quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Heather North

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1945 - 2017
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A Língua (2017)

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A Língua de Adriana Martins da Silva é uma curta-metragem portuguesa de ficção presente em competição na vigésima-terceira edição do Caminho do Cinema Português, actualmente a decorrer em Coimbra.
Ana (Sara Gonçalves) fala com a psicóloga (Joana Brandão) sobre a sua relação com Filipe e sobre a sua incapacidade de beijá-lo e sentir a sua língua. A sua incapacidade de se sentir intima com alguém que, no fundo, a repulsa. Poderão estas sessões com a sua psicóloga resolver um problema que a impede de sentir e viver a sua sexualidade?
Depois de O Cheiro das Velas (2013), Adriana Martins da Silva regressa com a sua mais recente curta-metragem na qual volta a explorar os meandros de uma sexualidade sentida mas não vivida no seu todo. Dos pequenos entraves psicológicos e sentimentais que opõem os intervenientes a uma vida sexual activa e expressa em liberdade aos pequenos paradigmas de uma regra de "normalidade" imposta pela sociedade como aceite e "correcta", A Língua dá então corpo a uma história de um amor sentido mas que pelo medo da falta de aceitação se deixa condenar mesmo antes de ter o seu início.
A história de "Ana" - interpretada por uma magnífica Sara Gonçalves tão saudosa desde os idos tempos da série Riscos (1997) - começa quando a própria nas suas inúmeras sessões com uma psicóloga, manifesta a sua incapacidade de manter uma vida sentimental e sexual activa com alguém com quem terá (espera) de manter uma relação em que o toque é essencial. O toque dos lábios... o toque da língua... o toque que permitirá a troca de fluídos corporais. Se o espectador se deixa levar nesta história de incapacidade afectiva e afectiva como o ponto fulcral desta curta-metragem, A Língua cedo revela que a principal condicionante de "Ana" não é tanto o contexto mas sim a forma como a sua sexualidade é expressa... Porque nem tudo é tão linear como o simples desdém por essa já referida manifestação afectiva... resta então compreender que "Ana" sente... mas pode não sentir aquilo que o "outro" - personagem ou espectador - "esperam" que ela sinta.
A língua - de "Ana" - é assim o mote para que o espectador de A Língua compreenda que esta não é uma condicionante ou um seu problema mas sim o motor para a realização de uma sexualidade reprimida, recalcada e até mesmo proibida - para ela - fruto dos inúmeros preconceitos de uma sociedade sempre pronta para um julgamento antecipado das realidades ou condicionantes dos demais... porque para a maioria existe uma norma "aceite" e outra "proibida", então esta curta-metragem estabelece desde cedo a directa relação da personagem interpretada por Sara Gonçalves e das suas limitações sentimentais para que o espectador a acompanhe sem julgamento e perceba que o seu desejo não é proibido mas sim uma etapa de uma realidade que poderá (eventualmente) ser diferente da sua mas que, ainda assim, não deve ser julgada mas sim aceite. Recorrendo ao tal ditado já antigo... "se todos gostassem do azul... o que seria feito do verde?!".
Por outro lado, a história de "Ana" não é tida em solidão. A acompanhá-la existe uma psicóloga - Joana Brandão - habituada a escutar os problemas alheios e indicar-lhes pistas ou tarefas para se livrarem dos seus constrangimentos mas que, também ela, fruto de uma vida sexual e sentimental com os seus próprios desafios e barreiras, se vê incapaz de expressar a sua vida afectiva de forma livre de preconceitos e julgamentos. A solidão, o abandono e até mesmo uma certa incapacidade de se manifestar como um "eu" livre e independente, levam-na a limitar-se à vida dos outros dentro de um consultório que se vê ocupado por vários pacientes durante o dia mas que a abandonam ao final da hora de expediente. A sexualidade - e até mesmo a sua sensualidade - manifestam-se apenas no imediato de um momento vivido apenas por si própria deixando escapar a sua concretização e satisfação que, na realidade, nunca partilha com ninguém.
Dois opostos - de um lado uma mulher incapaz de partilhar a sua sexualidade e do outro alguém que deseja mas não encontra quem a complete - que encontram na partilha dos seus momentos e numa certa cumplicidade que nasce e cresce inesperadamente colocando-os frente a frente naquele que poderá ser não só o dilema da sua vida como, ao mesmo tempo, na concretização e compreensão daquilo que as poderá (eventualmente) mostrar o verdadeiro lado da sua felicidade.
A Língua é assim um saudável e esperado regresso da realizadora às duras e intensas histórias que marcam pela dinâmica da dualidade dos sentimentos e da sua incapacidade de expressão aqui com vida e forma transposta ao grande ecrã graças a duas intensas e maiores actrizes como o são Sara Gonçalves e Joana Brandão que partilham uma química efervescente capaz de fazer o espectador esquecer tudo ao seu redor ao mesmo tempo que se concentra numa dupla que torna reais os sentimentos das suas personagens, mostrando-as humanas e tão capazes de sentir e sofrer como sentir e viver tal e qual como qualquer um de nós.
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7 / 10
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Terrain Vague (2017)

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Terrain Vague de Latifa Said é uma curta-metragem luso-francesa presente na competição oficial da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra.
Nos subúrbios de uma grande cidade, uma prostituta (Delphine Grandsart) refugia-se num bar depois de perseguida por algumas crianças. É observada em silêncio. No bar, um homem (Slimane Dazi) observa-a e, quando ela sai, segue-a. Ele deseja algo que ela é capaz de lhe dar... ou talvez algo mais.
Latia Said dirige e escreveu o argumento desta curta-metragem sobre a iniciação sexual de forma brilhante, por vezes emotiva e com ligeiras doses de humor que desarmam pela sua simplicidade e conferem às suas personagens uma invulgar dimensão humana capaz de as aproximar do seu público que, livre de julgamentos, as acolhem como suas.
A prostituta interpretada por Delphine Grandsart é, para lá de uma mulher marcada pelas circunstâncias da vida que, no fundo, o espectador desconhece, uma mulher que luta pela sua sobrevivência. Nada sobre o seu passado nos chega para lá de que será uma eventual vítima dos julgamentos efectuados pela sociedade que a condena sem a conhecer. Na teoria ninguém quer nada com ela e afastam-na desse seu mundo idílico onde todos são perfeitos... Mas, isenta de qualquer imperfeição, na prática ela é a mulher a quem todos recorrem para satisfazer os seus mais recônditos desejos e devaneios sexuais a troco de algumas notas. Humana, emotiva, sensível mas por vezes fria e rude, esta mulher nada entrega aos demais para lá do seu corpo... Nada... até encontrar um inesperado estranho que a persegue e dela se aproxima não com os habituais caprichos sexuais mas sim com um inesperado pedido...
Ele, num brilhante registo de Slimane Dazi, é um homem perdido no tempo e no espaço. Sem qualquer familiar ou amizade que o espectador lhe reconheça, é o breve encontro naquele bar que o faz aproximar-se de uma mulher que, tal como ele, está perdida no mundo que conhece. Mas, para ele, ela presta um serviço que lhe pode ser útil... um serviço que ele ousa a não encarar como todos os demais e que lhe pode iniciar numa vida que os seus cinquenta anos de idade (?) ainda não conheceram.
A empatia entre os dois, ainda que não imediata, despoleta uma relação que mesmo não confirmada pelo espectador, se assume como intensa, reveladora e transformadora... para ambos... Para ela por talvez encontrar naquele homem o primeiro que a respeita... para ele pela possibilidade de ter naquela mulher, alguém que o ame e para quem saiba poder, a qualquer momento, voltar e entregar-se permitindo-lhe ganhar a confiança que, até então, nunca conseguira encontrar.
Distante de uma realidade suburbana portuguesa tida como tradicional, Terrain Vague é uma magnífica curta-metragem com chancela nacional e, sem margem para reservas, um dos grandes filmes curtos deste último ano. Intensa pela forma como aborda a sexualidade - ou o seu início - já numa idade tão avançada e por aproximar a mesma de um meio mais rude, operário e que pouco tempo perde com a sensibilidade alheia, Latifa Said cria um intenso drama sentimental que, sem tabus, medos ou limitações explora a mais natural das necessidades humanas, o respeito (esperado) pelas trabalhadoras de sexo a quem todos recorrem mas que todos temem respeitar e finalmente abordando de forma exemplar a temática do amor (ou do romance) no mais improvável dos meios comprovando que estas histórias (ainda) existem e quando contadas com intensidade e empenho estão próximas de se aproximar daquele cinema que todos quereremos recordar.
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9 / 10
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Sete (2017)

