - a mulher mais jovem - a recorrer àquilo que nunca imaginou.
El Mercadillo não é sobre a dificuldade em efectuar as compras mensais... ou tão pouco sobre a falta de dinheiro. Aqui aquilo que observamos é quando esse já não existe e a fome aperta... Quando tudo o que resta é tentar as sobras indesejadas por aqueles que ainda conseguem (sobre)viver sem recorrer ao que é deitado fora como indesejado. Uma história sobre a situação limite de tantas e tantas pessoas que têm de se contentar com uma repetida refeição diária feita com tudo aquilo que, nos mercados, foi considerado lixo estando, no entanto, ainda em perfeitas condições de consumo.
No fundo, aquilo que El Mercadillo questiona - ou leva o espectador a questionar - é sobre o que sobre de "nós" quando recorremos a essas "sobras". Como nos definimos quando tudo o demais foi tentado e, sem sucesso, nos levou àquela condição limite de recorrer ao desperdício... ou "lixo"... que, uma vez esquecido e deitado fora, servirá agora de alimento àqueles que nada mais têm... Que sociedade é esta onde em vez de partilhar prefere desperdiçar e, apenas então, considerar "bom" para aqueles que nada têm...
Simples (ou talvez não), El Mercadillo cedo se apresenta como uma história sobre duas (ou três) amigas que falam de banalidades, da telenovela do dia anterior ou até mesmo sobre as dificuldades da vida sem que, no entanto, se assumam como "membros" desse clube não tão exclusivo que aumenta todos os dias. Mas, no final, aquilo que o espectador retém é uma história sobre a sobrevivência... sobre o ultrapassar vergonhas e embaraços últimos que têm de ser esquecidos em nome de uma possibilidade de observar um dia... um dia mais... o dia seguinte... Aquele em que - talvez - se possa voltar a uma condição não necessariamente mais nobre mas, pelo menos, uma em que o seu sustento não seja fundamentado com aquilo que os outros consideram como o "lixo" que fica para aqueles que pouco ou nada têm.
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8 / 10
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Lurna (2016)

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Lurna de Nani Matos é uma curta-metragem espanhola de ficção e uma das seis nomeadas na secção Social da oitava edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorre até amanhã dia 13 de Maio na Cantábria, em Espanha.
Lurna (Diaryatou Daff) é uma jovem mulher africana que sonha com uma potencial vida melhor. Poderá ela alguma vez tê-la numa terra que não é a sua?
Numa época em que tanto se questiona a entrada de refugiados nesta opulenta e em crise (de valores) Europa, a curta-metragem de Nani Matos não poderia ter chegado em melhor altura. Em Lurna acompanhamos as recordações de uma mulher que tem toda uma história por detrás da sua existência que comprova a sua luta e a sua viagem até uma Espanha onde agora se encontra. "Lurna" é portanto, mais do que uma simples mulher - que de simples nada tem - mas sim o rosto de todo um conjunto de homens e mulheres que atravessaram meio mundo com a promessa e a ideia de algo melhor do que aquilo que, até então, lhes tinha sido dado a conhecer na sua vida. Mas, no entanto, como todos as promessas de um el dorado inexistente, também agora neste admirável mundo novo, "Lurna" volta a sofrer às mãos de uma mafia que tudo exige e nada tem intenção de fazer cumprir.
Ao ritmo dos anunciados flashback, Lurna revisita toda a sua viagem até Espanha. Das carrinhas repletas de migrantes na mesma situação que ela às detenções pela polícia. Das ameaças de arma apontada aos bares de alterne e destes à consequente separação dos seus filhos tudo é, em breves minutos, apresentado nesta curta-metragem que reflecte este mundo novo - infelizmente não tão ficcionado como se poderia desejar - e uma vida pouco admirável.