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Sete de Gustavo Sá e Sílvio Rocha é uma curta-metragem portuguesa de animação seleccionada para a competição oficial da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português que termina no próximo Domingo dia 3 de Dezembro.
Um dia de sete horas de trabalho? Uma disposição e uma forma de especial de estar? Ao som da música de Noiserv o espectador é transportado pelo modelo de uma pequena cidade onde tudo se movimenta naquilo que se pode adivinhar como a passagem do tempo durante um dia. Das actividades laborais presentes na mesma a todas actividades exercidas naquele espaço, um comboio passa, as luzes acendem e ao final do dia... um regresso a casa.
Imaginativa ao ponto do espectador conseguir apreciar - nos seus dois brevíssimos minutos - a todo o desenrolar de um dia na cidade, das suas pessoas, das suas ocupações e de tudo o que a compõe, Sete é tanto um estado de espírito como o passar do tempo... das horas... dos instantes que se transformam em momento e de uma rotina que dá forma como uma actividade e, sem que o espectador dê conta, assistiu a uma nova forma de animação em que o que funciona é não tanto aquilo que se observa mas sim aquilo que se imagina e ao qual se dá vida.
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6 / 10
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Delírio em Las Vedras (2016)

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Delírio em Las Vedras de Edgar Pêra é a mais recente longa-metragem do realizador de O Barão (2011) presente na selecção oficial da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro, e aqui numa incursão pela folia do Carnaval de Torres Vedras... terra de perdição pela referida altura do ano.
Quando um grupo de repórteres com os seus próprios estigmas e preconceitos - ou falta deles - sobre o evento mais popular do ano se deslocam para uma das terras que mais vincadamente o festeja... os resultados só se podem assumir desastrosos... ou hilariantes.
No estilo muito próprio de Edgar Pêra, o espectador por vezes espantado, é literalmente empurrado para os dias de folia do Carnaval de Torres onde as suas já tradicionais e muito características personagens assumem as rédeas de um evento que se quer... descontrolado. Com o propósito de documentar estes dias e num estilo que mistura o documentário e a ficção, Delírio em Las Vedras responde àquilo que tradicionalmente se diz... "what happens in Las Vedras... stays in Las Vedras".
Respondendo aos caprichos, às audiências e as desejos dos seus públicos - todos eles muito específicos desde os mais elitistas àqueles que procuram um programa ao estilo de um reality show - estes repórteres tresloucados perdem-se pelas ruas da cidade tentando, à sua maneira, captar a essência do Carnaval que possa preencher os requisitos da estação que representam. Quererá o seu público ver folia? Cultura? Moda? Ou será que mais não procuram de algo que os faça divertir sem que pensem muito?! Todas e quaisquer respostas a estas perguntas são válidas... Aquilo que o espectador não espera - ou talvez espere se se recordar da obra do realizador - é por uma história que se deixe levar pela folia e perca todo e qualquer preconceito...
Aqui os actores - ou as suas personagens - perdem-se pelas ruas da cidade assumindo não só as facetas que ali tentam impôr como também a própria frenética loucura de uma cidade que não dorme. De rua a rua e por vezes até de porta em porta, vasculham todos aqueles que se deixam levar pelo ambiente de folia, comédia ou crítica social encarnando eles próprios personalidades que os façam expiar o seu dia-a-dia. De meras personagens da animação a figuras públicas e políticas passando pelas personalidades históricas que marcam sempre presente, foliões e repórteres são dois lados de um evento que... aqui se complementam e actores, cientes do seu essencial contributo para este filme e sem um guião firme e estabelecido que tem de ser respeitado, deixam-se levar pelo improviso que capta não só a essência do evento como principalmente a espontaneidade de uma população anónima que ali dá tudo por tudo para que a noite seja bem passada.
Pelo meio destes repórteres do improviso destaca-se aquele que assume a personagem mais improvável de todas para o momento... "Valdemar do Amaral" interpretado por um sempre vigoroso Nuno Melo que aqui é o sinónimo de uma elite que não se mistura com o "povo" - que o próprio tanto abomina - mas que pela pressão das audiências e de um canal (TV Cultura) que tudo pretende fazer para ganhar nessa dura batalha de bastidores, "sacrifica" o seu mais preciso trunfo transformando-o na verdadeira matrafona de Carnaval quer ele queira... ou não. Mas, todos eles - actores - primam pela capacidade de agarrar o improviso, libertarem-se dos seus eventuais preconceitos e deixarem-se levar pelas ruas e pela população que descontroladamente os "transforma" num do grupo documentando o "outro lado" da festividade... não só o das paradas e dos desfiles mas também das conversas sem nexo, da agitação popular que invade cada rua e ruela sem nenhum propósito em concreto mas que tanto caracterizam um dos mais antigos e movimentados Carnavais do país.
Delírio em Las Vedras não será certamente a obra maior de Edgar Pêra... mas também não se assume com essas pretensões. Seja como filme ensaio ou mesmo como potencial mockumentary, esta longa-metragem assume apenas o seu objectivo de utilizar o já referido improviso para melhor poder captar a essência de uma população em delírio - literalmente -, dos actores que se deixam (in)voluntariamente levar pela folia de uma cidade e com isso poder eventualmente criar alguns momentos mais ou menos divertidos e celebrar o non-sense com dignidade e humor.
E se tudo isto não bastar, Delírio em Las Vedras é ainda mais uma excelente oportunidade de ver o saudoso Nuno Melo numa das suas últimas interpretações repletas de humor... de repórter elitista que abomina o povo a pivot destronado e transformado na matrafona mais matrafona que o cinema alguma vez viu... É pela comédia... vale (quase) tudo.
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6 / 10
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A Sonolenta (2017)

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A Sonolenta de Marta Monteiro é uma curta-metragem portuguesa de animação presente na secção competitiva da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro.
Ela embala a criança que chora repetidamente. Ela com sono aguenta o ritmo de um embalo que parece não ter fim. Adormece. Sonha com pessoas que caminham sem rumo. Acorda... mas o sono mantêm-se.
A realizadora e Vanessa Ventura escrevem o argumento desta animação adaptando a obra de Anton Tchekov naquele que é um conto perturbante - e perturbador - sobre o desespero e uma aparente tortura inocente que o fruto de uma responsabilidade incutida parece querer perpetuar. Da sonolência e da falta de descanso a um potencial esgotamento e sua consequente alucinação, "Ela" exibe sinais de um desgaste que a poderá levar ao abismo e à tragédia.
Deste desespero sentido às suas consequências nefastas e para as quais raramente se tem uma compreensão até que as mesmas se fazem sentir, A Sonolenta é um conto sobre a ruína, a tragédia e a iminente desgraça que trespassam a mente humana para uma condição próxima do irreal ou até mesmo do surrealismo, entregando o livre arbítrio e o são julgamento nas mãos do acaso, da sorte (ou falta dela) cometendo o impensável que, irracionalmente, se apoderou da sua decisão libertando-a da rotina, dos gestos mecânicos e da previsibilidade do seu próprio destino.
Tão intensa quanto a própria instabilidade emocional pode ser, A Sonolenta é uma forte animação cheia de pequenos indícios sobre os subterfúgios de uma alma atormentada que não descansa e que finalmente tudo faz para poder voltar a sentir e respirar a liberdade que lhe escapa das mãos.
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7 / 10
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New York Film Critics Circle Awards 2017: os vencedores

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Foram hoje anunciados os vencedores anuais do New York Film Critics Circle tendo destacado Lady Bird, de Greta Gerwig como o Melhor Filme do Ano premiando ainda Saoirse Ronan como a Melhor Actriz pelo mesmo filme.
São os vencedores:
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Filme: Lady Bird, de Greta Gerwig
Primeira Obra: Get Out, de Jordan Peele
Documentário: Visages, Villages, de JR e Agnès Varda
Filme de Animação: Coco, de Lee Unkrich e Adrian Molina
Filme Estrangeiro: 120 Battements par Minute, de Robin Campillo (França)
Realizador: Sean Baker, The Florida Project
Actor: Timothée Chalamet, Call Me by Your Name
Actriz: Saoirse Ronan, Lady Bird
Actor Secundário: Willem Dafoe, The Florida Project
Actriz Secundária: Tiffany Haddish, Girls Trip
Argumento: Phantom Thread, Paul Thomas Anderson
Fotografia: Mudbound, Rachel Morrison
Carreira: Molly Haskell
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Jim Nabors

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1930 - 2017
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Notas de Campo (2017)

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Notas de Campo de Catarina Botelho é um documentário português em formato de curta-metragem presente na selecção oficial do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro.
Duas mulheres partilham os seus pensamentos sobre o futuro e objectivos desfeitos durante o período das políticas de austeridade em Portugal. Num claro choque entre o passado, o presente e o futuro impõe-se a questão sobre os efeitos das mesmas sobre toda uma geração.
Dos tempos perdidos em estudos por um futuro melhor, à confirmação de uma família e de um legado que deixará aos filhos questionados pelos tempos de incerteza e insegurança que se fizeram sentir num dos mais instáveis períodos da História contemporânea do país, duas mulheres desabafam sobre as suas vidas.
Equacionam-se os infindáveis momentos perdidos a pensar na chamada "crise". No tempo que não passam com os filhos sempre em busca de mais um trabalho que possa assegurar mais algum rendimento mensal e as novas formas de sobrevivência que se encontram para que esse rendimento extra chegue todos os finais do mês. A vida, tal como a conheceram anteriormente, já não existe. Os paradigmas e as certezas todos eles entraram num rumo de instabilidade. Nada é certo... nem o emprego, nem o futuro da família nem mesmo o instante que se vive e que pode, a qualquer momento, ser alterado. Tudo é, a todo o momento, uma incógnita.
Sentiu-se (sentiram) uma guerra. Uma que opunha - conforme se diz a certa altura - dois lados de interesses... O primeiro que representa a experiência económica e dos seus interesses bem como os de uma Europa distante da sua componente social e, do outro, os interesses do colectivo, da população e de um povo que agora se opõem potencializando uma vertente de constante violência social e política.
Da miséria encoberta àquela que estava diariamente aos olhos de todos nós. Dos que resistiram àqueles que se deixaram levar, Notas de Campo assume-se como um registo na primeira pessoa daqueles que passaram por tempos difíceis - os seus e os de todo um colectivo - que arrasaram, modificaram ideias, alteraram momentos e transformaram tudo... e todos.
Imagens de um país deserto, longe das cidades outrora cheias de vida, percorrem o ecrã e o espectador é levado a um estado de aparente apocalipse... um local pós-colapso que agora está impossível de ser repovoado. Todos os dias se pensa como encontrar dinheiro, diz uma delas e Notas de Campo concentra-se na possibilidade de uma aparente estagnação e incerteza sobre o que poderá ser o tal "amanhã"... Existirá sequer? Como preparar os filhos para a vinda de algo que não se sabe o que é com a certeza de que, no entanto, o seu lado cívico e social foram os únicos a "ganhar" algo com todas estas transformações.
Se a mensagem social de Notas de Campo é franca e espelha, na essência, as questões que todo um povo levanta sobre a sua condição é, no entanto, a sua execução isenta de rostos que humanizem os seus testemunhos, a grande omissão deste documentário que, ainda assim, surge como um dos primeiros (senão o primeiro) retrato pós-crise.
Essencial para a consciencialização - formada e por formar - de um país que quase se privou de o ser, Notas de Campo é um documento essencial dos anos da crise mas, sobretudo, da forma como apresenta testemunhos na primeira pessoa sobre esses dias escuros.
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6 / 10
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Semente Exterminadora (2017)

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Semente Exterminadora de Pedro Neves Marques é uma curta-metragem portuguesa e uma das presentes na selecção oficial em competição da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro.
Depois de um derrame numa plataforma petrolífera ter contaminado uma parte da costa brasileira, Capivara (Luiz Felipe Lucas) que aí trabalhava, é evacuado para o Rio de Janeiro onde as pessoas se mantêm inconscientes sobre o sucedido. Aí conhece Ywy (Zahy Guajajara) que o leva numa viagem até à região do Mato Grosso onde poderá procurar trabalho nas plantações e onde lhe fala sobre a sua relação com as mesmas e como entende o falar das plantas.
Capivara, incapaz de entender essa relação, a infertilidade da terra, das sementes e as modificações genéticas de que foram alvo, assume-se como um ser diferente de Ywy...
Semente Exterminadora é, desde os seus instantes iniciais, uma história sobre os tempos modernos. Tempos esses que vão desde a sobre-população que afecta os recursos naturais do planeta às já referidas alterações genéticas efectuadas sobre as sementes como forma de criar excedente alimentar que possa chegar a todos. No entanto, essas alterações não só vão manipulando a própria fertilidade dos terrenos cada vez mais desgastada pela excessiva plantação como também pelos produtos aí plantados que devido à necessidade de crescimento rápido são, a cada dia que passa, alterados para uma maior efectividade... a menor custo.
Juntando estes elementos de excesso populacional para tão parcos recursos à própria exploração do planeta e das suas matérias-primas, como é o caso aqui da exploração petrolífera, Semente Exterminadora estabelece uma directa relação com os vários e silenciados acidentes ecológicos que comprometem não só a qualidade dos terrenos como também das produções e, em última análise, das populações que futuramente irão inconscientemente alimentar-se daquilo que já foi "violado" pelo poder económico sedente de mais algum ganho... e menos qualidade.
"Capi" como representante dessa população necessitada de sustento - alimentar e financeiro - e "Ywy" como claro rosto de um planeta cada mais mais estéril e esgotado, dão corpo e alguma alma aos dois lados de uma história à qual apenas falta esse rosto "institucional" das corporações privadas de um lado humano que possa (utopicamente) reflectir sobre a sua acção num planeta que demonstra o seu "cansaço". Assim, privados que estão do mesmo, "Capi" e "Ywy" vagueiam pelos territórios que representam um com a necessidade de trabalho e a outra com a consciência que o que tem aguentado até este momento está prestes a ceder - o planeta primeiro... e depois a sociedade - tentando, quase de forma vã, criar um certo raciocínio do perigo e das alterações que primeiro foram tentadas para todos socorrer mas que, pela sua ineficácia, destroem a um ritmo cada vez mais acelerado o pouco que de bom resta a esta casa comum que é a Terra.
Com um argumento alegórico sobre a condição - ou estado de saúde - do planeta, das populações e até mesmo dos recursos que escasseiam e que (já) não são tão naturais quanto aparentam, Pedro Neves Marques exibiu com engenho e inteligência uma história necessária e pertinente que, com o seu ritmo natural enquanto história-relato de um povo (e de um planeta) que parece concentrado na sua extinção e não na sua salvação fazendo de Semente Exterminadora um título alegoria ao próprio estado "das coisas"... se por um lado produz com o intuito de alimentar... por outro é essa mesma produção que lentamente elimina a perpetuação - infertilizando, esterilizando e finalmente exterminando - de uma população que por necessidade consumiu... e por despeito explorou à exaustão um planeta que teima em renovar os seus mecanismos de defesa - antibióticos naturais - contra aquele que é o seu maior "cancro"... o Homem.
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7 / 10
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O Turno da Noite (2017)

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O Turno da Noite de Hugo Pedro é uma curta-metragem portuguesa de ficção presente na competição oficial da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro.
Ela (Filipa Matta) é empregada de quarto num hotel de luxo. Sem que dê conta uma famosa actriz (Fanny Ardant) está no quarto. O mundo das duas colide quando trocam umas quantas palavras. Mas, poderá Ela esperar algo mais daquele encontro?
A ascensão social e o desejo de uma vida de luxo e opulência estão no centro desta nova curta-metragem do realizador de Primária (2013) e A Minha Idade (2014) opondo num mesmo espaço dois mundos distintos e centrados em objectivos diferentes. A primeira destas personagens é uma empregado de quarto de hotel interpretada por Filipa Matta, farta do seu trabalho e pelo que percebemos da sua própria vida, deseja poder viver um pouco do luxo e da opulência que qualquer uma daquelas pessoas a quem limpa o quarto vive. Com o pensamento fora do espaço em que se encontra, ela deixa-se levar pelos seus devaneios e pelas conversas que vai ocasionalmente tendo quer ao telefone quer para consigo própria até que... uma das hóspedes do hotel está no mesmo quarto em que ela se encontra.
A actriz - uma sempre magnífica Fanny Ardant - observa-a e deixa-se levar pelo ar de curiosidade que tenta esconder. A troca de palavras que têm denota não só que a empregada já se expôs demais nos seus desejos como uma certa frieza realista por parte desta actriz que não encontra grande brilho ou encanto na vida que leva. Esta troca de palavras cai num momento de triste realidade quando ambas se revelam... uma ansiosa por uma vida melhor que a tire daquele lugar e a faça esquecer o meio mais humilde de onde vem e a outra desesperada por um abraço - ou mais algum contacto físico - que o dito "mundo real" não lhe permite ter.
A sua imediata separação - ainda que por breves dias - permite então que a empregada assuma o lugar da cliente. Que vista as suas roupas... que experimente o seu quarto... que se banhe com sais e até que disfrute o devaneio sexual e fetiche sado-masoquista que e actriz havia encomendado... para ela própria. Se uma sentiu o abraço "sincero"... a outra sentiu uma vida diferente repleta de novas experiências mas que, ainda assim, não deixa também de ser suficientemente artificial para que dela nada reste.
Os dois mundos separam-se com a noção de que não existe liberdade, tal como aquela que é retirada ao pequeno pardal que a actriz mantém no seu quarto e, ainda que permaneça numa gaiola dourada que a diferencie das demais, não deixa de ser uma prisão que todos - actriz, empregada e pardal, têm de viver. Todos existem nas malhas de uma sociedade que os prendeu a um canto... à fama e ao estrelato... ao trabalho e à percepção de que nada mais existe para além do mesmo... e um outro a uma prisão conferida por uma espécie dominante... com mais força e mais poder que o condenam a uma prisão dourada. No entanto, é esta mesma noção de realidade que a todos une... a noção de uma aparência que tem de ser mantida como se a própria fosse garante de uma vida real... de uma vida especial ou mesmo uma vida à qual todos estivessem destinados. Então, porque não fingir um pouco e esperar - quando se pode - ter algo mais?!
Se Filipa Matta tem a interpretação dominante desta curta-metragem revelando alguém cujos objectivos não foram cumpridos e que é consumida pelo seu desejo desesperante de "algo mais", é Fanny Ardant que consegue roubar todo o foco da câmara graças aos seus breves instantes "em cena". A sedução e a confirmação de uma grande senhora do cinema transparecem nestes breves instantes e o seu discurso (des)moralizador concentram, no fundo, toda a dinâmica que estas duas mulheres desenvolvem entre si e para com o mundo que as rodeia.
O Turno da Noite é assim uma - mais uma - das magníficas obras de Hugo Pedro que cada vez mais se afirma como um dos nomes maiores de um novo cinema português bem como confirma a sua capacidade em revelar e contar histórias que vão para lá da simples comédia - como é o caso - fácil transformando-se naquela que é trágica, mordaz e até mesmo satírica de mundos que se aproximam mais do que aquilo que se distanciam.
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7 / 10
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Ao Telefone com Deus (2017)