A alma desta história é uma intensa Diaryatou Daff que consegue com a sua interpretação levar o espectador a toda uma nova dimensão aproximando-o de uma realidade assumida mas voluntariamente ignorada. Do submundo do crime a todo um sofrimento tido em silêncio, Daff prende o espectador ao ecrã graças a esta não verbalização de todo um passado que acima de tudo a envergonha. O espectador desconhece as origens de "Lurna" mas, no entanto, conhece todo este seu percurso até ao momento em que se encontra e sabe que a história desta personagem mais não é do que o rosto tido de tantas outras que escuta diariamente nos diversos noticiários. "Lurna" é portanto mais do que uma mulhe... um símbolo. Um símbolo de tudo o que se viveu... do que se perdeu... do que se sonhou sem nunca conquistar. É o rosto de uma vida de sonhos apagados, de esperanças perdidas e de momentos que se sentem (e percebem) mais não serem do que memórias idas de uma vida que se esperou. Para lá do desencanto está a perda... a perda daquele pouco que ainda se sentia poder possuir. A perda como a única referência possível de uma vida que se extingue e que lhe retirou todos os seus mais preciosos bens. No olhar de Daff temos tudo... e ela não necessitaria dizer absolutamente nada para que com ela o espectador criasse todas as empatias possíveis... Assim intensa é a sua interpretação.
Ainda que o espectador esteja perante uma história ficcionada, esta poderia ter sido retirada e inspirada nos inúmeros documentários e reportagens que diariamente inundam as nossas televisões. Ali a única coisa que pode, de facto, ser ficção é o nome e a identidade daquela mulher que, no entanto, representam tantas outras cujas histórias ocorreram mais ou menos dentro daquele relato. Desta forma, Nani Matos cria não só uma obra-prima do género pela veracidade dos factos que ali decide contar como sobretudo uma história com a qual aproxima as realidades destas pessoas deslocadas das sociedades onde elas chegaram tão opulentas de bens e por vezes tão cerradas àquilo que mais falta faz... o humanismo e a compaixão que qualquer um de nós desejaria ter quando chegados a outros territórios de onde não são originários.
Comovente... comovedora... intensa... forte... Lurna é uma curta-metragem simplesmente brilhante.
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8 / 10
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quinta-feira, 11 de maio de 2017

Encerrada (2016)

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Encerrada de Rogelio Sastre é uma curta-metragem espanhola de ficção presente na secção Cantábria da oitava edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorre até ao próximo dia 13 na Cantábria, em Espanha e no qual tive o prazer de marcar presença enquanto programador oficial do festival.
Nora tem uma depressão e encontra-se no zoológico onde os animais a olham enquanto ela tenta comunicar com alguém pelo telefone. Nora sente-se só.
Naquela que é uma aparente analogia da sociedade moderna onde qualquer um de nós se encontra num mundo tecnologicamente desenvolvimento mas onde as relações pessoais e humanas perdem cada vez mais significado ou relevância, Encerrada é, portanto, a história de uma mulher presa num estado psicológico mais frágil que tenta desesperadamente contactar com aqueles com quem, em tempos, partilhou uma boa parte das suas histórias e que agora lhe estão distantes.
Perdida num aparente desespero, "Nora" é apenas observada por aqueles que, estranhamente, poderão sentir-se numa mesma condição que ela... enquanto a sua depressão a obriga a tomar uma constante quantidade de medicamentos dos quais se queixa de forma vã ao telefone, também aqueles animais parecem presos num mundo diferente - e igualmente distante - do seu habitat natural que lentamente os doma a um estado não natural. Se "Nora" se encontra solitária na sua "selva urbana", também aqueles que agora a observam "compreendem" o seu isolamento por serem vítimas de um mal semelhante que os condiciona nos seus movimentos e liberdades inatas. "Nora" vive portanto a sua própria prisão... também ela a céu aberto... que a aprisiona a uma ilusão de liberdade que não sente não só pela medicação a que está sujeita como também pela ânsia que todos os locais lhe parecem conferir deixando-a apenas "livre" naquele zoológico onde tanta estabelecer uma qualquer comunicação. Tal como os demais animais, "Nora" é assim uma réstia da mulher que outrora fora limitando-se a deambular por espaços que aparentam permitir-lhe essa tal liberdade mas que, na prática, mais não são do que ilusões que a permitem ir sobrevivendo.
Com um interessante argumento que explora a analogia entre Homem versus Animal presos na liberdade das sociedades modernas, Encerrada fragiliza, no entanto, na sua vertente prática quando, num mise en scène, se perde na turbulenta concretização da história revelando algum amadorismo que transforma esta história de semelhanças entre os vários intervenientes num conto banal repleto de boas intenções mas assumidamente perdido na sua tentativa de concretização. Ainda que o potencial narrativo exista ele fica, na prática, ausente desta história da qual o espectador apenas pode retirar a boa intenção com a qual o seu realizador pretendeu contar uma história sobre os problemas de uma sociedade onde tudo parece correr mais depressa do que aquilo que a mente humana consegue inicialmente processar.