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Ao Telefone com Deus de Vera Casaca é uma curta-metragem portuguesa de ficção presente na secção competitiva - e hoje exibida - da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português que decorre em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro.
Bartolomeu (Ivo Canelas) quer casar com Adélia (Sara Matos) e está disposto a oferecer a sua égua Pestana a Romeiro (Pedro Monteiro), seu pai. Mas, quando Pestana desaparece e Bartolomeu encontra Severino (Luís Vicente) que fala com Deus... tudo irá tomar um estranho caminho...
Esta curta-metragem cujo argumento também da autoria da realizadora pretende inserir-se naquele domínio do absurdo e do surreal promete entregar uma história de comédia que provoque alguma boa disposição no espectador mas, no entanto, o absurdo fica descontrolado e todos os comportamentos destas bizarras personagens que parecem encontrar-se num qualquer farwest e não necessariamente ali numa qualquer planície alentejana ficam fora dos carris e sem qualquer controlo. Se a planície é alentejana ou não... pouco importa. Aquilo que prende instantaneamente a atenção do espectador é o total exagero dos comportamentos das personagens a cargo de um conjunto de actores reconhecíveis do grande público que tentam salvar esta história não conseguindo, no entanto, dar qualquer credibilidade àqueles que pretendem representar.
Com um conjunto de instantes dignos de qualquer episódio d'Os Malucos do Riso - e não necessariamente pelos melhores motivos -, Ao Telefone com Deus parece tentar não só ridicularizar o típico camponês que deseja um bom casamento como inclusive, os povos nómadas que fazem da caminhada o seu fado e de uma vida sem rumo o seu destino. Como a trapaça parece implícita nas suas acções, não só se quer manter o dote como enganar o pobre desgraçado que tenta uma vida honesta mas que, pelo infortúnio do seu pobre pensamento, se deixa levar pelo coração e não pela razão "trocando" (literalmente) a sua fiel amiga por alguém que nunca terá por ele qualquer sentimento.
De Ivo Canelas a Luís Vicente ilustrativos de duas grandes gerações de actores de volta ao grande ecrã sem esquecer a sempre graciosa presença de uma Sara Matos que já não precisa provar os seus dotes dramáticos, Ao Telefone com Deus perde-se não só na pouco esperada ridicularização da personagem como principalmente dos actores que lhe tentam dar alguma alma. Porque o humor é difícil, mais ainda do que qualquer drama, o mesmo é esperado com nobreza ou total libertinagem... mas sempre pertinente, "sério" e pouco ridicularizado... Porque fazer rir é retirar da alma para criar empatia com o "outro" e não desdenhá-lo na esperança de fazer "graça".... Ao Telefone com Deus tenta a comédia mas choca com o absurdo não só não conseguindo falar com esse "deus" como menos ainda comunicar com o público.
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3 / 10
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Zé Pedro

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1956 - 2017
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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

António Um Dois Três (2017)

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António Um Dois Três de Leonardo Mouramateus é uma longa-metragem luso-brasileira presente na competição oficial da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro.
António (Mauro Soares) foge de casa depois do pai descobrir que ele abandonou a Universidade. Dali parte para casa da ex-namorada onde conhece Débora (Deborah Viegas). Johnny (Daniel Pizamiglio) tenta encenar a sua primeira peça de teatro e compreende a dimensão da amizade com António. De passagem por Lisboa, Débora assiste a uma peça de teatro e é acordada pelo protagonista... António.
Leonardo Mouramateus escreve o argumento desta longa-metragem contada em três tempos. Distintos entre si, cada um deles apresenta as mesmas personagens em diferentes momentos como que separados por alguma quebra temporal que lhes proporcionou pequenas alterações no seu futuro e, dessa forma, criou três realidades diferenciadas como apenas um elemento em comum... eles próprios.
Na primeira realidade observada, "António" é um jovem que vive uma vida que é tida em relativo segredo na medida em que oculta alguns detalhes ao seu pai. Desistente da Universidade e a passar noites fora de casa, é quando confrontado por "João" (João Fiadeiro) - o pai - sobre a sua situação e que, com medo das consequências, foge definitivamente de casa tentando, no entanto, reatar laços com a sua antiga namorada. "Mariana" (Mariana Dias) já não nutre os mesmos sentimentos que ainda fazem mover "António" mas, no entanto, é ainda aquela amiga que se preocupa e, em sua casa, ele conhece "Débora" desenvolvendo com ela uma química imediata. Vêem um vídeo antigo, falam, têm sexo e ela surge como uma inesperada substituta de "Mariana". Sem dinheiro, sem objectivos e sem qualquer perspectiva sentimental, "António" abraça a única solução que tem... cantar uma canção na rua e viver das poucas moedas que ganha.
Numa segunda realidade, o espectador acompanha "Johnny" (Pizamiglio) e a sua tentativa de levar à cena uma sua peça. Começamos a escutar a mesma música que "António" antes cantara agora como uma parte encenada desta história teatral que se tenta. A história é semelhante à realidade de "António" agora numa outra realidade. Uma nova perspectiva de um momento que, nesta realidade parelela, nunca acontecera. Aqui não é a realidade de "António" em família mas sim a sua dinâmica com "Johnny"... o amigo e patrão que se vê num momento mais frágil. Com ele procura as chaves de casa perdidas numa qualquer mata onde tentou engatar um homem e desligar-se da relação falhada. As mútuas frustrações são então colocadas à prova quando os males de amor de um parecem - ou querem parecer - mais atribuladas do que as do outro. No fundo, ambos sofrem de um mesmo mal... e discutem... Sofrem por um amor que aparenta não ser correspondido e que, lá perdido no tempo, insiste em estar vivo. No entanto, nada mais forte do que amizade e do que a liberdade para poder celebrá-la... com o respeito que têm em comum.
Finalmente, o terceiro momento de António Um Dois Três prende-se com a história da relação entre "Débora" e "António". Conhecem-se por um acaso no teatro onde este já não é assistente de iluminação mas sim um dos actores protagonistas. Ela dorme. Ele acorda-a. São apresentados. Vão a uma festa onde é gravado o vídeo a que, noutra realidade, assistem e percebe - o espectador - que é a declaração de amor de alguém a "Tereza" (Sandra Hung), a vizinha do prédio de "Mariana". Mais um amor perdido... quando outro parece querer nascer. "António" e "Débora" desencontram-se na cidade e apenas o destino os poderá - eventualmente - unir. A noite e Lisboa como um pano de fundo numa realidade amorosa e sentimental que insiste nos desencontros. É no seu reencontro que se descobrem destinos, momentos, tristezas, tragédias e eventuais alegrias. Poderá o amor realmente existir ou estará ele, independentemente da realidade que nos seja apresentar, condenado a ser fruto de um único momento e condenado para todos os demais?
António Um Dois Três é assim o resultado de um argumento original que coloca experiências e momentos diários centrados no amor, analisados sobre uma perspectiva de mundos paralelos onde a alteração de pequenos elementos tende a afastar (ou aproximar) pessoas que noutras circunstâncias não teriam uma segunda oportunidade. Mas, na eventualidade desta existir, poderá alguma das perdas do passado revelar-se e confirmar-se como "para a vida"? Existirá para alguém o tal amor perfeito capaz de perdurar face à passagem do tempo, ao desgaste, à traição ou até mesmo ao amadurecimento emocional daqueles que compõem um casal? Conseguirá alguma destas realidade ser realmente... real?! Poderão eles mais não ser do que momentos imaginados e desejados que, na realidade, nunca irão suceder?!
No centro de toda esta trama encontramos Mauro Soares, um jovem actor que consegue dinamizar a longa-metragem nos seus três segmentos e transformar cada um deles num potencial filme independente não prejudicando a história ou a dinâmica de cada um deles. Do jovem imaturo do primeiro segmento ao jovem adulto capaz de ser sentimental e profissionalmente resolvido e até bem sucedido, Mauro Soares dá uma cor especial à já inteligente história de Mouramateus e afirmar-se como um jovem talento de quem - espero - poder ainda ver brilhar mais vezes nos ecrãs de cinema.
Quanto a Mouramateus enquanto contador de histórias, as provas já estavam mais do que confirmadas para quem já conhece o seu extenso curriculum de curtas-metragens mas, no entanto, esta sua primeira longa confirma-o agora capaz de abraçar desafios maiores e ainda assim garantir a originalidade e a coerência dos seus contos aqui primeiro apresentando uma história que nos parece conduzir a uma potencial desgraça do seu protagonista mas que depois se revela apenas como uma das suas potenciais vidas e destinos numa Lisboa que é também vivida nos seus telhados, no seu horizonte e como pano de fundo. A triplicar como bem manda esta história de António Um Dois Três, que nunca se encerra, que apresenta potenciais momentos e realidades capazes de se afirmar como "a tal", mas nunca esquecendo que todas elas são efémeras... meros momentos vividos que podem a qualquer momento ser transformados em realidades paralelas (ou até mesmo extintos) bastando, para tal, pequenos momentos ou passos dados demonstrarem que toda uma nova possibilidade existe... já ao virar da esquina.
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Câmara Nova (2017)

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Câmara Nova de André Marques é uma curta-metragem portuguesa de ficção presente na secção competitiva da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro.
Rafa (André Marques) prepara a câmara para gravar quando Rui (Eduardo Breda) e Ana (Tânia Figueiras Ribeiro) chegam. Mas ao entrar no carro, Rafa depara-se com uma surpresa...
O que acontece quando um momento fica registado para sempre? O que será daquele que o regista? E, finalmente, o que acontece a todos aqueles que lhe sobrevivem? André Marques deixa no ar estas três questões depois do espectador assistir à sua mais recente curta-metragem que, num único plano sequência, filma um instante na vida destas três personagens às quais dá vida - uma delas literalmente - concentrando algum drama, uma perda e uma incerteza num breve período de nove minutos.
O momento inicial de Câmara Nova poderia representar um qualquer momento de terror ou até mesmo mistério sobrenatural pelo cenário escolhido para dar início a esta história. Aliás, a primeira interacção entre os actores até o fazia adivinhar não fosse a imediata resposta e interacção que se faz sentir. No entanto, aquilo que Câmara Nova apresenta é uma breve história de perda sem qualquer redenção que afasta definitivamente um grupo de amigos e um potencial par romântico que para lá da despedida emotiva... nunca o chega a ser.
De uma discussão à tentativa de reconciliação que avança e retrocede pela compreensão de que o futuro termina ali, Câmara Nova concentra-se mais no observador participante - inesperado realizador e câmara - e na sua acção do que propriamente no ex-par (eventualmente) romântico que ali frente ao registo para a posteridade se deixa levar pela discussão, pela separação e pelo acto de paixão que não se voltará a repetir. Tendo como único e possível destino a incerteza de um caminho não percorrido fica a imagem - o seu registo - como a prova final de que ambos existiram... Mas, afinal, qual o lugar do realizador nesta história da qual é - e não é - directo interveniente?
Com a potencial pergunta que permanece no ar e uma vontade do espectador em conhecer qual o destino daquele caminho final - afinal, que sítio tão invulgar para um grupo de amigos se encontrar! - Câmara Nova é portanto um ensaio sobre o papel do realizador na obra considerando que ele é (aqui) uma sua personagem directamente envolvida na trama que regista.
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7 / 10
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Laranja Amarelo (2017)

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Laranja Amarelo de Pedro Augusto Almeida é uma curta-metragem portuguesa em competição na vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro.
Tiago (Jorge Dias) vagueia pelas ruas ao encontro dos seus amigos numa rotina diária. Mas Tiago procura também Sofia (Daniela Love), a ex-namorada com quem quer conversar. Poderá este ser o seu último encontro?
Com argumento do próprio realizador, Laranja Amarelo segue uma tendência já conhecida e vista na obra do realizador - como por exemplo em Por Aqui Nada de Novo (2014) ou Prefiro Não Dizer (2015) - que explora as pequenas histórias sobre pessoas comuns num momento de impasse. Aqui, o protagonista "Tiago", interpretado por Jorge Dias, procura um momento para se reencontrar com "Sofia" (Love), a namorada que o deixara depois de uma relação que, compreendemos, ter sido de longa data. "Jorge" procura um momento no qual, desconhecemos, poderá dizer-lhe mais algumas palavras que talvez o possam redimir de algo e fazer cumprir a relação que teve até então. Alheado dos amigos com quem passa todo o seu tempo é apenas o reencontro com "Sofia" que o fará ter mais alguma esperança ou, pelo menos, fazer cumprir uma última vontade.
Sem grandes subterfúgios ou momentos que fiquem por contar, Laranja Amarelo centra a sua dinâmica em "Jorge". Do jovem adulto que vagueia pelas ruas com aparente indiferença em busca de uma última oportunidade àquele que, confirmando a mesma, se vê incapaz de revelar tudo o que sente. Aquilo que permanece para o espectador reside apenas na sua vincada certeza de ser "Sofia" e, com esta, a convicção de que algo de grave se passou entre ambos que a levou a afastá-lo. Em ambos reside não só a certeza de que ainda se amam como também a impossibilidade de confirmarem uma contínua relação que (compreendem?) não ser positiva para nenhum. Os ciúmes? A vontade de construir algo (ainda) mais sério? Dar o passo seguinte?... Todas estas questões permanecem sem uma resposta plausível confirmando apenas que existem amores (e momentos) que não podem ser cumpridos... Talvez nunca, talvez apenas não naquele exacto momento. Eles existem, assim como também existe todo um demais mundo que primeiro precisa ser vivido e conhecido e apenas depois poderão existir bases para dar continuidade àquilo que ficou para trás... ou permitir que o mesmo viva livremente.
Ainda que toda uma história reside em tão breves dez minutos, Laranja Amarelo é aquela história que deixa o espectador à espera de um pouco mais. Não pela necessidade de ver algumas das perguntas que formula respondidas mas sim pela vontade de saber e conhecer o "e depois..." destas personagens... Se o seu mundo terminou - para nós - neste instante... existe toda uma vida que sabemos poder existir para estas personagens... e se os seus caminhos aqui se distanciam permanece a dúvida de se alguma vez poderão os mesmos voltar a ser cruzados.
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Où en Êtes-Vous, João Pedro Rodrigues? (2017)

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Où en Êtes-Vous, João Pedro Rodrigues? de João Pedro Rodrigues é um documentário experimental português em competição na vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro, e é da autoria do realizador de O Fantasma (2000), Morrer como um Homem (2009) e O Ornitólogo (2016) que segue momentos da vida do realizador editados pelo próprio.
Desde a curta-metragem Parabéns (1997) que o revelou à crítica internacional sem esquecer a primeira longa-metragem O Fantasma (2000) que o levou à competição oficial do Festival Internacional de Cinema de Veneza, analisa mais do que o homem a sua obra pelo olhar do mesmo. Os seus primeiros pensamentos chegam através da observação - pelo espectador - primeiro do seu corpo e depois do seu reflexo como que uma íntima reflexão sobre a obra como uma parte do seu ser. Em constante mutação - tal como os milhares de borboletas que depois observamos -, a obra do realizador vista através de pequenos detalhes. O cartaz d'O Ornitólogo - o seu mais recente êxito internacional -, os pequenos brinquedos de plástico d'A Última Vez que Vi Macau (2012) ou Mahjong (2013) sem esquecer o pequeno gato de Parabéns (1997) protagonizado por João Rui Guerra da Mata ou os primeiros ensaios de Morrer como um Homem (2009), Où en Êtes-Vous, João Pedro Rodrigues? é pleno em simbologia ou elementos da obra do realizador perceptíveis aos mais atentos, como que representativos não só da sua obra como que a funcionar como uma extensão do próprio para e pela memória perpetuado(s). Obra essa sempre marcado por uma certa mutação, transformação, pelo corpo e pela sensualidade do mesmo... Assim o tivemos em Parabéns e O Fantasma assumidamente marcadas pelo corpo e pela sensualidade/sexualidade dos mesmos, em Morrer como um Homem pela sua componente de mutação visível na vontade da sua personagem principal ou em O Ornitólogo onde ambos - corpo e transformação - se centram numa única personagem cuja viagem física e espiritual marcam essas referidas etapas.
Como que uma viagem pela sua inspiração, pelas suas musas, pelos seus elementos e claro, pela sua obra, esta curta-metragem é como um testemunho do seu legado e um desejo pelo ser inatingível perpetuado na memória do cinema no qual deixa inegavelmente a sua marca e o seu cunho.
Diferente e talvez até distante da obra dita "tradicional" de João Pedro Rodrigues, a questão lançada com este Où en Êtes-Vous (...) não poderia ser mais pertinente... nela - na sua obra - ele está (omni)presente... por todo o lado... vincado e marcado para que o espectador quando uma delas observe sinta que a mesma tem o seu cunho visível impossibilitando-o de a comparar com qualquer outra.
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terça-feira, 28 de novembro de 2017