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3 / 10
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El Tren de las 8 (2016)

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El Tren de las 8 de Ross Manso é uma curta-metragem espanhola presente na secção Cantábria da oitava edição do Piélagos en Corto - Festival Internacional de Cortometrajes de Ficción que decorre na região espanhola até ao próximo dia 13 de Maio.
Bruno, Noé e Gustavo são três irmãos que se dirigiram para um bosque onde planeiam enterrar um corpo. Depois de uma discussão, Bruno - o mais novo - entra pelo bosque indo parar a um terminal de comboios onde todo um conjunto de personagens esperam pacientemente pelo das oito horas.
Aquilo que começa como uma mais ou menos inspirada história de gangsters e mafiosos que saíram do seu último crime cedo se transforma numa enigmática história sobre uma qualquer perdição da qual os seus protagonistas foram alvo. Nem sempre perceptível naqueles instantes iniciais que remetem o espectador para um conto de vingança e fuga mas El Tren de las 8 é um pouco mais do que um simples filme onde os malfeitores procuram ficar e dividir aquilo que pilharam.
Nem sempre perceptível ao longo da sua história mas é - para o espectador - a viagem de "Bruno" aquela em que deste lado do ecrã merece a maior atenção. Distante dos objectivos dos dois irmão, "Bruno" entra por um caminho por entre o bosque onde vai dar a uma estranha plataforma de um terminal de comboios perdida no meio das árvores onde várias personagens parecem esperar intemporalmente por um comboio que nunca mais chega. Pergunta-se o espectador se esta espera se prende com algo mais do que com uma simples viagem para a cidade mais próxima... ou até mesmo se estas personagens que ali esperam se encontram dentro do mesmo espaço terreno em que "Bruno" se encontra. Desfeitas algumas dúvidas, aquilo que nos espera é então uma história que se aproxima de uma redenção algo sobrenatural onde todos parecem esperar a sua penitência e a sua oportunidade num "além" que está, afinal, mais perto do que aquilo que se poderia imaginar.
No entanto, e se o argumento de El Tren de las 8 parece sedutor pela mescla de história de vingança que encontra a sua plataforma sobrenatural, a dinâmica das suas personagens e algumas interpretações mais fragilizadas tolhem todo o conjunto desta curta-metragem que quer pela sua duração quer pelas deficiências narrativas com que o espectador se vai deparando com uma história que se prolonga para lá daquilo que seria aceitável e compreensível de e para com o seu argumento.
O purgatório aqui assumido como aquele terminal perdido no meio de um bosque (imaginado?) onde todos penam pelos seus pecados e esperam por uma sentença que pode levar toda uma (além) vida é, no conjunto desta curta-metragem, o ponto mais forte e que lhe confere toda uma estranha mas original dinâmica, distanciando a tradicional imagem do mesmo e conferindo-lhe um aspecto mais terreno com o qual todo o espectador poderá criar uma ligação... afinal, quantos de nós já não (des)esperámos por um transporte que aparentava nunca mais chegar?! Mas, no entanto, se esta originalidade aqui sentida credibiliza todo o trabalho final... a falta de inspiração de algumas das suas personagens (interpretações) retiram a dinâmica até então sentida parecendo que cada um ruma numa direcção oposta sem saber quando chegar a bom porto... de um eventual desnorte a um erro/fragilidade na direcção de actores, El Tren de las 8 parece provocar no espectador o mesmo sentimento que aquelas personagens perdidas aparentam... uma total perda do seu sentido de orientação que o leva a questionar-se sobre o seu próprio porto ou objectivo...
Desta forma, e ainda que as boas intenções e a verve de originalidade se sintam presentes, El Tren de las 8 perde-se pela vontade de contar uma história que se alonga... e alonga... para lá daquilo que o seu argumento permitia originalmente, constituindo-se este como o seu maior déficit de dinamismo e o suficiente para criar desconexão entre público e história.
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5 / 10
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