Histórias de Alice (2012)


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Histórias de Alice de Oswaldo Caldeira é uma longa-metragem luso-brasileira presente na competição oficial da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português, a decorrer até ao próximo dia 3 de Dezembro, em Coimbra.
Lucas (Leonardo Medeiros) é um cineasta brasileiro que viaja para Portugal e descobrir as raízes da sua mãe Alice (Ana Moreira/Lídia Franco) no norte do país. De Olavo (Filipe Duarte), o seu pai recorda as tardes de passeios e histórias e do avô Joaquim (Vítor Norte) conhece o passado como rico industrial. Aquilo que Lucas desconhece é toda a história de amor e tragédia que uniu os seus pais e os fez sair do país que pouco conhece.
Numa história cujo argumento - também da autoria do realizador - cruza várias décadas e a permanência de uma família nos dois lados do Atlântico, Histórias de Alice evoca momentos, paixões, tragédias e ainda a redenção de um dos seus intervenientes que, sem conhecer o passado, tenta fazer com ele uma qualquer paz que tarda em conhecer. Desde cedo é dado a conhecer ao espectador que o factor predominante esta história está centrado na perda. A perda de uma amizade, de um amor, de uma família, da tranquilidade financeira, política e até mesmo de todo um continente que se prepara para o maior e mais desastroso conflito da sua História. A perda que não sendo celebrada é tida como um acompanhamento para os desenvolvimentos dos momentos de cada um e, mais especificamente, de um "Lucas" desconhecer do seu passado e de uma "Alice" que tem toda uma nova vida por contar... ainda que já não se encontre presente para fazê-lo.
No entanto, várias são as falhas que cedo se anunciam nesta história... não necessariamente os factos históricos mas sim aqueles que cronologicamente colocam a família num dos dois lados do Atlântico. Se inicialmente toda a história de "Alice" e "Olavo" é contada nesse norte português de onde ambos eram originários, cedo se confundem as datas e "Lucas" - que aparenta estar nos seus quarentas é dado como tendo nascido durante o período da Segunda Guerra Mundial... em Portugal (que pela data da obra já o colocariam como alguém nos seus setenta's - e se as suas memórias poderiam ser facilmente esquecidas - e como tal compreendido pelo público - é certo que o mesmo parece ter ainda vários conhecimentos do espaço que, no entanto, apenas se devem a escassas fotografias que nunca chegam a ser vistas.
Mas é quando esta (e outras) falhas cronológicas e de argumento começam a ver a luz do dia, que outros elementos atentam contra a presente fragilidade de uma história que revela as suas várias pontas soltas. Da família que encontra redenção com o nascimento de um herdeiro ao conflito de nunca se esclarecesse no tempo (cronológico) é, no entanto, a aparente proliferação de momentos e personagens que se amontoam numa história sem eira nem beira. Compreende-se a vontade de conhecer - ou voltar a conhecer - o tal Portugal perdido e as origens com as quais poucos elos se mantém mas, no entanto, não será também de questionar os intuitos de personagens e vultos que se amontoam numa realidade aparentemente distorcida? Ou seja... "és" estrangeiro num país do qual pouco recordas... vais dar atenção a todas as pessoas que dizem saber um pouco do teu passado quando antes já disseram que não?! Quais os seus intuitos para lá de algum dinheiro? Para lá de algum aproveitamento pela miséria dos outros? A resposta a estas dúvidas chega com as intenções disfarçadas de "Miguel" (Ivo Canelas), o também luso-brasileiro com ideias de projectos de sucesso na televisão e a sua mescla de ficção versus realidade... ou ficção como complemento dessa mesma realidade...
Numa aventura por um Portugal desconhecido e onde nem os benefícios da beleza da cidade do Porto são aproveitados, Histórias de Alice tornam-se portanto nas aventuras de "Lucas" - um homem desesperado por encontrar contos - mesmo que inventados - sobre a sua família, sobre as suas origens e sobre a sua mãe e que, mesmo dotadas de pouca realidade, possam preencher o vazio que é, no fundo, toda a sua vida. Se a certo momento o espectador entende que este homem quer (re)descobrir o seu passado contribuindo dessa forma para a sua história pessoal, aos poucos compreende-se que aquilo que ele quer não é a realidade mas uma visão romantizada da mesma tal como aquela que diz padecer a sua mãe... afinal, todos os espaços são bonitos, poéticos e dotados de uma mística difícil de compreender... a não ser pelo próprio que sabe (mesmo que em segredo) que nada daquilo que vive é real.
Desta ilusória tentativa de escapar a uma realidade à necessidade de ser a realidade de alguém, "Lucas" apenas se revolta com a aparente usurpação do seu momento por um "Miguel" sedento da sua própria fama, para quem tudo é um palco ou um ecrã de televisão e para os quais está disposto a tudo sacrificar... e ter algum tempo de antena. Das amizades fictícias aos romances inexistentes, "Lucas" é, no final, tão solitário agora como quando chegara a Portugal permitindo, desde então, que todos tenham construído uma história - aquela que poderia ser sua - para ganhar alguns trocos... e ele para ganhar um passado, ainda que não o seu.
Com um fortíssimo elenco entre os quais se destacam Filipe Duarte, Ana Moreira, Ivo Canelas, Vítor Norte, Teresa Madruga, Orlando Costa, Leonardo Medeiros, Marcantónio Del Carlo, Catarina Avelar e ainda Sinde Filipe, Histórias de Alice perde, perde-os (aos actores) e perde-se, pela vontade de tudo contar em noventa minutos esquecendo uma certa veracidade temporal - erro crasso no relato desta história - e o tal romantismo que prometera nos instantes iniciais... aquele do regresso a um país onde nada se tem mas que tudo nos diz e principalmente aquele sentido pela sua mãe que, rapidamente, se transforma num elemento quanto baste excedente de uma história que agora parece nada querer contar deixando apenas para a componente técnica como o guarda-roupa (Susana Abreu e Ticiana Passos) e até mesmo a caracterização (Emmanuelle Fèvre) os elementos mais coerentes desta longa-metragem - bem como pela recuperação da casa d'Os Andrades para um dos momentos deste filme - que promete pelo potencial do argumento e falha na sua concretização ao passar do romantismo e do amor para uma história que afinal o é (de amor) mas onde a fama ou o seu potencial se sobrepõem ao mesmo.
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3 / 10
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Souvenirs (2016)

Souvenirs de Paulo Martinho é um documentário experimental em formato de curta-metragem presente na selecção oficial do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro que apresenta pequenos segmentos de histórias, contadas na primeira pessoa, por indivíduos marcados por cicatrizes deixadas por acidentes ou intervenções cirúrgicas.
Em breves minutos estes pequenos segmentos são contados como pequenos trechos da memória dos seus principais intervenientes mas que, sem qualquer contextualização ou uma justificação para tal relembrança, tão depressa são expostos como novamente esquecidos - pela falta de desenvolvimento - pelo espectador que parece ter acabado de assistir a um qualquer tipo de publicidade institucional que... não compreende.
Potencialmente interesse se contextualizado ou inserido num documentário que perdesse - de facto - tempo a desenvolver a temática de, por exemplo, a mutilação - fosse ela voluntária ou não -, mas que aqui se perde pelo dois ou três minutos que, na prática, exploram o "nada".
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2 / 10
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Surpresa (2017)

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Surpresa de Paulo Patrício é uma curta-metragem portuguesa de animação presente na selecção competitiva da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro.
Joana e Alice, mãe e filha, conversam. Alice foi operada e ficou sem o rim. Joana questiona-a sobre os dias passados no hospital enquanto o espectador observa um conjunto de pueris animações que retratam a uma imaginação e um estado de espírito.
Num estilo propositadamente inocente, Surpresa debate a doença, a recuperação, a vida cheia de sonhos e os potenciais projectos - se assim os poderemos chamar - de uma criança que teve num qualquer hospital a sua segunda casa. Sempre com o cuidado de apresentar a dor e o sofrimento como uma etapa e não como uma fixação desta história, Paulo Patrício consegue retirar o melhor de uma conversa - real - e transportá-la para o grande ecrã de forma a que esta consiga e possa chegar a todo um público (mais ou menos adulto) centrando o seu ênfase na compreensão de uma criança sobre o seu passado mas na consciência de que o mesmo já se encontra distante e que é o momento presente com as naturais brincadeiras e paixões de tão jovem idade que interessam e nos quais se pode e deve concentrar.
Num estilo de animação que muito se aproxima e cruza o sonho (ou o imaginado), Surpresa deixa para as palavras soltas (mas não perdidas) a transmissão da mensagem - sendo esta a compreensão de uma mãe - e as gravuras o entendimento de uma filha sobre um mesmo assunto.
Eficaz pela forma como expõe dois momentos distintos, Surpresa é uma das fortes animações desta edição dos Caminhos e um sério - desde já - candidato ao seu respectivo prémio.
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7 / 10
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National Board of Review Awards 2017: os vencedores

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Foram há instantes revelados os vencedores dos prémios anuais entregues pelo National Board of Review que destacaram The Post, de Steven Spielberg como o Melhor Filme do Ano tendo ainda recebido os troféus de Melhor Actor e Melhor Actriz.
São os vencedores:
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Filme: The Post, de Steven Spielberg
Documentário: Jane, de Brett Morgen
Filme de Animação: Coco, de Lee Unkrich e Adrian Molina
Filme Estrangeiro: Foxtrot, de Samuel Maoz (Israel)
Realizador: Greta Gerwig, Lady Bird
Realizador Revelação: Jordan Peele, Get Out
Actor: Tom Hanks, The Post
Actriz: Meryl Streep, The Post
Actor Secundário: Willem Dafoe, The Florida Project
Actriz Secundária: Laurie Metcalf, Lady Bird
Intérprete Revelação: Timothée Chalamet, Call Me by Your Name
Elenco: Get Out
Argumento Original: Paul Thomas Anderson, Phantom Thread
Argumento Adaptado: Scott Neustadter e Michael H Weber, The Disaster Artist
Spotlight Award: Patty Jenkins e Gal Gadot, Wonder Woman
NBR Freedom of Expression Award: First They Killed My Father, de Angelina Jolie e Let It Fall: Los Angeles 1982-1992, de John Ridley
Top do Ano:
  • Baby Driver, de Edgar Wright
  • Call Me by Your Name, de Luca Guadagnino
  • The Disaster Artist, de James Franco
  • Downsizing, de Alexander Payne
  • Dunkirk, de Christopher Nolan
  • The Florida Project, de Sean Baker
  • Get Out, de Jordan Peele
  • Lady Bird, de Greta Gerwig
  • Logan, de James Mangold
  • Phantom Thread, de Paul Thomas Anderson
Top 5 Filmes Estrangeiros:
  • Estiu 1993, de Carla Simín (Espanha)
  • Frantz, de François Ozon (França)
  • Nelyubov, de Andrey Zvyagintsev (Rússia)
  • The Square, de Ruben Östlund (Suécia)
  • Una Mujer Fantástica, de Sebastián Lelio (Chile)
Top 5 Documentários:
  • Abacus: Small Enough to Jail, de Steve James
  • Brimstone and Glory, de Viktor Jakovleski
  • Eric Clapton: Life in 12 Bars, de Lili Fini Zanuck
  • Hell on Earth: The Fall of Syria and the Rise of ISIS, de Sebastian Junger e Nick Quested
  • Visages, Villages, de JR e Agnès Varda
Top 10 Filmes Independentes:
  • Beatriz at Dinner, de Miguel Arteta
  • Brigsby Bear, de Dave McCary
  • A Ghost Story, de David Lowery
  • Lady Macbeth, de William Oldroyd
  • Logan Lucky, de Steven Soderbergh
  • Loving Vincent, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman
  • Menashe, de Joshua Z Weinstein
  • Norman: The Moderate Rise and Tragic Fall of a New York Fixer, de Joseph Cedar
  • Patti Cake$, de Geremy Jasper
  • Wind River, de Taylor Sheridan
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Das Gavetas Nascem Sons (2017)

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Das Gavetas Nascem Sons de Vítor Hugo é uma curta-metragem portuguesa de animação presente na selecção oficial dos Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra até ao dia 3 de Dezembro.
Um amontoado de gavetas e armários ganha vida. Neles, e através deles, todo um mundo de memórias e de objectos viveram e cumpriram as suas funções. Todos, em conjunto, tocaram uma melodia.
Num registo sobre a vida dos objectos inanimados que cruzaram um sem fim de gavetas e armários que denotam, já de si, as suas próprias marcas da passagem do tempo, Das Gavetas Nascem Sons é assim o registo dos mesmos e dos sons - como sinal da transposição de uma vida - que emitiam como se de uma comunicação desconhecida ao ouvido humano se tratasse. Com uma aparente componente de terror que transforma o interior daquelas gavetas num suposto labirinto de onde alguns objectos não conseguem sair, esta curta-metragem é como que a transformação desse elemento sem vida numa aparente aventura que tem de ultrapassar conferindo assim a todos uma semi-alma à qual todos se tentam agarrar.
Dotada de uma grande imaginação e com uma fantástica direcção de fotografia que transforma aparentes objectos inanimados em surpreendentes corredores escondidos da memória, Das Gavetas Nascem Sons é uma animação diferente, quase alternativa, que por momentos aterroriza e, quase sempre, revela todo uma nova ambiência do género que foge ao tradicional filme feito para crianças.
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6 / 10
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Gotham Independent Film Awards 2017: os vencedores

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Terminou há instantes a cerimónia dos Gotham Independent Film Awards que premiaram Call Me by Your Name, de Luca Guadagnino como o grande vencedor do ano.
São os vencedores:
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Filme: Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino
Prémio do Público: Get Out, de Jordan Peele
Documentário: Strong Island, de Yance Ford
Série Revelação - formato longo: Atlanta (FX)
Série Revelação - formato curto: The Strange Eyes of Dr. Myes (YouTube)
Actor: James Franco, The Disaster Artist
Actriz: Saoirse Ronan, Lady Bird
Actor Revelação: Timothée Chalamet, Call Me By Your Name
Prémio Especial do Júri para o Elenco: Mudbound, Carey Mulligan, Garrett Hedlund, Jason Clarke, Jason Mitchell, Mary J. Blige, Rob Morgan e Jonathan Banks
Argumento: Get Out, Jordan Peele
Prémio Bingham Ray - Realizador Revelação: Jordan Peele, Get Out
Tribute Award: Jason Blum, Sofia Coppola, Dustin Hoffman, Nicole Kidman e Ed Lachman
Gotham Humanitarian Award: Al Gore
Made in NY Honoree: Michael K. Williams
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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Farpões, Baldios (2017)

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Farpões, Baldios de Marta Mateus é uma curta-metragem portuguesa de ficção e um dos filmes curtos presentes na secção competitiva da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português a decorrer em Coimbra.
Uma plantação. As colheitas. Um rebanho no campo. Num interior esquecido, um conjunto de crianças vagueia pelos campos isentos de qualquer ordem ou regra. Passeiam pelas ruínas de estruturas de outros tempos. Serão eles a descendência ou o reflexo de um passado por resolver?!
O argumento de Marta Mateus lança o espectador numa incerteza constante sobre o momento em que a acção decorre. Estará ele sob o vislumbre de um presente abandonado? De um futuro perdido? Ou de um passado vivido e entretanto perdido? Na melhor das conjunturas, aquilo que Farpões, Baldios apresenta é uma história vista de um futuro sobre o passado (e suas consequências) naqueles que por ele o atravessaram. Com claras referências a um Portugal ditatorial onde as gerações foram perdidas num trabalho manual que a liberdade fez desaparecer - o pastoreio, as colheitas (...) -, os mais novos fogem na presença de uma geração mais velha como um símbolo do passado (a Ditadura) que temem e com o qual não se querem associar ou deixar levar pelos seus sinistros caminhos.
Os campos de cultivo são como que um cemitério a céu aberto onde todos se perderam alguma vez e as marcas do tempo estão espelhadas no corpo daqueles por quem o mesmo já passou permitindo-os apenas observar tudo ao seu redor como que membros presentes num purgatório onde esperam... e esperam...
A memória do tempo passado não se perde. Ela é, aliás, uma constante presença da história de cada um, marcando-os como sobreviventes de um tempo passado que não ousam verbalizar mas temem tempos depois como as crianças que outrora foram. A memória também dessa miséria vivida e agora testemunhada pelos mais velhos que, perdidos no espaço, são o único registo físico de um local - também ele perdido - que a cidade lá longe tende a ignorar. É apenas um final em que os já idos tentam abrir os olhos dos vivos para que também estes testemunhem e observem que o passado já distante é ainda uma realidade sentida e experimentada.
Num registo oscilante entre o místico e o documento histórico, Farpões, Baldios utiliza esse dilema passado versus presente para ilustrar todo um período que embora documentado e estudado é ainda vivido num silêncio constrangedor. Afinal, ainda que o período ditatorial seja e esteja estudado mesmo no cinema português, a realidade é que este tem sido feito muito pouco sobre as vivências das pequenas comunidades do interior onde ainda hoje, quatro décadas depois, é o silêncio que determina as realidades passadas dos mesmos.
Numa mescla entre a realidade e a ficção, entre o documento histórico e a imaginação de uma realidade paralela mas pouco fantasiosa, Farpões, Baldios desperta a curiosidade do espectador pela abordagem que dá ao tema da desertificação, da ditadura e até mesmo de uma suposta liberdade que parece não ter sido vivida por todos mas, ao mesmo tempo, deixa um certo amargo pela diminuta exploração da temática que permitiria, à realizadora, ao espectador e ao público obter um interessante e enigmático conto de fantasia repleto de toda uma realidade nacional ainda centrada no documentário e não na obra de ficção como esta curta-metragem tenta - e consegue - filmar.
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7 / 10
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Nasci com a Trovoada: Autobiografia Póstuma de um Cineasta (2017)

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Nasci com a Trovoada: Autobiografia Póstuma de um Cineasta de Leonor Areal é um documentário em formato de longa-metragem português presente na secção competitiva da vigésima-terceira edição do Caminhos do Cinema Português, a decorrer em Coimbra até ao próximo dia 3 de Dezembro e que, através de textos auto-biográficos e cartas pessoais é dado a conhecer ao espectador parte da vida e da obra do realizador Manuel Guimarães.
Por entre as suas preocupações sociais e uma intensa paixão pelo cinema que o acompanhou desde jovem idade, o espectador conhece a obra do realizador neo-realista da sua primeira à última obra enquanto, ao mesmo tempo, conhece compreende como a obra do mesmo foi alvo da atenta e apertada mão da censura e da PIDE durante a ditadura de Salazar.
Uma das primeiras frases proferidas em Nasci com a Trovoada: Autobiografia Póstuma de um Cineasta remete o espectador para um pensamento que acompanhou o realizador na maior parte da sua vida... "tenho 55 anos e sinto-me nervoso tal como quando era adolescente" fruto de uma sociedade que, dizia, tenta insistentemente enganá-lo (nos). As inseguranças e incertezas sobre o seu percurso, sobre a sua obra e o seu legado agudizadas pelo tempo social e político que se fazia sentir no Portugal de então, afectavam-no ao ponto de constantemente considerar a sua obra como algo menor... algo pouco explorado... pouco visto... pouco rentabilizado e suficientemente adulterado para, no final, pouco a considerar sua.
Da sua juventude no Porto enquanto estudante de Belas Artes às viagens a uma Lisboa que respirava (algum) cinema e onde tudo acontecia, Manuel Guimarães revela nos seus textos, cuidadosamente organizados de forma cronológica pela realizadora para a construção deste documentário, a tardia entrada para a Sétima Arte que tanto o fazia mover. Dos primeiros mestres cinematográficos que fizeram despertar a sua paixão de Eisenstein a Murnau, Guimarães recorda o filme O Garoto, de Charlie Chaplin como aquele que determinou todo o seu futuro enquanto cinéfilo e artista.
A sua paixão e vida com Clarice, que surgiu como sua musa ainda nos tempos de Belas Artes e que se tornou na companheira para a vida, os seus textos revelam ainda o trabalho que fez para Reinaldo Ferreira - o famoso Repórter X - para ilustrar a sua revista, no Palácio de Cristal no início da década de '30 por ocasião da Exposição Colonial aí realizada, o realizador assumia-se como um "populista e um revoluncionário" em toda a sua obra.
A sua primeira grande experiência no cinema dá-se com a elaboração de desenhos dos miúdos de Aniki-Bobó, de Manoel de Oliveira aplicando pela primeira vez os seus conhecimentos na obra Vidas sem Rumo (1956) - iniciada anos antes - sendo, pelo caminho, assistente de Arthur Duarte, Alberto Miranda ou Manoel de Oliveira. Foi a única que lhe deu algum lucro apesar de ter sido altamente escrutinada pela PIDE e, como tal, censurada para não apresentar tudo o que deveria.
Foi com Saltimbancos (1951) que deu os primeiros passos. A mesma obra que sofreu inúmeros problemas de produção e que parecia condená-lo a uma constante incerteza sobre o seu futuro. Afectada pelo mau tempo e pela falta de dinheiro, Saltimbancos foi, segundo o próprio uma obra "independente e amadora". É, no entanto, em 1952 que dirige Nazaré, obra sobre a comunidade piscatória da vila e no qual assume a sua vertente realista sendo, no entanto, uma obra "cara e difícil" que considera como o seu melhor filme e onde teve mais liberdade... independentemente dos tempos vividos. No entanto, Guimarães revela a sua solidão... a sua vontade de querer falar de coisas reais e que importassem... daquilo que afectava os portugueses sem, no entanto, poder fazê-lo limitando-se aos desejos de obras populares e de entretenimento... aquelas aceiteis e que lhe poderiam conferir dinheiro... aquelas em que não se sentia ele próprio e que, como tal, delas recusava fazer parte.
Dos insucessos da sua obra ao repúdio de colegas que não queriam trabalhar com o realizador por considerá-lo "maldito" ou "amaldiçoado" ao momento em que chega a direcção de A Costureirinha da Sé (1959), o seu maior desastre artístico e financeiro que o obrigaram a retomar a direcção de vídeos turísticos e comerciais... também eles fracassos comerciais que o impediam de entrar na televisão nacional.
D'O Crime da Aldeia Velha (1964) - hoje um clássico reconhecido - e suas respectivas dúvidas em envolver-se no projecto, Manuel Guimarães revela o seu esgotamento no início da produção do mesmo apesar das melhores condições técnicas e de trabalho que o introduziram no maior complexo fílmico de exteriores do país naquela que seria a sua interpretação sobre a tragédia do amor em busca da razão. Daqui a'O Trigo e o Joio (1965) obra quase imposta e que considerou um erro no seu percurso cinematográfico e que antes de concluir abandonou rumo a Itália onde fora usufruir de uma bolsa de estudo atribuída pela Fundação Calouste Gulbenkian... Aí pensa na vida e como considera não a ter aproveitado. Pensa no filho que pensa ter muitas ilusões e em vias de se preparar para a desilusão - a sua... a dele? - apesar do talento que lhe reconhece. Em Itália pensa no seu próximo projecto, uma história sobre a liberdade de uma mulher que imagina numa varanda que observa todos os dias. Liberdade essa que fica ensombrada com as notícias da morte de Humberto Delgado e com os impedimentos do Estado Português em ter o seu filme presente em Veneza.
A correspondência trocada com Fernando Namora é também analisada e uma sua futura colaboração questionada enquanto desabafa sobre si próprio, sobre a sua revolta interior fazendo denotar um certo desdém pela sua própria pessoa assumindo-se como triste e cansado. Revela a perda, a doença, a depressão e a proximidade do seu fim sempre com muita revolta. Fala na eventualidade de ver um neto, ou neta, e pinta para descontrair a mente como que um antídoto para os seus pensamentos. Pensa ainda num futuro que diz já não ir ter.
Com Lotação Esgotada (1972), sua obra "menor" e mais sarcástica, Guimarães assume-a como o resultado de todo o seu fracasso artístico até ao 25 de Abril, a liberdade finalmente conquistada com as gravações dos primeiros instantes no Largo do Carmo e com Virgílio Ferreira e o seu Cântico Final (1976) sente ter finalmente toda a liberdade de trabalho que sempre ambicionara ter e, apesar de não a considerar como a obra da sua vida... "muito faltava para tal", foi a obra protagonizada por Ruy de Carvalho, Curado Ribeiro, Ana Zanatti e Simone de Oliveira a última que viria a dirigir e a única feita em liberdade.
Com o recurso a imagens das suas obras, fotografias do seu arquivo e algumas escassas entrevistas que viria a dar já nos últimos anos da sua vida, Nasci com a Trovoada: Autobiografia Póstuma de um Cineasta é um registo da sua obra, do seu pensamento e principalmente de uma certa alma atormentada pela falta da liberdade que a sua criatividade fazia sentir. Com um constante sentimento anti-regime e uma superior linha condutora que liga liberdade ao processo criativo, o documentário de Leonor Areal retrata o homem e a obra, a forma como ambos se fundem e vivem em co-dependência e sobretudo o sinal dos tempos vividos e a sua directa influência sobre o realizador eternamente atormentado com a ideia de que a sua obra não são um importante legado para a arte e sobre os tempos que vivera.
Calmo e quase sempre a um passo tranquilo e muito próprio, o documentário de Leonor Areal conserva, no entanto, toda a agitação de uma mente oprimida e colhida pela ditadura mas sempre a funcionar com o propósito maior de filmar a verdade, a realidade e sobretudo o seu tempo.
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7 / 10
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